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Por que você nao vai ver se eu to no Sul? – (Por Fred Ilek)


Rir as vezes é o melhor remédio. Recentemente trabalhei uma empresa controlando entrada e saida de materiais. Dentro do estoque haviam muitas pessoas de fora da Holanda. Dentre eles portugueses. Um casal e uma senhora de Lisboa, dois amigos e um casal do Porto, um rapaz de Angola e outro de Moçambique. Nas primeiras conversas risada, palavrões e comparações.
“As pessoas são diferentes aqui. Meio racistas, queuspariu”, afirmou um camarada português em uma das pausas. Ele havia trabalhado anos e anos na FEDEX em Portugal. Era a sua segunda experiência na Holanda. A primeira no sul do país.
Para morar no pais aceitou de tudo.Chegava a ficar um final de semana inteiro enfiado em um pequeno quatro apenas com seu “smathphone”. “Não há aquecimento na nossa casa”, alegou um deles. Estava frio. Quase -8º. Ficavam de casaco o dia inteiro dentro de casa e dividiam o banheiro com mais outros moradores da casa. Pagavam €350 de aluguel e ganhavam €1200 pra trabalhar. Não era a primeira vez que me deparava com isso, porém dessa vez havia sido com pessoas da minha cultura.
Antes de ver já tinha lido isso em um livro. E foi no clássico dos classicos da literatura jornalista Cabeça de Turco. Escrito pelo autor Günter Wallraff, descrevia o como o imigrante turco era tratato na Alemanha. O autor morou e se transformou em um personagem e descreveu o tratamento de um imigrante. Numa das passagens da obra o escritos descreve uma experiencia em uma fazenda na região de Colônia, 100 quilometros de onde eu moro.
Li compulsivamente esse livro quando era adolescente. Lembrava das principais passagens, das moradias e locais descrevidos pelo autor. Cheguei aqui e adquiri o exemplar em holandês (Ik - Ali) e em alemão (Ganz Unten). Reli em holandês. Dessa vez, a cada página, mais e mais vejo o que o autor descrevia em seu livro. Nada romântico. Em alguns trecho cru, direto e uma espécie de “somos assim, viu? Há anos”, pensei comigo. Não acreditava nisso até me mudar pra cá.
Moro na fronteira da Alemanha com a Holanda. Cheguei aqui há dez anos quis fazer o mesmo que Günther fez, mas não me fantasiei de turco. Por um lado puro romantismo da minha parte.
Antes disso mandei solicitações para empresas que faziam negócios com Portugal. Duas entrevistas bastou para que eu sentisse que não seria aceito fácil pelo grupo. Meu conhecimento era perfeito. Dei aulas durante anos de computação e fotografia no Brasil. Por isso nada me barrou nos provas sobre softwares ou hardwares, Na hora do olho por olho havia algo estranho no qual eu não conseguia decifrar.
“O seu conhecimento técnico é bom, porém seu português não está nas espectativas da empresa”, justificava o supervisor do setor alegando também que a vaga era para pessoas que dominavam o português europeu. Após quase três dias sendo avaliado me perguntei porque raios me chamaram aqui? Frustado percebi as poucas chances de encontrar algo em curto prazo em alguma empresa.
A solução foi pegar qualquer emprego. O que viesse pela frente. Fiz a moda antiga. Imprimi alguns curriculums e fui de porta em porta em agencias de emprego e empresas. Algumas nem me recebiam outras me passavam e-mail e depois de dispensavam com uma resposta extremamente formal. Outra vez frustrante.
Um dia veio a dita resposta, Após quase três meses de cá pra lá fui enviado ao meu primeiro emprego: faxineiro! Ok, barriga pra dentro e peito pra fora. É trabalho não importa. Era em Valkenburg, uma micro cidade turistica lotada de hotéis. Cinquenta e dois no total. Em alta temporada serviço é o que não falta. Um trabalho mais para estudantes e pessoas recém chegadas a Holanda.
Haviam muitos alemães, filipinos, russos entre outras nacionalidades. Uma vez me deparei com peruano. “Tu és de São Paulo, onde tudo é grande?”, me satirizava pelo fato de eu ser muito alto para um brasileiro. Os holandeses não entendia como nos comunicavamos. Para eles era uma espécia de idioma primitivo. Para eles a América do Sul era forrada de indios, negros e todos os cliches mostrados nos filmes. “Engraçado, o senhor não é negro”, argumentavam alguns.
