Cresci em uma bolha de classe média durante a ditadura militar. Para mim, criança nos anos 70 e começo dos 80, o Brasil era um lugar estável, com café na mesa, novela das oito e domingo de frango assado e fórmula 1 com a família. Tudo parecia normal. Mas era aquele tipo de normal que só parece normal até você crescer e perceber que não era normal coisa nenhuma. Minha avó paterna, Maria de Andrade, era fã incondicional do “Programa Silvio Santos” e, dentro dele, do quadro “A Semana do Presidente”, um verdadeiro culto televisivo ao governo, onde generais apareciam sorrindo e apertando mãos de operários enquanto uma trilha sonora épica tocava ao fundo narrado pelo épico Lombardi. Ela assistia religiosamente, sem nunca questionar por que, se o país ia tão bem, a inflação subia mais que o bolo de padaria e as eleições eram sempre indiretas. Eu só fui perceber que minha família era reacionária na adolescência. Bem na época das diretas já. Sério. Meu pai es...
Aventuras e desventuras de um Paulista no Sul da Holanda