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Santos, 1999 (Capítulo 1 – O Último Réveillon) - por Frederico Ileck

Capítulo 1 – O Último Réveillon

Ivan nunca gostou de dezembro.

Cheiro de fruta esquecida na fruteira, caldo doce-azedo escorrendo. Pernil gorduroso. Vinho barato que acorda a dor de cabeça antes do dia amanhecer. Para ele, o fim do ano sempre teve essa cara: o mundo apodrecendo nos últimos dias, como peixe largado no sol.

Houve um dezembro bom. Um só. Anomalia. Melhor não lembrar.

Naquela noite, o ar de Santos estava pesado. Maresia grossa, grudando na pele. Calor que vinha como hálito na nuca. E do lado do emissário submarino, o cheiro quase sólido: peixe morto e esgoto quente. “De onde vem essa desgraça?”, murmurava sempre que olhava para o lado errado da varanda.

O apartamento não era dele. Décimo andar, paredes que um dia foram brancas. Era da tia Linda, irmã da mãe, emprestado enquanto ela curtia a Europa. Vista para o mar? Só se considerasse a outra Santos: concreto rachado, gatos magros atravessando o calçadão como se corressem para um compromisso.

A cidade estava em alerta: boatos de briga marcada na virada. Em Santos, bastava um moleque de boné virado para o medo correr. Ivan chamava de “folclore urbano”.

Horas antes, ele tinha saído da Rádio Atlântica FM. Madrugada era seu território — das 1h às 6h — único horário em que podia tocar o que quisesse: Can, Tangerine Dream, Devo, Kraftwerk. Sequências impraticáveis no horário comercial.
No expediente diurno, aquilo seria veneno. Na madrugada, não havia gerente.

Caos Noturno, o nome do programa. Telefone tocando no meio das músicas: bêbados arrastando palavras, taxistas irritados, caminhoneiros pedindo Roberto Carlos. Ele atendia e ignorava pedidos. Uma enfermeira queria Fábio Júnior, ele metia Taiguara. Um segurança declamava poemas, ele deixava ao vivo. Uma mulher pedia Aerosmith toda noite — nunca tocou.

Era seu reino. E ainda assim, por baixo da anarquia, a vida dele estava desmoronando. Carla Carta — jornalista, pele morena indecisa, olhos verdes com salpicos dourados — tinha sumido meses antes, deixando um bilhete com versos de Drummond e a ordem “Não me procure!”.

Ele carregava aquele papel dobrado na carteira. Peso morto no bolso.

Agora, 31 de dezembro. A mãe reclamava do coentro esquecido. O pai assistia TV em silêncio. Ivan, na varanda, via a praia se encher de roupas brancas e latas de cerveja. Fogos antes da hora expulsavam pombas sonolentas.

Às 23h47, relâmpagos cortaram o mar. Navios-cargueiros iluminados pareciam esqueletos de aço. Ivan sorriu e inventou uma equação absurda na cabeça:

emissário + jardim da praia + cerveja + caiçara ≠ caipira + falso carioca - bom gosto = santista.

E então parou. Um cheiro atravessou o ranço de maresia: Chanel nº 5. O perfume de Carla. O coração deu um passo em falso. Abriu e fechou os olhos, mas não havia ninguém.

Às 23h50, a chuva caiu como moedas de metal. Rajadas derrubaram cadeiras, arrancaram barracas. No rádio-relógio, a hora piscou e trocou: 23:50 → 23:12 → 00:03 → 23:57.

Ivan foi para o quarto.
— Ano de merda… se eu pudesse refazer 1999, voltava tudo. — disse, quase rindo.

Um trovão veio do mar, grave, como se o oceano falasse. O som atravessou seu peito. Por um instante, jurou sentir a cama balançar.

Escuridão.

Luz.

O ventilador girava como sempre, mas o ar cheirava a café fresco e ovos mexidos com parmesão. Ele estava só de cueca.

Na cozinha, Carla. Pijama cinza, rabo de cavalo, sorriso aberto.
— Só estava esperando você acordar.

O rádio-relógio piscava: 31 de março de 1999 — 6h30.

Ivan não se mexeu. O mundo, ao que parecia, tinha voltado no tempo.




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