Capítulo 5 – Parte 2: A Porta 108
O elevador subia devagar, estalando como se fosse desabar a qualquer instante. Ivan, encostado no corrimão, lembrava-se de Carla — sempre ela, como uma ressaca que não passava nunca.
Filha de um assessor político e de uma advogada lá do Planalto Central, crescera entre os salões de Brasília, mas nunca se deixou prender pelos corredores de poder. Se formou em jornalismo e, logo de cara, já escrevia pros grandes jornais do país. Vivia de freelas bem pagos, e parecia ter a sorte de sempre cair em pé. Escrevia bem, tinha uma presença que chamava atenção em qualquer lugar, e aquele sorriso hipnotizador. Ivan chamava de “Gata da Alice”, por causa do sorriso enigmático do gato de Alice no País das Maravilhas. Fazia a piada com ar de deboche, mas no fundo morria de ciúmes do fascínio que ela causava nos outros.
Enquanto ela subia, ele afundava.
Carla trabalhava em São Paulo, mas escolhera viver em Santos por causa de um projeto mal-acabado dele: a rádio de frente pra praia. Um investimento que parecia promissor, mas que naufragou junto com os sócios — todos caíram fora, menos ele, teimoso, afundando junto com o barco. Ela, no entanto, gostava da cidade, e alugara um apartamento no Gonzaga, espaçoso, com vista. Ele, com o bolso curto e suas manias, comprara um caixote que chamava de “apê”, e que ela detestava. Pequeno demais, claustrofóbico, sem charme. Raras vezes ia lá, mas tinha as chaves. Usava as vezes como escritório e também para guardar materiais da rádio. Quando tinha discussões intensas com Carla, dormia no local. Só!
E agora, parado diante da porta amarela descascada do 108, com a chave suada entre os dedos, Ivan tinha certeza de que era Carla quem estava dentro. Só podia ser.
Girou a chave.
Travada. Como se houvesse outra do outro lado, segurando o miolo.
Do apartamento, veio um som abafado: panela batendo contra o fogão. Passos lentos. O cheiro de comida escapava por baixo da porta. Ivan riu sozinho, nervoso, quase patético.
— Se for a Carla mesmo… vai ser um inferno. Nem sei que dia é hoje. A gente tinha muitos ranca rabos — murmurou.
Então, um detalhe o paralisou: havia um rádio ligado lá dentro. E a voz que saía não era qualquer locutor. Era a dele. Ele próprio, apresentando um programa antigo, uma entrevista esquecida, um comentário que já não lembrava ter feito.
Ivan recuou um passo. O corredor parecia mais comprido do que antes, o elevador havia sumido atrás dele — só parede de concreto, sem porta. O número 108 sumiu, a porta trocou de cor, como se alguém tivesse acabado de pintá-la.
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