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Santos 1999 (Capítulo 2 – Linha Cruzada) [por Frederico Ileck]

Capítulo 2 – Linha Cruzada

O cheiro veio primeiro: café fresco com um fundo de maresia — mas não aquela azeda do emissário. Era um cheiro limpo, com um toque doce de Chanel n° 5, tão espesso que parecia atravessar paredes como quem atravessa água. Depois vieram os sons: o tilintar de um garfo contra o prato, o ventilador rangendo preguiçoso no quarto ao lado, e, por trás de tudo, um zumbido leve, como se o próprio ar respirasse.

Ivan abriu os olhos. O teto era o mesmo que lembrava, mas o quarto… não. Lençóis azuis ondulavam sozinhos, como se guardassem um vento preso. Sobre a mesa, uma pilha de revistas — Carta Capital, Isto É, Veja — exalava um cheiro de recém-lançadas, embora todas pra lá de folheadas. No cabide atrás da porta, o casaco de Carla parecia observá-lo. Levantou-se devagar, como se um gesto brusco pudesse espantar aquela realidade para sempre.

Na cozinha, Carla estava de pijama cinza, cabelo preso, rindo sozinha para algo que lera no jornal. Ela era free-lancer há anos e estava muito bem sucedida na carreira. Ela era o oposto de Ivan.
— Bom dia, preguiçoso — disse, como se fosse uma terça-feira comum, embora as terças não existissem mais do mesmo jeito desde a última vez que ele a viu.

Ivan tentou sorrir, mas o sorriso ficou preso — típico dele, “queuspariu”.

Sobre a mesa: pão francês quente soltava vapor em forma de arabescos, ovos mexidos com parmesão douravam como ouro ao sol, o café recém-passado respirava fundo antes de cada gole. Na pia, um cinzeiro com bitucas fumegava levemente, como se guardasse o calor de conversas antigas. Estranho. Ele tinha parado de fumar há meses — pelo menos, no “seu” tempo.

Sentou. Tentou disfarçar, mas ficou olhando — tempo demais, fundo demais. Pegou o jornal:

31 de março de 1999 — Real mantém estabilidade.

Passou o dedo sobre a data, e por um instante teve certeza de que o número 3 se mexeu para o lado, tentando escapar do papel. Olhou para o calendário, para o relógio de ponteiros na parede. Tudo em perfeita sintonia, como cúmplices.

— Algum problema? — perguntou Carla, erguendo uma sobrancelha, sem parar de mexer o café que parecia girar sozinho.

Ivan quis dizer que sabia como aquilo terminava. Que, meses depois, ela sumiria, deixando só um bilhete e um vazio que cheirava a maresia. Mas engoliu.

— Não… só… achei que já tinha lido essa manchete antes.

Ela riu, mas não desviou o olhar. Ficou alguns segundos como se esperasse um ruído diferente para falar, e então disse:
— Sabe o que eu tava pensando agora há pouco? Eu fui nesses eventos cheio de modeletes. E cara, como é que tem tanta mulher linda com uns caras horrorosos… e não é só aparência. É postura, jeito… parece que tem algo além da estética que atrai. Talvez seja segurança, ou saber ouvir, ou…

— …ou a ilusão de que ele é diferente de todos os outros — completou Ivan, sem pressa, como quem lê um livro já decorado.

Carla congelou com a xícara na mão.
— Como você sabe que eu ia dizer isso?

Ivan baixou os olhos para o pão, fingindo desmontá-lo com a delicadeza de quem esconde dinamite. “que M está acontecendo aqui”, pensou, quase com orgulho.
— Só… chutei... acertei!

Ela ficou olhando por mais um instante, como quem tenta ver através de vidro fosco, e então voltou ao café. 

—Tu se chapou de novo! Que Zé. Um dia vai ficar desempregado por causa disso.

—Não... eu até parei de fumar!

—Ah tá, ontem antes de dormir te vi fumando na janela e estava falando sozinho. Doida sou eu, bebê.

—Baby... baby... Há quanto tempo!

—Recolhe a Margarina. Voce sempre deixa na mesa 

Mas o silêncio que ficou não era o de terça-feira comum.

O rádio começou a tocar “More Than This”, do Roxy Music — só que introduzida por uma vinheta de estação que havia desaparecido do mundo, mas não da memória das paredes. O arrepio veio sem pedir licença.

— Preciso ir à capital hoje — disse ela. — Reunião de pauta. Sempre o mesmo blá-blá-blá. O que quer que eu traga de São Paulo? Vou estar na Paulista…
— Nada, absolutamente nada. Se isso existir, traga, por favor. Contigo tá tudo azul, contigo tá tudo em paz.
— Eita… desde quando começou a filosofar desse jeito? Se você não se chapou então tá acordou meio… estranhoso, como você sempre fala como os outros são. Né? Tu é o único cara de 35 anos com jeito de 65. Bebê!

