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Santos 1999 (Capítulo 4 – Parte 1: O camarada e o fim de ano) [por Frederico Ileck]

Capítulo 4 – Parte 1: O camarada e o fim de ano

O som do mar estava tão próximo que parecia respirar junto com eles. O ar abafado trazia um cheiro inconfundível: óleo, gasolina e suor. Só uma coisa no mundo tinha aquela mistura precisa — o camarada.

O Lada Niva 4x4 branco, estacionado de frente para o mar, parecia um velho sentinela de trincheira. Ivan nunca o chamava de “carro”. Para ele, era sempre “o camarada” — parceiro de aventuras, cúmplice silencioso de fugas e encontros, com peças soviéticas e manias mecânicas que nenhum mecânico de oficina de beira de estrada queria ver de perto. Tinha cheiro, ou espírito, como Ivan dizia, de pano molhado, gasolina velha e maresia entranhada nos estofados. Para ele, era perfume. Para Carla, apenas mais um motivo para andar com o vidro aberto.

Dormiam ali desde a madrugada, enrolados em mantas finas, com a brisa úmida entrando pelas frestas. O último dia de dezembro havia sido inteiro de praia, sol rachando e cerveja. Caminharam de ponta a ponta pela areia, inventando histórias sobre casais que viam ao longe. Ivan os dublava com diálogos improvisados.

— De onde você tira isso?
— Muito desenho animado e ódio por esse tipo de gente. Bela combinação.
— Belo não é.
— Belo é também o cara do Soweto.
— Adoro seus Ari Toledo moments.
— Amo o seu inglês de três meses na Inglaterra.
— Hehehe…

Quando o sol mergulhou no horizonte, ficaram sentados no capô amassado, pés pendendo sobre o para-choque, apenas ouvindo o mar.

Não quiseram procurar pousada. Carla dizia querer algo diferente, mesmo sem conforto. Ivan alegou economia. No fundo, queriam prolongar aquela sensação de estarem sozinhos no mundo — sem recepção, sem chave de quarto, sem ninguém dizendo “o café vai até às dez”.

O camarada dormiu junto. Faróis apagados, rádio mudo, só o tic-tac lento que Ivan nunca sabia se vinha do motor esfriando ou do relógio quebrado no painel.

Quando ligou a ignição na manhã do primeiro dia do ano, a ressaca era boa.

— Já te disse que Déjà vu é o melhor disco do Crosby, Stills, Nash & Young? — perguntou Ivan.
— Mais de um milhão de vezes. É por isso que você tem essa eterna cara de Neil Young?
— Se isso for elogio, gostei.

Ele abriu um sorriso, e Carla, ainda com o cabelo grudado na testa, tirou da bolsa uma fita K7.

— E Chico Science & Nação Zumbi? Já falei que esse é o melhor disco de todos os tempos? — disse, quase cantando.

O grave da Nação Zumbi preencheu o carro. Ivan fez uma careta exagerada.
— Pelo amor de Deus, Carla… já ouvimos isso umas vinte vezes nessa viagem. Não tem outra coisa aí, não? Modernizar o passado é uma revolução musical… Viva Zapata! Lampião, sua imagem e semelhança! — cantarolou, ajeitando o retrovisor.

Ela suspirou, com fingida paciência, e puxou outra fita, escrita à mão: “Tim Maia – Coletânea Carla”.

— Queria fazer surpresa. Então tá. Mas a primeira é pra você — disse, colocando a fita no toca-fitas com o clac analógico.

Entraram os acordes de O Que Me Importa. Carla cantarolou, olhando para ele como quem revive uma piada interna que nunca perde a graça.

"O que me importa essa tristeza em seu olhar
Se o meu olhar tem mais tristezas pra chorar
Que o seu?"

Sempre dedicava essa música a ele. Ivan sabia exatamente a hora que ela levantaria a sobrancelha no verso “terminou, terminou”.

Será que ela estava ensaiando um fim? A fita era um sinal? As músicas seguintes falavam todas de perda. Ele pensou: “Mas isso é 80% das canções do Tim Maia…” e, como DJ noturno arrogante e egoísta, não percebeu os sinais que já estavam claros.

Na estrada, um andarilho segurava uma placa. “Mais um tonto querendo carona”, pensou. Mas a placa dizia:

EU SOU O MEDO DE AMAR.

Gita? Rauzito? De novo não — murmurou Ivan.

Mais adiante, outra placa de trânsito:

A LETRA A TEM MEU NOME
DOS SONHOS EU SOU O AMOR

— “Eu sou o início, o fim e o meio?” — disse Ivan, convencido de ter desvendado algo.
— “E juro por Deus eu sou ateu,  ha ha ha, não é?” — respondeu Carla.

— Cara, não sei até quando vou estar aqui. Só sei que nada sabia e nem sei… A morte é o fim e o meio. Minha alma ainda tá bêbada dessa cerveja ruim.
— Filosofando e poetando? Quando tu começa, boa coisa não acontece.

A estrada de Camburi se abriu à frente como um carretel de fita se desenrolando. O camarada mastigava cada curva com o ronco de força e teimosia.

— Foda-se… sou simplista, cambista, socialista, comunista, anarquista, capitalista, ista… EGOÍSTA! Eu prefiro viver nessa metamorfose ambulante! — gritou Ivan.

Do nada, no acostamento, o mesmo andarilho de antes apareceu de novo. Desta vez, sem placa, apenas com o polegar para cima. Não parecia pedir carona — parecia dar um joinha.

O Tim Maia foi cortado no meio e, sem que tocassem no rádio, entrou Taiguara:

"Vai, faz de um corpo de mulher
Estrada e sol te faz amante
Faz meu peito errante
Acreditar que amanheceu"

Carla sorriu, tirou a fita K7 e girou o seletor para buscar qualquer rádio local.

— Que acaso…

Com os olhos marejados, Ivan soltou, na sua forma mais tosca:


— Tão querendo literalmente me fuder… só pode.

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Caro leitor,

Caso tenha pego o bonde andando, aqui você encontra o primeiro, segundo e terceiro capítulos. Boa leitura.

Voce tem criticas? Envie um email para f_ileck@hotmail.com 

Respondo a todas as perguntas 

Ciao! 👋 

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