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Santos 1999 - Capítulo 4 – Parte 3: Os Alquimista estão chegando [por Frederico Ileck]


Capítulo 4 – Parte 3: Os Alquimistas estão chegando

A boca do túnel se abriu como se cuspisse Ivan de volta para uma cidade que ele conhecia bem demais e, ao mesmo tempo, parecia outra. Não havia mais Carla no banco ao lado. O camarada Niva seguia firme, o motor vibrando sob suas mãos, mas o silêncio dentro do carro era ensurdecedor. Ele olhou para o banco do carona e viu apenas o vazio. Nenhuma manta, nenhum rastro do perfume doce que misturava sal de mar e protetor solar. Nada.

Ivan olha no pulso. O relógio marcava: 00h15.

Ele reconheceu imediatamente o ponto em que estava: a saída do túnel do centro de Santos, aquele que desembocava quase em frente à rodoviária. O centro da cidade naquela hora pairava ainda numa nuvem densa de óleo diesel dos ônibus que zanzavam madrugada adentro, misturada ao cheiro de fritura dos últimos pastelzinhos em botecos sobreviventes. "As vezes eu queria saber como fazem esse ovos coloridos. Que nojo. Do jeito que tô agora, acho que nem faria efeito em mim", pensou.

Ivan estacionou o Niva alguns metros adiante. Dali podia ver a fachada da Atlântica FM, a rádio onde passara tantas noites longas, tocando discos para uma audiência que, muitas vezes, ele desconfiava nem existir. O letreiro de neon piscava intermitente, azul e branco,  como se também tivesse ressaca. Nessa noite nenhuma das luzes estavam queimadas. Todas iluminadas. "Finalmente chamaram o eletricista nessa merda. Tiraram dinheiro da bunda pra pagar isso. Não sei como sobrevivo com o salário daqui!", resmungou. 

Caro leitor, percebe-se que isso é uma rotina na vida de Ivan, reclamar. Mesmo em um dimensão que ele nem faz ideia se existe ou não.

Ele desligou o motor, respirou fundo e murmurou:

— Isso só pode ser alguma doideira do Paulo… não é possível. Aquele filho da puta adora me usar de cobaia. C-A-R-A-L-H-O! Stephen King ia ficar com inveja ou ia me processar.

Paulo Sintra. Ou, como todo mundo chamava, Paulo Alquimista.

Ivan lembrava bem de como o apelido nasceu, meio por acidente, meio por maldade. Paulo tinha sido expulso da faculdade de engenharia química depois de uma festa em que resolveu “testar” uma bebida batizada com um alucinógeno que ele mesmo tinha sintetizado num laboratório improvisado. Resultado: meia dúzia de colegas jurou ver anjos dançando em cima das mesas, outros disseram que as cabeças trocavam de lugar, três garantiram conversar a noite inteira com bisavós mortos — e o reitor, no dia seguinte, quis a cabeça dele numa bandeja de prata.

Expulso, mas jamais abatido, Paulo se reinventou. Caiu no mundo do rádio como técnico de som. Era o cara que entendia de cabos, mesas, válvulas, transmissores — mas também misturava cafeína com pós estranhos, testava ondas sonoras como se fossem drogas e vivia repetindo que “a música é a verdadeira química do século XX. Frank Zappa e Walter Franco são gêmeos siameses”. Sim, Paulo era um doido varrido, porém era um tremendo engenheiro de som (e também muito barato, por isso o dono da rádio adorava ele).

Ivan odiava Paulo Coelho, o escritor, e nunca perdia a chance de cutucar o amigo:

— Paulo, o único bem que esse cara fez pra música brasileira foi ter trabalhado com o Raul. De resto, só vende autoajuda pra desesperado.

Paulo, com seu sorriso torto, aceitava a provocação e respondia:

— Pois é, Ivan. E olha a ironia: você só sobrevive às madrugadas porque eu, o Paulo “Alquimista” Sintra, regulo a sua voz nos dials e coloca uns sons estranhos que criou. Como cê tá hoje? Precisa de um ânimo?

— Cara... eu tô estranho. Acho que nem preciso daquela barulhada que tu prepara.

— Cê que sabe! 

Aquela noite, parado diante da rádio, Ivan sentiu um arrepio. Como se aquele reencontro fosse inevitável.

