Capítulo 4 – A Casa do Coelho-Âncora
Analice corria atrás do Coelho-Âncora por um corredor de vinhetas luminosas. Cada “PLIM!” de plantão se tornava degrau, cada “URGENTE!” virava trampolim.
— Saia da frente! — gritava o Coelho, com o microfone pendendo do pescoço. — Estou atrasado para o furo das seis!
— Mas ainda são cinco e cinquenta! — respondeu Analice.
— Exato! — ele berrou, sumindo atrás de uma nuvem de comerciais. — Notícia boa é aquela que chega antes de existir!
Ela o seguiu até uma construção esquisita: uma casa em formato de televisor antigo, com antenas enferrujadas e janelas de tela azul. Na porta, um letreiro tremeluzia:
ESTÚDIO-LAR COELHOVISÃO – AO VIVO DESDE SEMPRE
Analice bateu palmas na madeira que chiava como vinheta de abertura.
— Com licença…?
— Entre, entre! — gritou o Coelho-Âncora lá de dentro, entre papéis voando. — Preciso de uma assistente! E de um café! E de um milagre editorial!
Ela entrou. O interior parecia um camarim misturado a redação. Cadeiras giravam sozinhas, microfones cochichavam uns com os outros, câmeras piscavam como vaga-lumes.
O Coelho-Âncora corria de um lado a outro, trocando de gravata e humor a cada segundo.
— Viu meu roteiro? — perguntou, ofegante. — Tinha um bloco inteiro sobre você!
— Sobre mim?
— Sim! “Mulher misteriosa invade telejornal e muda de tamanho conforme a audiência”. Está dando pico de ibope! Continue assim!
Analice sentiu o rosto queimar.
— Eu não sou notícia!
— Todos são — respondeu o Coelho, já penteando as orelhas. — Uns por fazerem algo, outros por negarem que fizeram. Fique parada, vou ajustar sua luz dramática.
Enquanto ele mexia nas lâmpadas, Analice notou uma xícara sobre a mesa. Estava rotulada: “Beba e apareça”.
— É só um café para acordar a sua imagem pública — disse o Coelho, distraído.
Sem pensar muito, ela bebeu.
Imediatamente, sentiu-se crescendo. Primeiro a cadeira sumiu sob ela, depois o estúdio. Sua cabeça atravessou o teto de tela. O Coelho-Âncora gritou:
— Minha audiência! Está estourando o enquadramento!
— Não consigo parar de crescer! — gritou Analice.
— Encolha logo! Encolha! — implorou o Coelho, apertando botões. — Se continuar assim, vai ocupar todo o horário nobre!
Analice tentou se dobrar, mas quanto mais se contorcia, mais aumentava. Os refletores pendiam como frutas maduras; os cabos de som se enrolavam em suas pernas como serpentes elétricas.
— É muita visibilidade! — gemeu. — Estou ficando transparente!
De repente, um jingle ecoou do teto:
“QUEM CRESCE DEMAIS VIRA NOTÍCIA E SOME DEPOIS!”
Analice, agora enorme, olhou ao redor. As câmeras tremiam, os microfones sussurravam boatos sobre seu tamanho.
— É sempre assim — comentou o Gato do Auditório, surgindo entre as luzes, só o sorriso. — As pessoas querem aparecer até perceberem que ser vista demais é desaparecer por dentro.
— Então o que faço? — perguntou Analice, quase chorando.
— Experimente o oposto — aconselhou o Gato. — Tome um pouco de silêncio.
Ela procurou algo que se parecesse com silêncio. Em um canto da mesa, uma pequena garrafa trazia o rótulo “Tome-me devagar”.
Um gole, e o estúdio começou a encolher — ou talvez fosse ela. As câmeras ficaram enormes, o microfone virou montanha, e Analice se viu outra vez do tamanho do Camundongo-Correspondente, que agora espiava por uma fenda no chão.
— Senhorita! — sussurrou ele. — O Coelho-Âncora chamou reforços. Querem te transformar em pauta fixa!
— Pauta fixa?
— Sim! Toda semana, às quartas, “Analice e suas Metáforas do Caos”!
Ela estremeceu.
— Preciso sair daqui.
Com a ajuda do Camundongo, arrastou-se por uma fenda atrás do cenário. Do outro lado, um corredor de fios e cabos levava a um letreiro piscando:
“ENTREVISTA EXCLUSIVA COM O TEMPO, AO VIVO!”
Analice respirou fundo.
— Acho que está na hora de eu conversar com ele.
O Camundongo fez um aceno e ficou para trás, anotando perguntas.
E, sem olhar para trás, Analice entrou no corredor iluminado, onde cada passo soava como tique-taque de relógio prestes a dar notícia.
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