Capítulo 5 – Parte 4 (Nonnino)
O container parecia um palco vazio: uma poltrona de couro marrom, uma luminária de haste fina lançando luz morna, uma mesinha de madeira com um cinzeiro de cristal; ao fundo, um toca-discos deixava um jazz girar com elegância discreta. O ar tinha traços de tabaco caro e conhaque.
Sentado na poltrona, impecável num terno preto, Sasha Horovitz lia o jornal do dia: “Santos, 25 de janeiro de 1959.”
Ivan parou, em choque. Era como ver uma fotografia respirar. O avô, nos cinquenta e poucos, igual às molduras que restaram: presença firme, queixo decidido, olhos de quem pesa navios e destinos.
— ¿Quién sos vos? — perguntou Sasha sem baixar o jornal. — Te parecés al tonto de mi asistente. Sólo que él se peina y se afeita. Vos, no.
A voz de Ivan saiu raspando:
— Nonnino… soy tu nieto. Iván… hijo de Esther.
O jornal desceu. Os olhos de Sasha estreitaram, frios de negociante, quentes de quem reconhece um nome sagrado.
— ¿De Esther? Mi Esther… mi única hija. — Riu baixo, incrédulo. — Pero ella todavía es tan joven. Y vos… parecés un náufrago. ¿Cómo llegaste acá? ¿Los guardias duermen?
— Ella se casó con David Della Seta — disse Ivan, firme. — Yo soy su primer hijo. Nací aquí, en Santos. Hoy.
O toca-discos seguia marcando o compasso, como um coração educado. Sasha tragou o charuto, soltou a fumaça devagar, provou o conhaque.
— David… siempre correcto, excelente con los números, bien relacionado. — Fez um gesto breve com a mão. — Pero nunca estuvo a mi altura. Él hace cuentas; yo hago futuro.
E depois, quase quebrando a pose:
— Esther siempre fue mi tesoro. Y Sara… mi Sara fue la mujer que amé. Pero mi gran amor, Iván… — apontou, instintivo, para o vazio além da porta — fue el puerto. El trabajo. El movimiento de las cosas.
Ivan sentiu a frase bater como um guindaste nos trilhos. Sempre quis ser como ele; ali estava o molde — com brilho, com falha, com verdade. Sasha recostou, bateu a cinznoem um belissimo cinzeiro de cristal.
— Si sos el hijo de Esther, sos mi primogénito también. Y mirate… perdido, con los ojos vacíos. — Ergueu o copo. — Brindemos. No por vos: por Esther. Ella fue lo único que hice bien… cuando no estaba casado con el trabajo.
Ivan deu um passo à frente. O chão tremeu de leve. O jazz aumentou, como se o puxasse para dentro da música.
Sasha levantou a mão, encerrando o assunto com a autoridade de quem fecha um contrato:
— Vos querías ser yo, ¿no? Yo pensé que trabajaba para Esther y para Sara… Pero la verdad, Iván, trabajaba para el puerto. Y eso no perdona.
Fez um aceno quase terno.
— Anda. Tu tiempo aún no llegó.
A luz piscou. O container pareceu respirar. O som do contrabaixo virou correnteza. Ivan sentiu o puxão — firme, inevitável — e, antes que pudesse responder, a escuridão fechou a porta atrás do último acorde.
Então vieram as vozes, distantes, quebradas, como se atravessassem água:
— Já checou a pressão?
— Instável. Os batimentos oscilaram muito.
— E agora?
— Segundo a mãe, ele já era um vegetal que andava… A namorada o deixou por abusos.
— Que fim triste. Eu gostava dele na rádio. Na capital, então… era ouro. trabalhava em grandes rádios, dizia a avó.
— Pois é. Agora parece um andarilho perdido.
As palavras se confundiam com o saxofone, ecoando dentro dele. Ivan tentou se mover, mas o corpo não obedecia. Só o som: bum, bum, bum — o baixo marcando seu coração.
De repente, conseguiu respirar de novo. Abriu os olhos: estava sentado dentro de um vagão de metrô, descendo na estação Masp-Trianon. Era mais jovem, leve, vibrante.
Subiu as escadarias com um maço de anotações debaixo do braço e alguns discos de samba jazz recém-comprados. Do lado de fora, o prédio da TV Gazeta o esperava, imenso, como uma promessa.
Parou numa banca de jornal. A data estampada na capa:
São Paulo, 25 de maio de 1991.
Trinta anos. O auge de sua carreira.
Ivan ergueu a cabeça, os olhos acesos.
— Pediu pra samba, sambô. Pediu pra parar, parô. — Sorriu de canto. — Foda-se pra onde isso vai me levar. Bora gravar. Bora fazer o que eu mais gostava… ou gosto. Bora mudar a história.
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