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Entre a besta, deus e meu saldo zerado [por Fred Ilek/ ilustrações - Richard Bittencourt]

Se os números tivessem sentimentos, 666 estaria de saco cheio. Desde tempos imemoriais, esse pobre número vem sendo associado ao tinhoso, ao coisa-ruim, ao cramunhão. Mas, sejamos francos: é só um número! Não tem culpa se João, no Apocalipse, acordou meio inspirado e resolveu carimbá-lo como cifra da Besta. Poderia ter sido qualquer outro, mas 666 deu azar.
Do outro lado da contabilidade cósmica, temos o 111. Esse, dizem os numerólogos de plantão, é o número de Deus. Por quê? Porque sim. A numerologia é assim: você diz qualquer coisa com convicção e logo vira verdade esotérica. Talvez 111 tenha ganhado essa reputação porque, na vida, um sempre quer ser três. Ou quem sabe porque, ao contrário de 666, ninguém queria dar a Deus um número maior que três dígitos e precisou improvisar.

Já o 69, coitado, só quer ser feliz. Aliás, esse é o dia queneu nasci, seis de setembro (06/09). Porém vamos voltar a metaforar. Em si ele é puro Kama Sutra matemático, um ying-yang safadinho, um número que gira sobre si mesmo e continua o mesmo, só que de cabeça para baixo, igual a quem tenta parecer casto num motel barato. É o número do equilíbrio universal entre dar e receber. Um verdadeiro ideal platônico – se Platão tivesse um pouco mais de malícia.
E chegamos ao número mais temido do universo: o zero. Esse, sim, é um verdadeiro demônio quando aparece no extrato bancário. Não importa quantos cálculos místicos você faça, quantas pirâmides energéticas monte, quantas velas acenda para os deuses do Excel: zero é zero. É um vazio existencial digno de Sartre, um abismo financeiro, um buraco negro que suga a dignidade e a paciência do cidadão. [trilha sonora para esse drama: https://youtu.be/dAH4zGd_W1s?si=722juBI-dq099rup ]
Talvez, no final das contas, a numerologia seja apenas uma maneira divertida de dar significado ao que não tem. Mas há um número que sempre fará sentido: aquele saldo bancário que insiste em permanecer na forma mais absoluta do nada. E esse, meu amigo, não precisa de explicação metafísica para doer.

Aliás... seria 333 um número meio besta?


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