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Posts uit juni, 2025 tonen

A Ditadura na Sala de Estar [por Frederico Ileck]

Cresci em uma bolha de classe média durante a ditadura militar. Para mim, criança nos anos 70 e começo dos 80, o Brasil era um lugar estável, com café na mesa, novela das oito e domingo de frango assado e fórmula 1 com a família. Tudo parecia normal. Mas era aquele tipo de normal que só parece normal até você crescer e perceber que não era normal coisa nenhuma. Minha avó paterna, Maria de Andrade, era fã incondicional do “Programa Silvio Santos” e, dentro dele, do quadro “A Semana do Presidente”, um verdadeiro culto televisivo ao governo, onde generais apareciam sorrindo e apertando mãos de operários enquanto uma trilha sonora épica tocava ao fundo narrado pelo épico Lombardi. Ela assistia religiosamente, sem nunca questionar por que, se o país ia tão bem, a inflação subia mais que o bolo de padaria e as eleições eram sempre indiretas. Eu só fui perceber que minha família era reacionária na adolescência. Bem na época das diretas já. Sério. Meu pai es...

O abismo sorri de volta! Gabriel, Juliana e a trágica ilusão da jornada interior (por Frederico Ileck)

Gabriel Buchmann morreu em 2009, aos 28 anos, nos arredores do Monte Mulanje, no Maláui. Doutorando da Sorbonne, economista idealista, atravessava a África a pé, de van, em caronas, em busca de algo entre tese e transcendência. Seu corpo foi encontrado dias depois de uma escalada solitária, desidratado, sem botas, encolhido. Virou personagem de um filme — Gabriel e a Montanha — onde é retratado como figura complexa: entre o voluntarioso e o vaidoso, entre o sonhador e o cego. Alguém que, como tantos viajantes contemporâneos, talvez tenha confundido humildade com imunidade. Em 2017, fui convidado pelo Dutch Mountains Film Festival, na Holanda, para fazer uma pequena apresentação sobre o filme Gabriel e a Montanha. Aceitei animado, mas acabei ficando doente e não pude comparecer. O filme, porém, ficou na minha cabeça, especialmente por causa de uma conversa com um amigo — organizador do festival e alpinista amador — que fez um comentário ácido sobre a inocência d...

E o Suárez só tocou duas vezes na bola [por Frederico Ileck]

Outubro em Kerkrade. Não estava frio. Não de verdade. Era só aquele vento incômodo, mais cenário do que sentimento. O tipo de ar que atravessa o casaco, mas não a alma. Mas no estádio do Roda JC, o que gelava mesmo era o futebol. Fui parar ali por acaso — ou por inquietação. Um amigo, sócio do Roda, me ofereceu ingresso. Eu, fã do Ajax, entre ultras de Kerkrade. Era como entrar numa convenção de ateus usando um escapulário. Mas fui. Queria ver Suárez. Luis Suárez. O uruguaio. O destaque. O craque. Vi — ou pelo menos vi seu nome no telão. O jogo? 2 a 2. Dois gols dele, de Suárez. Mas se você assistiu, sabe: ele não jogou nada. Caminhava em campo como quem esqueceu o motivo de estar lá. Parecia um gênio de ressaca. Mas ainda assim, cumpriu a missão: dois gols. Foi eficaz, frio, cirúrgico. Como uma planilha bem preenchida. Enquanto isso, nas arquibancadas, a ópera paralela. “ Mietje! ”, gritavam os ultras do Roda. “Maricas!”. Como se estivessem em gue...

Vinte e Quatro Anos de Motor na cabeça (por Frederico Ileck)

Em casa, o tempo era medido em rotações por minuto. Todos os finais de semana, até meus 24 anos, o assunto era sempre corridas: Daytona, Indianapolis, Imola, Mônaco, Jacarepaguá, Interlagos, Detroit e tantos outros circuitos lendários. Meu tio, Marcelo Marcelino (um nome que sempre achei divertido), era quem trazia as novidades automobilísticas. Para ser sincero, só se falava disso! Futebol era mero detalhe. Fittipaldi e Piquet tinham mais peso que Pelé ou Zico, e Senna era unanimidade. Lembro bem do GP de Mônaco de 1983, quando meu tio fez questão de anunciar quem Senna era e quem ele ainda seria: “Esse cara vai ser muitas vezes campeão, pode crer”, diziam, sorrindo de orelha a orelha. Havia também os menos conhecidos, como Maurício Gugelmin, Chico Serra, Ingo Hoffmann, Roberto Pupo Moreno e Raul Boesel. Este último expôs seu IndyCar em frente ao Carrefour Rio Preto, patrocinado pela Brahma, em um tour por todos os supermercados da rede. Eu trabalhava como téc...

Humor em Colapso: Da Inteligência Crítica à Tosquice Algorítmica (por Frederico Ileck)

Numa das minhas curiosidades internéticas, vi um trecho do programa The Noite no qual o "humorista" Leo Lins zombava das pessoas na rua . E ele não estava numa Lapa, Mooca ou até mesmo na Liberdade. O humorista estava no Japão , exatamente em Tóquio. Assisti o trecho do programa e perguntei pra mim mesmo: qual era a graça daquilo?  Era o mais um puro desrespeito. Imagine você um humorista japonês vindo a avenida Paulista e fazendo e mesmo que esse cidadão fez? Os canceladores de plantão ia achar tudo do guri e ele iria virar aquela "persona non grata" do dia para noite. Iriam até tentar fazer o cara pedir desculpas em português meus amigos. É claro. Mas no caso do Lins ele voltou ao Brasil e em sua pequena bolha virou um herói (?).  Num dos trechos do vídeo o cidadão solta aquela piadoca cheia de clichés e más intenções afirmando que "o japonês só tira 10 e a nota mais baixa que saiu no Japão foi 8.9 (do terremoto), e arras...