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Posts uit oktober, 2025 tonen

Santos 1999 (Capítulo 6 – Parte 2 (Primeiro programa, primeiro fiasco)

Capítulo 6 – Parte 2 (Primeiro programa, primeiro fiasco) A luz vermelha acendeu. Ivan respirou fundo, sentiu o microfone vibrar na palma da mão. O script estava ali, rascunhado num caderno amassado. As agulhas do toca-discos repousavam sobre a primeira faixa: um samba jazz elegante, daqueles que misturam sopro e suingue com ares de Copacabana. Ele falou. A voz saiu trêmula, grave demais: — Boa noite, São Paulo. Aqui é Ivan… é. . bem ... e hoje a gente estreia um espaço novo. Samba jazz! Eehhhh... isso mesmo... todas as noites na radio Gazeta FM. Bora toca essa bosta, pediu pra samba, sambô. Pediu pra parar, parô. Um silêncio elétrico. O operador se espanta fez um sinal de “que foi isso?”. A música entrou. Ivan de um sorriso amarelado. "Ya está... se era pra dar merda, já de. E de novo... queuspariu", pensou. Mas, conforme as faixas passavam, as palavras não vinham. Engasgava. Gaguejava. Ele não conseguia concluir uma frase sem um palavrão. Seu vocabul...

Santos 1999 - Capítulo 6 – Parte 1 -(Discos, Masp-Trianon, Rádio Gazeta. Sucesso?)

Capítulo 6 – Parte 1 (Discos, Masp-Trianon, Rádio Gazeta. Sucesso?) O metrô abriu as portas na estação Masp–Trianon. A escada rolante engolia a massa de passageiros, cuspindo-os para o coração da Paulista. Ivan subiu rápido, dois degraus por vez, com os discos embrulhados em papel pardo debaixo do braço. Na outra mão, um caderno amassado: setlists, slogans, rabiscos nervosos. O ar úmido da tarde se misturava ao barulho das buzinas, ao cheiro de escapamento e às flores da banca da esquina. Ivan respirou fundo. Sentiu-se vivo, elétrico, como se a própria cidade pulsasse dentro dele. — Caralho… — murmurou, esfregando o braço. Uma picada fina, aguda. — Até mosquito da Paulista parece agulha. Parou na banca. O jornal trazia a data estampada em letras grandes: São Paulo, 25 de maio de 1991. Ivan sorriu. O número parecia conspirar a seu favor. — Hoje é o dia. Minha segunda chance. Atravessou a rua. O prédio da TV Gazeta se erguia diante dele, imenso, concre...

Santos 1999 - Capítulo 5 – Parte 4 (Nonnino) por Frederico Ileck

Capítulo 5 – Parte 4 (Nonnino) O container parecia um palco vazio: uma poltrona de couro marrom, uma luminária de haste fina lançando luz morna, uma mesinha de madeira com um cinzeiro de cristal; ao fundo, um toca-discos deixava um jazz girar com elegância discreta. O ar tinha traços de tabaco caro e conhaque. Sentado na poltrona, impecável num terno preto, Sasha Horovitz lia o jornal do dia: “ Santos, 25 de janeiro de 1959 .” Ivan parou, em choque. Era como ver uma fotografia respirar. O avô, nos cinquenta e poucos, igual às molduras que restaram: presença firme, queixo decidido, olhos de quem pesa navios e destinos. — ¿Quién sos vos? — perguntou Sasha sem baixar o jornal. — Te parecés al tonto de mi asistente. Sólo que él se peina y se afeita. Vos, no. A voz de Ivan saiu raspando: — Nonnino… soy tu nieto. Iván… hijo de Esther. O jornal desceu. Os olhos de Sasha estreitaram, frios de negociante, quentes de quem reconhece um nome sagrado. — ¿De Esther? Mi Es...

Santos 1999 - (Capítulo 5 – Parte 3: ivancito) - por Frederico Ileck

Capítulo 5 – Parte 3 (Ivancito!) A chave rodou, pesada, mas o que se abriu não foi o apartamento sufocado de Ivan, e sim a sala da Nonna Amabile . A luz amarelada pendia do teto, refletindo na cristaleira cheia de copos. O ar tinha cheiro de café passado e lavanda. No tapete gasto, a Nonna estava sentada, arrumada como se fosse sair para um concerto. —  O quê? Eu estava no corredor do meu apartamento... e apareço na casa da minha avó? Ela morreu há semanas! Do fundo da sala, a voz firme soou: — Ivancito… en español, siempre. Nada de portugués aquí. Fuera de casa todo bien, aquí no. Aquí es mi pedacito de Montevideo. Ivan suspirou. Como aquilo era possível? “O negócio é me render”, pensou. “Não há saída. Onde vou parar? E o Raul? Se ele tá morto tem que aparecer também, porra.” Mudou de idioma com esforço. Quando falava espanhol, não era o Ivan terrível. Era apenas Ivancito . — Está bien, Nonna… pero no empieces con tus cosas. — ¿Mis cosas? ¿Mis cosa...

Analice no País da Más Notícias - Capítulo 4 – A Casa do Coelho-Âncora

Capítulo 4 – A Casa do Coelho-Âncora Analice corria atrás do Coelho-Âncora por um corredor de vinhetas luminosas. Cada “PLIM!” de plantão se tornava degrau, cada “URGENTE!” virava trampolim. — Saia da frente! — gritava o Coelho, com o microfone pendendo do pescoço. — Estou atrasado para o furo das seis! — Mas ainda são cinco e cinquenta! — respondeu Analice. — Exato! — ele berrou, sumindo atrás de uma nuvem de comerciais. — Notícia boa é aquela que chega antes de existir! Ela o seguiu até uma construção esquisita: uma casa em formato de televisor antigo, com antenas enferrujadas e janelas de tela azul. Na porta, um letreiro tremeluzia: ESTÚDIO-LAR COELHOVISÃO – AO VIVO DESDE SEMPRE Analice bateu palmas na madeira que chiava como vinheta de abertura. — Com licença…? — Entre, entre! — gritou o Coelho-Âncora lá de dentro, entre papéis voando. — Preciso de uma assistente! E de um café! E de um milagre editorial! Ela entrou. O interior parecia um camarim misturado a ...

Santos 1999 - (Capítulo 5 – Parte 2: A Porta 108) - por Frederico Ileck

Capítulo 5 – Parte 2: A Porta 108 O elevador subia devagar, estalando como se fosse desabar a qualquer instante. Ivan, encostado no corrimão, lembrava-se de Carla — sempre ela, como uma ressaca que não passava nunca. Filha de um assessor político e de uma advogada lá do Planalto Central, crescera entre os salões de Brasília, mas nunca se deixou prender pelos corredores de poder. Se formou em jornalismo e, logo de cara, já escrevia pros grandes jornais do país. Vivia de freelas bem pagos, e parecia ter a sorte de sempre cair em pé. Escrevia bem, tinha uma presença que chamava atenção em qualquer lugar, e aquele sorriso hipnotizador. Ivan chamava de “Gata da Alice”, por causa do sorriso enigmático do gato de Alice no País das Maravilhas. Fazia a piada com ar de deboche, mas no fundo morria de ciúmes do fascínio que ela causava nos outros. Enquanto ela subia, ele afundava. Carla trabalhava em São Paulo, mas escolhera viver em Santos por causa de um projeto mal-acab...