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Agatha, a Ladra de Placas de Trânsito (e de Ruas com nomes Estranhos) [por Fred Ilek]


Agatha era uma mulher peculiar. Enquanto o mundo se preocupava com o preço do pão, a inflação, o aquecimento global e a última temporada do Big Brother, ela tinha uma obsessão singular: placas. Não apenas as de trânsito, mas também aquelas que indicavam nomes de ruas. E, convenhamos, há ruas com nomes tão estranhos que só poderiam ter sido batizadas por um bêbado em crise existencial.  
Tudo começou numa tarde quente de domingo, quando Agatha, presa num engarrafamento interminável na Rua Só Nós Dois ( Brejo da Guabiraba, Recife, Pernambuco), olhou para a placa à sua frente: “PARE”. Ela parou. Literalmente. Desceu do carro, arrancou a placa com uma chave inglesa que, por acaso, estava no porta-luvas (coincidência? Nunca.), e colocou no banco do passageiro. “Isso aqui vai ficar lindo na minha sala”, pensou.  

Mas não parou por aí. Anos mais tarde,  ao virar uma esquina, ela se deparou com a Rua Pato Donald (Ferraz de Vasconcelos, São Paulo). “Isso não pode ser real”, murmurou, enquanto desparafusava a placa. Na mesma noite, ela já tinha pendurado na parede do corredor um “PROIBIDO ESTACIONAR”**, um “MÃO ÚNICA” e, claro, a Rua Pato Donald.  
A coleção cresceu rapidamente. A cozinha ganhou um “DEVAGAR” acima do fogão e a "Rua do Grito" (Riberão Pires, São Paulo). O banheiro, lugar de reflexões profundas, foi adornado com um “CUIDADO COM O CÃO” e a "Travessa dos nomes mágicos (Vila Guarani, São Paulo). Agatha justificava: “Placas de trânsito são poesia concreta, mas placas de ruas são poesia surrealista. Quem não se emociona ao pensar na "Rua Lira dos Verdes Anos?” (jardim São Saverio, São Paulo)  

Os vizinhos achavam estranho, mas Agatha não ligava. “A vida é curta demais para ruas com nomes comuns”, dizia ela, enquanto pendurava a Rua do Corno (São Luis, Maranhão) na varanda. “Prefiro morar num mundo onde existem esquinas como a "Travessa Sentimental Demais (Jardim da Conquista, São Paulo).”  

Mas nem tudo eram flores (ou placas). A cidade começou a notar o sumiço das sinalizações. O trânsito, já caótico, ficou pior. Motoristas perdiam-se sem o “DÊ A PREFERÊNCIA” e, pior ainda, sem a Rua sem Fim (Cabo Frio, Rio de Janeiro). Pedestres corriam riscos sem o “ATRAVESSE NA FAIXA” e, principalmente, sem a Rua do Café com Leite (Londrina, Paraná). Uma prefeitura ofereceu uma recompensa por informações sobre o ladrão de placas. Agatha, é claro, ignorou.  

Até que um dia, ela foi pega. Um guarda municipal a flagrou arrancando um “NÃO PASSE” na esquina da Rua das  Borboletas Psicodélicas (Bairro do Jabaquara, São Paulo). “Senhora, isso é um crime!”, disse ele, indignado. Agatha, com a serenidade de quem sabe que está certa, respondeu: “Crime é o que vocês fazem com a língua portuguesa. ‘NÃO PASSE’? Isso aqui é centro espírita? O correto é ‘NÃO ULTRAPASSE’? Até na ortografia o trânsito é perigoso! E, aliás, quem teve a ideia de colocar uma placa dessas na "Travessa Evidências (São Paulo, São Paulo)"? Algum fã de Chitãozinho & Chororó? Isso é claramente uma provocação!”  

Presença na delegacia, Agatha foi liberada sob fiança. O juiz, perplexo, decidiu que ela faria serviço comunitário: recolher lixo das ruas. Mas Agatha, sempre à frente do seu tempo, sugeriu: “Por que não recolho placas quebradas? Posso restaurá-las e devolvê-las à cidade. E, de quebra, posso sugerir novos nomes para as ruas. Que tal a "Avenida do Riso das Galinhas ou "Rua do Suvaco de Cobra?”  

O juiz pensou primeiro em prende-la por desacato a autoridade, porém, num ato estranho, aceitou. E assim, Agatha tornou-se a mente criativa não oficial do trânsito e da toponímia absurda. Sua casa continuou cheia de placas, mas agora todas tinham um propósito: eram reparadas, repintadas e, eventualmente, devolvidas às ruas. E, claro, ela ainda mantinha uma coleção particular de nomes de ruas estranhos, como a Praça dos Enfartados (Mogi das Cruzes, São Paulo) e a Travessa da Maravilha Tristeza (São Paulo,  SP).  

Moral da história? Nunca subestime uma mulher com uma chave inglesa, um senso de humor e um amor por absurdos urbanos. E, claro, OBEDEÇA AS PLACAS DE TRÂNSITO. Até porque você nunca sabe quando a Agatha pode estar de olho.  

Fim. Ou, como eu mesmo diria coma minha educação singela: “PARE DE LER. VÁ TRABALHAR. E, SE POSSÍVEL, PASSE NA RUA DO CORNO se estiver em São Luis no Maranhão ou, se estiver na Holanda, me procure na Hardebollenstraat, combinado?"

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