Empurrou a porta pesada da recepção. O lugar era simples, piso gasto, paredes forradas com pôsteres de shows antigos — Rita Lee, Mutantes, Jards Macalé, Walter Franco, Itamar Assumpção e outros malditos colados um por cima do outro. Café e cigarro eram os únicos companheiros fiéis.

Ivan acendeu um cigarro, e Paulo comentou:

— Semana passada você disse que tinha parado de fumar.

— Sério? Há uns dias atrás eu jurava que estava com meus pais, passando o Ano Novo.

— Ano Novo? Ivan, a gente ainda tá em junho!

— Aliás, que dia é hoje?

28 de junho de 1999.

— Sei que tu manja de química e outras paradas, mas conhece algum pai de santo ou padre? Eu tô numa viagem que nem sei onde raios vou parar. Saravá!

— Ué, juro por Deus que sou ateu! Você sempre fala isso, cara. Mudou de ideia?

— Ainda não. Só se eu encontrar com Jesus. Aliás, a gente tem que começar essa porra de programa.

— Já tô preparado.

— Prepara aquela pedrada dos Doobie Brothers. Já que falamos do “cara”, então vai. "Jesus Is Just Alright"


— Tu virou evangélico agora?

— Não, tonto. Só escolhe essa desgraça enquanto eu preparo as cabeças do programa. Hoje não vou improvisar. E se ligar um desavisado, vou evitar grosserias. Aliás, tu botou alguma daquelas tuas merdas nesse café?

— Não, eu parei depois que minha mina tomou um gole e alucinou que eu era um… minotauro com três chifres. Até hoje fico pensando nessa metáfora. Cê acredita em mitologia e seus símbolos?

— Quê? Depois tu me conta essa doideira. Cara, tá cada vez pior.

Paulo pôs a vinheta. Ivan anunciou a música e entrou:

"When I die and they lay me to rest

Gonna go to the place that's the best

When I lay me down to die

Goin' up to the spirit in the sky"

— “Spirit in the Sky”? EU NÃO PEDI NORMAM GREENBAUM. Tu tá me zoando?

— Juro que escolhi os Doobie Brothers. Alguém trocou o CD.

— Agora foda-se. Deixa rolar.

O som fazia mais eco do que o normal pelo pequeno estúdio. O corredor estreito parecia se expandir sozinho, alongando-se até se abrir em um espaço impossível.

— Que merda você colocou no café, Paulo?

— Nada! Deve ser agrotóxico da safra, só pode. Ninguém controla essa desgraça.

— Tá vendo o que eu tô vendo?

O corredor se abriu e surgiu uma escada rolante. No alto dela, Tom Zé apareceu — despenteado, camisa fora da calça, com aquele jeito de profeta maltrapilho. Ivan, ainda atônito, só conseguiu pensar numa frase que tinha lido em algum livro: 

“Quando nasci, um anjo torto

Desses que vivem na sombra

Disse: Vai, Carlos, ser gauche na vida

Ivan não estava torto, mas Tom Zé estava. E como! "De novo esse cara... não pode ser", pensou.

— Rapaz, tu é mal-educado. Queria falar contigo e tu mete o dedo do meio na minha cara. Oxi, qualé?

— É que eu tava procurando alguém… — Ivan respondeu.

— Carla. Carlinha. Que lindinha... Daria até uma música.

Ivan gelou.
— Pára... pára... Chega! Como tu sabe disso?

— Eu sei. Tá rebocado, meu cumpadi?

— Isso é Raulzito. Tá plagiando.

— Tô pegando emprestado. Tô bem debaixo pra poder subir. Eu tô te explicando pra te confundir.

— Já que tu tá aqui, Tom Zé, bem que você podia dar uma entrevista — sugeriu Paulo, ajeitando os óculos como quem tinha achado ouro.

— Não, não, não, mil vezes não. Esse cara não para de falar — Ivan cortou, soltando a fumaça pelo nariz.

— Foi só uma ideia meu… — Paulo deu de ombros. — Aliás, lembra o nome do café? Essa viagem aqui eu tô gostando. Cê sacou aqueles besouros ali na ponta?

— Aquilo é uma barata, respondeu Tom Zé.

Ivan largou o cigarro no cinzeiro e encarou a escada rolante. O barulho metálico dela girando, clac, clac, clac, parecia se misturar com a música.

