Por mais que tentem apagar, distorcer, suavizar, o rastro de sangue não se dissipa. “Ditabranda”, dizem, como se os porões do DOI-Codi tivessem sido salas de chá. Como se o Estado não tivesse sequestrado, torturado e assassinado brasileiros que ousaram sonhar com um País livre. "Ainda estou aqui" – e este título reverbera como um soco na cara de quem insiste em negar a brutalidade de 1964.
A história de Rubens Paiva é um testemunho da crueldade desse regime que, cinicamente, muitos ainda defendem. Deputado federal pelo PTB, engenheiro, homem de muitas convicções democráticas, foi assassinado em janeiro de 1971 por agentes da repressão. A versão oficial? Fuga. A verdade? Tortura, execução e desaparecimento forçado.
A Noite do Sequestro
O relógio marcava pouco mais de seis horas da tarde quando os militares invadiram sua casa no Leblon. Sua esposa, Eunice, e os filhos assistiram impotentes à cena: homens armados, truculentos, levando Rubens sem justificativa oficial. Disseram que era um “simples interrogatório”. Nunca mais voltou.
Nos dias seguintes, começaram as idas desesperadas de Eunice a quartéis e delegacias. Antes chegoubtambem a ser presa e interrogads. Nenhuma resposta. Nenhuma pista, absolutamente NADA. Detalhe: anos e anos sem absolutamente nenhuma reposta. Apenas o silêncio típico dos regimes que transformam vidas em estatísticas. Mas o Brasil de então não era um país de silêncio absoluto. Vozes dissonantes, ainda que sufocadas, resistiam. Cartas, denúncias, depoimentos clandestinos ecoavam pelo mundo. A morte de Rubens Paiva se tornou um símbolo, um lembrete incômodo para os que insistem em pintar de cinza a ditadura verde-oliva. Sim, meus caros leitores, Eunice Paiva só teve o marido oficialmente morto em 1996 com um atestado de óbito, 25 anos depois do seu assassinato!
A Redescoberta de um Crime
Décadas se passaram, e os arquivos da ditadura começaram a ceder sob a pressão da História. Em 2012, uma ossada encontrada em Perus, em São Paulo, reacendeu a esperança de que os restos de Paiva fossem finalmente localizados. O reconhecimento oficial do assassinato e a responsabilização de alguns agentes do regime foram passos tímidos, mas importantes. Ainda assim, a ferida segue para lá de aberta.
Foi nesse contexto que Walter Salles decidiu transformar a tragédia pessoal em cinema. "Ainda Estou Aqui" não é apenas um filme. É um acerto de contas, meu caro leitor. Uma denúncia. Um memorial cinematográfico que resgata do esquecimento um homem, um crime, uma era. A direção inigualável e sensível de Salles, aliada a um roteiro impecável e atuações que tocam fundo na alma, transformaram o filme no primeiro brasileiro a conquistar o Oscar de Melhor Filme. Até agora estou aplaudindo esse feito, mesmo que muitas pessoas tenham torcido o nariz para o filme.
Memória Contra o Esquecimento
Mas a consagração da obra não apagou a reação dos negacionistas. Como sempre, gritaram “revanchismo”, acusaram a arte de ser panfletária, tentaram desqualificar o impacto histórico do filme. No entanto, a vitória no Oscar e em outros festivais mostrou que a verdade tem força. Sabemos que há muito "lobby" dos Salles e de que isso é uma forma de comercializar melhor o.gilme, porém que se dane, MESMO! Vamos discutir e de forma aberta esse 20 anos de ditadura nojenta!
Ainda estou aqui. Rubens Paiva ainda está aqui. No rosto de sua família, na luta das vítimas da ditadura por justiça, na memória daqueles que se recusam a aceitar um Brasil sem passado. Porque lembrar não é um capricho: é um dever.
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