Apertou suas bochechas e deu um beijo no meio da sau calvície.

Ele pensou se deveria implorar, mais uma vez, para que ela ficasse. Não conseguiu.

—Guri, eu falo blá-blá-blá mas o povo de São Paulo é cheio de nove horas. Se eu me atrasar, de novo, perco a pauta. Te cuida. Tchau!

Aquilo tudo não era real — ou talvez fosse mais real do que qualquer outra terça.

Horas depois, escutou o carro dela partir. O som do motor ficou preso no corredor por tempo demais, até virar um zumbido que se misturou ao vento. Ficou sozinho no apartamento, andando devagar — como arqueólogo num sítio que já conhece, mas onde cada pedra ganhou importância nova. Puxou um cigarro. A fumaça saiu densa, formando rostos que pareciam reconhecê-lo. A nicotina se misturou ao gosto do café, e o café devolveu memórias de manhãs que não aconteceram.

A casa trazia pequenos indícios do que viria: uma bolsa que não era a de costume, agenda com números que soavam como códigos, livros esotéricos e de viagem. Egito? Desde quando ela queria ir para esse país? "Nem tinha me ligado nisso. Acho que fiquei preso nas minhas próprias reclamações. Sou um cagado de um egoísta", pensou.

No estúdio da Atlântica, naquela noite: luzes mais fracas, cadeiras mais pesadas, jingles em cartuchos espalhados — como se estivessem à espera de um último toque antes de desaparecer. Tudo estava estranho. Era o mesmo lugar, porém ao mesmo tempo não era.

Antes mesmo do microfone abrir, o telefone tocou. Ele atendeu.
— Ivan… — disse uma voz grave, cheia de chiado de rádio AM. — Não erra dessa vez. Se liga!
— Quem tá falando?
Silêncio. Linha muda. O fone cheirava a sal.

Ligou o CD. A vinheta entrou… e foi cortada por uma transmissão marítima:
— Rebocador Orion, pronto para atracar… trinta e um de março de mil novecentos e noventa e nove.

O som virou marulho pesado. O ar engrossou, carregando o gosto de ferrugem. As paredes vibraram como se um bonde passasse lá fora — os trilhos estavam asfaltados há anos. "Barulho de bonde? Justamente um Justo cheio de cretinice. Daqui a pouco pula um Karate Kid na.mimha frente", pensou Ivan irritado com aquilo tudo.

Então, conhecido: musiquinha de chamada a cobrar da Telesp, beep de pager… e, por cima, o perfume quente de Carla, andando pelo estúdio como sombra sem corpo.

As luzes oscilaram. O relógio piscou louco: 23:50 → 23:12 → 00:03 → 23:57.

Na janela, outra cidade: carros antigos, placas amarelas, letreiros de lojas que só existiam nos sonhos dos comerciantes mortos. Uma Brasília verde metálica virou a esquina, soltando fumaça azulada que se dissolveu no ar como tinta na água.

O corredor de serviço estourou um cano d'água. Tudo ficou molhado. A porta, fria como barra de gelo vendia na orla. Ele empurrou. Do outro lado, um túnel de concreto úmido com lâmpadas amarelas suspensas no ar como pequenas luas que respiravam.

Nas paredes, placas metálicas:

JAN 1999
FEV 1999
MAR 1999

Atrás das portas, ruídos diferentes: buzinas com cheiro, rádios portáteis que piscavam luzes, vozes que deixavam rastros no ar. A temperatura mudava conforme o mês — um frio seco que cortava, outro abafado que grudava na pele, outro com cheiro de pastel e diesel.

No fundo, uma última placa: DEZ 1999. O mês do fim.

Ivan deu um passo. O chão tremeu, como se o mar inteiro passasse por baixo. Parou. Podia entrar. Mas e se não voltasse?

Ficou ali, indeciso… enquanto o perfume de Carla parecia vir de dentro do túnel.

— Será que agora… Algum doido þá me dando uma chance. Juro por deus eu sou ateu. Será que consigo fazer o Golpe de Estado virar um Bon Jovi brazuca. Meu, eles são.muito feios, principalmente o Paulo Zinner— murmurou para si, com medo da resposta.

E não deu outro passo. Ainda não.

"Bem que eu podia escolher o dia da estreia do Matrix. Vejo o filme de novo. Dai escolho outro dia da bosta que eu fiz, ponto".

E foi puxado para dentro. Alguém estava sem paciência com o DJ.

Caso não tenha lido o 1⁰ capítulo, ele esta aqui nesse link


Você Sugestões? Mande uma mensagem para f_ileck@hotmail.com e vou responder a todas as perguntas! 

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