Capítulo 3 – Maré de Datas
O perfume de Carla ainda pairava no túnel — doce e salgado ao mesmo tempo — como se tivesse grudado nas paredes para não ser esquecido.
Ivan enfiou as mãos nos bolsos. Não para se aquecer, mas para esconder o tremor dos dedos.
Que raios era aquilo?
O arrepio que subia pela espinha não vinha do frio, mas de uma sensação física: algo o chamava pelo nome, embora ninguém tivesse dito nada.
As lâmpadas, penduradas como frutos amarelos, pulsavam devagar, imitando a respiração de um corpo adormecido. As placas metálicas brilhavam de suor. O som da gota d’água não chegava a ecoar.
Foi então que, ao fundo, ouviu uma voz fragmentada cantando:
Ivan riu sozinho — um riso curto, sem graça.
— Sim, Raulzito… muito, mas muito egoísta. — pensou, como quem veste um casaco velho que conhece cada costura. Não sabia se isso o salvava ou o condenava, só sabia que não tinha energia para mudar.
Deu um passo em direção à porta marcada com MARÇO. Não escolheu. Foi empurrado por trás — um vento denso, quente, como o bafo de um ônibus passando perto demais.
A luz sumiu. O chão deixou de existir. Afundou como se o asfalto derretesse sob seus pés.
Quando voltou a ver, estava sobre uma calçada molhada. A igreja do Embaré. Virou a esquina e um letreiro piscava “TUDO POR R$ 1,99” — mas as letras acendiam fora de ordem, como se tentassem mandar um recado secreto.
Esquina do Canal 4. Em frente à banca de jornais, crianças chutavam latas de óleo que soavam como pequenos sinos. O céu tinha a cor exata de antes da chuva. Uma perua parou e largou uma pilha de jornais na porta.
18 de fevereiro de 1999.
No rádio do bar: O Tempo Não Pára, com Cazuza.
— Não sou o cara, Cazuza… dias sim, dias não, vou sobrevivendo com um monte de facadas… se a culpa foi minha, dane-se — murmurou, andando na direção do antigo apartamento.
O cheiro quente de bolinho de bacalhau vinha do bar do Toninho. Lá estava o garçom que, na sua memória, desapareceria meses depois. E, na mesa, a amante famosa da rua, viva, rindo, riscando a borda do copo com a unha vermelha.
Ivan entrou. Olhou nos olhos do garçom. Quis dizer algo. Não soube o quê.
O puxão veio antes — uma corda invisível arrancando-o dali pelo estômago, como quem salva alguém de um incêndio.
O chão se dissolveu. Ele não podia interagir com ninguém.
Agora o sol queimava. Cheiro de asfalto fervendo. Um relógio de rua: 24 de julho de 1999 — 15h41.
Carros antigos passavam arrastados, como se o mundo tivesse preguiça. No bar, Cazuza tocava de novo, agora em fita K7, com chiados que pareciam risadas abafadas.
Na mesa de fora, um casal discutia: o segurança poeta e a ex-esposa. Ivan lembrava dele ligando de madrugada para recitar versos bêbados. "Cara, como eu debochei desse cidadão... Olha a situação do encardido", lembrou.
Por um instante, num gesto raro de compaixão, quis colocar a mão no ombro do homem e dizer: “Não adianta”. Mas não fez. O puxão voltou, mais violento ainda.
O túnel o recebeu. As portas passavam como cardumes vivos — surgiam, sumiam, reapareciam. As placas piscavam:
SET 1999 — JAN 1999 — DEZ 1999 — FEV 1999
O ar tinha gosto de maresia, e cada mês deixava um sabor diferente na boca: janeiro, seco como farinha; julho, amargo como café esquecido; dezembro, doce e podre como fruta passada.
No fundo, entre as portas, em agosto, estava o seu desgosto: Carla. Não corria. Não acenava. Apenas o olhava, braços cruzados, com o sorriso de quem já leu a última página do livro que ele ainda começava.
O puxão afrouxou.
A música voltou, mais clara, como se fosse cantada ao pé do ouvido:
“…eu sou ego… eu sou ista... eu sou egoísta…”
A frase entrou nele como faca e saiu como luz.
Talvez fosse essa a chave. Talvez fosse o que ele nunca quis mudar. Seu programa era o suprassumo do seu egoísmo. Debochava de todos, sem dó.
“Se você acha que tem pouca sorte…”
“…Se lhe preocupa a doença ou a morte…”
“…Eu sou ego, eu sou ista…”
— Só me falta Raulzito aparecer. Peço autógrafo, depois falo das merdas que fiz.
Mas quem surge é Tom Zé, falando pelos cotovelos.
— Tá vivo? Então só posso estar num tipo de inferno! — gritou Ivan.
“Você merece, você merece…”
“…Cerveja, samba e amanhã, Seu Zé" ”Esqueça que está desempregado"
— Eu mereço o que? Tô desempregado? É isso? Pedido de demissão via outra dimensão? Cadê o RH nessas horas? Tá em alguma dessas portas? Levem tudo, menos minha coleção de discos! — disse, cuspindo sarcasmos.
A luz se apagou. Uma única porta acendeu:
01 de janeiro de 1999 — 10h
Tom Zé cantou:
“Oh senhor cidadão… com quantos quilos de medo se faz uma tradição?”
Ivan respondeu, entrando:
— A tesoura do cabelo não corta a crueldade, meu caro. Cala a boca!
E atravessou, metendo o dedo do meio na cara do inocente poeta.
"Pelo menos vou curtir aquele pós Réveillon com a Carla. Fecha porta, abre porta eu disse... Abre-te Sésamo"
Esse era o DJ Ivan, o Terrível. Parece que segue sem aprender absolutamente nada. Nada mesmo. Egoísta e com orgulho!
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Meus caros leitores:
Caso tenha interesse de ler a história desde o início, aqui esta o primeiro capítulo e o segundo.
Quer me xingar, cancelar ou fazer algo legal como... me dar dicas ou bater um papo. Sim, caro leitor, eu respondo a todos... mande um email para f_ileck@hotmail.com
Até 👍
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