Capítulo 6 – Parte 1 (Discos, Masp-Trianon, Rádio Gazeta. Sucesso?)
O metrô abriu as portas na estação Masp–Trianon. A escada rolante engolia a massa de passageiros, cuspindo-os para o coração da Paulista. Ivan subiu rápido, dois degraus por vez, com os discos embrulhados em papel pardo debaixo do braço. Na outra mão, um caderno amassado: setlists, slogans, rabiscos nervosos.
O ar úmido da tarde se misturava ao barulho das buzinas, ao cheiro de escapamento e às flores da banca da esquina. Ivan respirou fundo. Sentiu-se vivo, elétrico, como se a própria cidade pulsasse dentro dele.
— Caralho… — murmurou, esfregando o braço. Uma picada fina, aguda. — Até mosquito da Paulista parece agulha.
Parou na banca. O jornal trazia a data estampada em letras grandes:
São Paulo, 25 de maio de 1991.
Ivan sorriu. O número parecia conspirar a seu favor.
— Hoje é o dia. Minha segunda chance.
Atravessou a rua. O prédio da TV Gazeta se erguia diante dele, imenso, concreto e vidro. Ali dentro, passara dois anos enterrado em cabos, jingles, fitas e vinhetas. Produzia programas para DJs veteranos, gravava comerciais baratos, fazia o trabalho sujo e silencioso que mantinha a engrenagem girando.
Mas, naquela noite, a chance era dele. O programa que sonhava desde a faculdade: “Sambando com Jazz”. Um espaço inteiro dedicado a João Gilberto, Stan Getz, Dom Salvador, Rio 65 Trio. O formato era ousado: entrevista, história e improviso. Já tinha até acertado, para dali a alguns meses, uma conversa exclusiva com Roberto Menescal.
Pela primeira vez, não seria só o homem da técnica. Seria voz. Seria dono de um horário.
Ivan ajeitou o casaco. Barba feita, cabelo aparado, terno simples mas digno. Mexeu no bolso, sentiu o peso das chaves do apartamento minúsculo que comprara a duríssimas parcelas na Paulista. Tinha usado parte da herança do avô. O resto, planejava investir em Santos — talvez num bar de música ao vivo, para concorrer com o Torto do Canal 4. Ainda não tinha sócio, nem capital, mas tinha certeza de que o destino se ajeitaria.
Na sua cabeça, tudo era ritmo. Até negócios funcionavam em compassos: dois para frente, um para trás, improviso no meio.
Marina, sua noiva arquiteta, não entendia nada disso. Filha de uma família de classe média alta, só o via nos fins de semana. Ivan a tratava como se fosse uma mobília útil — bonita, mas sem música.
— Beleza de deusa grega, carisma de um orelhão da Telesp — resmungou.
Entrou na rádio com passo firme. O segurança o cumprimentou, os corredores cheiravam a café requentado e poeira de fitas magnéticas. Ivan sorriu. Aquilo, para ele, era perfume. "Se isso for real... cara... a vida é um tremendo milagre", pensou. Ivan voltou ao porteiro, deu um temendo abraço nele e gritou:
— Mané, Não só Jesus te ama. EU TAMBÉM!
— Eita seu Ivan... cê pirô... oxi!
Suniu correndo as escadas e na sala de locução, espalhou discos e anotações. O microfone negro o esperava. Ele passou a mão na superfície fria e disse, para si mesmo:
— Pediu pra samba, sambô. Pediu pra parar, parô.
— Rapaz, tá animado, hein? — comentou o técnico de som. — Tá pronto?
— Sempre. Renasci pronto — respondeu, sem hesitar.
O relógio marcava pouco antes das oito da noite. A luz vermelha acenderia em segundos.
A cidade inteira ouviria Ivan Della Seta pela primeira vez.
Para ele, era a segunda.
Para o rádio, seria apenas uma nota breve — um sopro que duraria pouco antes de se apagar.
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