Capítulo 6 – Parte 2 (Primeiro programa, primeiro fiasco)
A luz vermelha acendeu.
Ivan respirou fundo, sentiu o microfone vibrar na palma da mão. O script estava ali, rascunhado num caderno amassado. As agulhas do toca-discos repousavam sobre a primeira faixa: um samba jazz elegante, daqueles que misturam sopro e suingue com ares de Copacabana.
Ele falou. A voz saiu trêmula, grave demais:
— Boa noite, São Paulo. Aqui é Ivan… é. . bem ... e hoje a gente estreia um espaço novo. Samba jazz! Eehhhh... isso mesmo... todas as noites na radio Gazeta FM. Bora toca essa bosta, pediu pra samba, sambô. Pediu pra parar, parô.
Um silêncio elétrico. O operador se espanta fez um sinal de “que foi isso?”. A música entrou. Ivan de um sorriso amarelado. "Ya está... se era pra dar merda, já de. E de novo... queuspariu", pensou.
Mas, conforme as faixas passavam, as palavras não vinham. Engasgava. Gaguejava. Ele não conseguia concluir uma frase sem um palavrão. Seu vocabulário já estava pra lá de poluído e ninguém na época estava acostumado com isso. "Até o Marcelo Nova teve programa em rádio, mas pô, isso foi anos depois... acho que mifu pesado", mormurou. Mesmo assim tentava improvisar e tropeçava. As mãos suavam, a testa ardia.
Depois de cinquenta minutos que pareceram dez horas, a luz vermelha apagou.
O chefe entrou, cara neutra:
— Foi… ok.. é, poderia ser melhor. Você fala de maneira muito bruta. Vai ter que corrigir isso. Cara, cê precisa de ritmo. Se é jazz tem que ser refinado. Você não pode falar como um servente de obras, sacô? Acho que você esta nervoso demais. Ouvinte não perdoa isso.
Ivan desceu a rua da Paulista sem enxergar nada além de luzes borradas. Em casa, abriu uma garrafa de vinho barato e apagou na poltrona, com o gato da vizinha enroscado no colo.
— Esqueci que você sempre escapa da casa dela. Tem duas casas, né, malandrão?
— Claro — respondeu o gato.
— Pô, você fala!
— Hoje eu tô afim.
Ivan piscou, meio bêbado.
— Hoje pode ser amanhã, que foi ontem. O agora é o passado do futuro.
— Gosto de filosofia. Por isso que venho aqui. Ora pra te ouvir falando sozinho.
— Mas por que nunca respondeu antes?
— Porque geralmente eu só tenho fome e acho essa sua poltrona uma maravilha. A Creusa só fala de novela e problema de família, um tédio. Você as vezes solta umas coisas engraçada. Tipo: vai te a merda pelotudo. Ninguém fala assim aqui. Só você.
Ivan riu, coçou os olhos.
— Falando em dormir… preciso descansar. Vai ficar aí?
— Deixa a porta entreaberta. A Creusa me chama logo logo.
— Tá bom, Miles.
— Pitôco, pish pish pish…
— Te falei!
— Pra Creusa eu sou Pitôco. Que merda. Pra você, Miles. E pra uma senhora do 307, Lindomar.
— Caraca, tu é um filho da puta mesmo. Espera a vez sem estrilar. Que bicho da desgraça. Já comeu?
— Não. O que tem?
— Pizza.
— Baah… deixa pra lá. Da Creusa eu ganho sardinha. Só venho aqui pelo sofá e pela música.
— Vai então. Até daqui a pouco.
— Até uma próxima. Se houver.
Quando abriu os olhos, não estava na mesma noite.
Era três meses depois. O calendário da cozinha marcava agosto de 1991. O rádio, ligado sozinho, repetia o boletim esportivo da Gazeta.
O telefone tocou. Ivan atendeu, sonolento.
— Ivan? — era a voz seca do chefe. — O programa não deu certo. Ou você volta pra técnica, ou está fora. Decide.
Ivan não discutiu. Apenas murmurou:
— Cara, eu volto. Sem nenhum problema.
Desligou e ficou parado. O gato saltou para a mesa, encarando-o. Os olhos verdes brilhavam no escuro.
— Voltar é fácil, não? — a voz não vinha de lugar nenhum, mas soava clara. — Difícil é aceitar que você nunca muda nada.
Ivan riu nervoso:
— Pois é, meu caro. Que merda, né?
— Falando em merda… vomitei no tapete da entrada e mijei no seu tapete . Limpa aí.
— Filho da puta! Vou te xingar de Pitôco e esquecer que você é Miles.
— Pitôco pra Creusa, Miles pra você e Toninho pra Lindomar pra dona do 307.
Ivan gargalhou cansado. O gato ergueu o rabo, se espreguiçou e disse:
— Até logo, Ivan. O futuro não espera.
E saiu pela porta entreaberta.
Reacties
Een reactie posten