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As duas vezes que a morte me visitou (por Fred Ilek)




Há momentos na vida em que a morte nos sussurra ao ouvido, não para nos levar, mas para nos lembrar de que ela está sempre por perto, sentada à mesa, como uma convidada silenciosa que não precisa de convite. Duas vezes ela se aproximou de mim, e duas vezes eu voltei, trazendo nas mãos um punhado de perguntas e nos olhos uma nova forma de ver o mundo.  

A primeira vez foi na infância, quando o ar, esse elemento tão banal e necessário, decidiu trair-me. Uma crise de bronquite, diziam os médicos, enquanto eu lutava para respirar, como se o meu próprio corpo tivesse se tornado uma prisão de vidro, transparente e sufocante. Uma semana no hospital, uma eternidade para uma criança. Lembro-me das luzes fluorescentes, do cheiro de antisséptico, das vozes distantes que ecoavam pelos corredores. Lembro-me, sobretudo, do medo. Não o medo da morte, mas o medo de não entender o que estava acontecendo. A morte, naquela época, era uma figura distante, quase abstrata, como um conto de fadas sombrio que os adultos contavam para nos assustar. Mas ali, naquele leito de hospital, ela se fez presente, não como uma ameaça, mas como uma possibilidade. E eu, pequeno e frágil, aprendi que a vida é um sopro, literalmente.  


A segunda vez foi aos 24 anos, quando o apêndice, esse órgão inútil e traiçoeiro, decidiu rebelar-se. Uma apendicectomia supostamente simples, disseram-me. Mas o corpo, esse território desconhecido, tem suas próprias leis, e a infecção se espalhou como um incêndio em um campo seco. Novamente o hospital, novamente as luzes, os cheiros, as vozes. Desta vez, porém, a morte não era uma figura distante. Ela estava ali, ao meu lado, sentada na cadeira ao fundo do quarto, esperando. E eu, já não mais uma criança, entendi o que significava estar à beira do abismo. A vida, que antes parecia infinita, revelou-se frágil, como um fio que poderia se romper a qualquer momento. E, no entanto, foi justamente essa fragilidade que a tornou tão preciosa.  

Duas vezes a morte me visitou, e duas vezes eu voltei. Não sei se por sorte, destino ou capricho do acaso. Mas sei que essas experiências me ensinaram algo que nenhum livro, nenhum professor, nenhum discurso poderia ensinar: a vida não é uma garantia, é um presente. E cada respiração, cada batida do coração, cada momento de luz ou sombra é um milagre que devemos celebrar.  

Hoje, olho para trás e agradeço. Não à morte, que nunca foi generosa, mas à vida, que insiste em continuar, mesmo quando tudo parece perdido. E, se um dia a morte voltar a me visitar, espero poder recebê-la não com medo, mas com a serenidade de quem sabe que viveu, e viveu intensamente. Porque, no fim das contas, é isso que importa: não quanto tempo temos, mas o que fazemos com ele.  

E, cá entre nós, a morte pode esperar. Ainda tenho muito o que viver. Deixe-me em paz ✌️ 

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