Tom Zé tomou o lugar de Paulo, tirou um K7 da bolsa e colocou na sequência.

"Sonho que se sonha sóÉ só um sonho que se sonha sóMas sonho que se sonha junto é realidade"

— Raulzito reproduzido por Tom Zé, o dj. Eu não tô gostando nada disso. Quando começa a parecer divertido, é porque tá virando pesadelo. 

Tom Zé riu, coçando a cabeça desgrenhada.

— Rapaz, o problema é que você vive tentando traduzir o inefável. O som é o que é. A vida é o que é. A Carla é o que é. A vida é uma invenção das parafernalhas...

Ivan interrompe bruscamente.

— Cara, não começa. Essas viagens tuas me irritam. Alias... Tu falou pela segunda vez o nome de Carla. Como é que você sabe esse nome? — Ivan quase sussurrou.

— Ah, meu filho… todo mundo sabe. Você é o único que insiste em esquecer. Esquecer é uma falha cerebral do neu...

— Cara, tu não sabe terminar uma frase sem fazer essas viagens poéticas. Isso é irritante. Acho que isso é um teste pra minha paciência.

Paulo bateu a caneca na mesa.
— Viu só, Ivan? Eu não falei que a frequência abre? 450hz e um pouco de LSD. Tá ai! E hoje só mexi na frequência. Não coloquei nada, absolutamente nada. Tá aí a prova viva! Eureka!

— Cala a boca, Paulo. Prova viva é coisa de testemunha de Jeová alicinado pelo Espírito Santo, e eu já disse que não vou virar crente.

O estúdio tremeu, como se um ônibus tivesse passado em cima da rádio. Os pôsteres vibraram. A voz de Tom Zé se multiplicou pelos alto-falantes, repetindo o nome de Carla em ritmos quebrados, como um sample maluco:

Carla, Carlinha, lindinha, Carla…

Ivan se levantou, nervoso.
— Chega. Se isso for mais uma das tuas experiências, Paulo, eu juro que te mato.

Mas quando olhou pro amigo, viu que Paulo não ria nem debochava. Estava sério, em transe, olhando fixo para uma escada rolante.

— Ivan… acho que ela tá do outro lado.

O coração de Ivan disparou. Sua pressão fora as alturas. Ele esmagou a bituca no cinzeiro.
— Se tiver mesmo, eu vou descobrir. Mas se for só mais uma viagem tua, Paulo… se prepara, seu psico! Eu volto aqui e a gente vai pro inferno JUNTOS. Hijo de una RE puta!

E ainda fica irritado quando te chamam de espanhol de merda, respondeu Paulo de bate pronto.

Agentino, Uruguayo, Rioplatense, Porteño... tudo menos Español pelotudo! Y con orgullo!

Deu dois passos. O som aumentou, misturado à viola de O trem das 7 cantada por Tom Zé

— Mais uma do Rauzito?

— Além de morto ele tá de férias. Desce logo essa escada rapaz, ironiza Tom Zé

O DJ olha a sua volta e o letreiro vermelho de No Ar piscava descontrolado, como se a cidade inteira estivesse acompanhando.

Ivan encostou o pé no primeiro degrau. A escada rolou sozinha, puxando-o para dentro da luz.

A última coisa que ouviu, antes do estúdio desaparecer atrás dele, foi uma voz feminina, cristalina no fone pendurado no microfone:

Ivan… cadê meu Fabio Junior? Não aguento mais ouvir Taiguara.

20 e poucos anos começou a tocar enquanto a escada descia.

— Em 20 e poucos anos de carreira... toca Fábio Jr. nesse programa. Tá ai, só pode ser um sinal... a decadência! 

"Nem por você nem por ninguémEu me desfaço dos meus planosQuero saber bem mais que os meus 20 e poucos anos"

E Ivan desce a escada rolante...


Caro leitor, não tá entendendo xongas?

Eu também não (e olha que eu sou o escritor 👍)

Tá ai, pra facilitar caqui estão o capítulos: 

cap. 1, 

Cap. 2

Cap. 3, 

Cap. 4.1;

Cap. 4.2;

That's all folks... eu não faço a minima que vai acontecer. Caralho Paulo... o que voce colocou no meu café... tem um cara andando no teto!!!!

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