O que era temporario, quase havia se tornado definitivo. Fiquei nesse tipo de trabalho por dois anos e meio. Nele vi a forma indireta no qual um estrangeiros são tratados. As atitudes mostram o que acham de você. Falam uma coisa e fazem outra. Nada é direto, pois não há coragem para falar isso na sua cara. A insegurança deles escancara quando você está nesse meio Por isso os estrangeiros formavam um subgrupo. Não nos misturavamos aos holandeses. E vice e versa. Por um lado eu conseguia. Jogava nos dois times. “Seu sotaque é belga, meio alemão”, comentavam alguns colegas de trabalho descrentes que eu era brasileiro.
Sim, o holandês é complicado. Muito mais que você imagina. Calma, o idioma é uma das grandes barreiras se voce quiser viver aqui. Não há lógica, se formos comparar com o português. Os verbos são simples, entretando dependendo da frase tem dois ou três significados. Em muitas frases se separam iniciando e terminando a frase. Verbo, assunto e outro verbo para terminam uma sentença. Sem essa sequência não há lógica.
Quando cheguei aqui em abril de 2008 sabia mais ou menos o idioma. Tinha estudado via um professor particular no Brasil e e via intenet. Entendi coisas basicas como fazer compras, indicar direções e perguntas básicas. Tinha um vocabulário razoável. Com o passar do tempo comecei a dominar o idioma com muita facilidade. O problema era a cultura,
Na primeira semana entrei no elevador com um senhor. Ele passeava com o cachorro a cada três ou quatro vezes ao dia. Era uma terapia para os dois. Ele aparentava ser simpático, por isso resolvi puxar assunto. Na minha primeira frase sua fisionomia mudou. Começou a me corrigir, como se eu fosse uma criança. Achei estranho. Intolerância? Coisa inimagivel nos Paises Baixos.
O Holanda é famosa pela sua tolerância a outras culturas. Amsterdam é uma cidade sensacional. Sinto uma espécie de capital global. Todas as culturas em uma cidade. Muita gente na Holanda ve essa cidade de outra maneira.
Moro perto de Maastricht, sul da Holanda. Cidade de André Rieu e seus concertos anuais no centro da cidade (https://www.youtube.com/watch?v=QxhAR2nzxHw). Gente do muito inteiro para ouvi-lo tocar e intonar seu afinado Limburgs. Para ser mais exato em Meestrechts, dialeto da cidade. Comprei uma vez o DVD para a minha mãe, eterna fã do músico. Nos primeiros minutos a única coisa que me veio a cabeça eram as lembraças na época de faxineiro. Parecia que estava na pausa com meu pão com queijo e café fraco escutando as conversas. A unica diferença que ouvia é que a intonação de voz mudava. Não fazia a mínima de que cidade a pessoa vinha. Kerkrads, Roermonds, Vaals entre outros. Recentemente um filme foi rodado em dialeto. Gluck Auf (https://www.youtube.com/watch?v=TYufsX9wpEQ) foi filmado na cidade onde moro. O longa metragem chegou a receber um prêmio no festival de Rotterdam.
Os anos se passaram e passei a me acostumar com os diferentes sotaques. Nas aulas de holandês meu professor fazia muitas piadas a esse dialeto. Ele era de Brabant, um estado acima. Era engraçado e nos divertiamos. A mellhor descrição para essas conversas veio em um video do humorista Herman Finkers (https://www.youtube.com/watch?v=dmODxwZ2j3g). Numa das nossas aulas ele me trouxe um artigo do jornal “Vrij Nederland” Nele um reporter descrevia como tinha sido tratado em uma agencia bancária. Ele tentava falar holandês e a atendente isistia no dialeto. Imaginei um a conversa surreal e se estivesse ao lado estaria dando risadas, numa boa.

Entre uma conversa e outra atualmente essas indiretas são claras. Não me incomodam mais. Consigo decifrar em coisa de poucas palavras. Meu sarcasmo acabou virando uma ferramenta de defesa. Com o humor fico imparcial em muitas situações. No caso dos meus colegas de lingua portuguesa me assustei. O riso aparece nesse caso como se fosse um reencontro com um parente querido. Em si ele é apenas a cereja do bolo, como descrevia o escritor português José Saramago.  

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