Outubro em Kerkrade. Não estava frio. Não de verdade. Era só aquele vento incômodo, mais cenário do que sentimento. O tipo de ar que atravessa o casaco, mas não a alma. Mas no estádio do Roda JC, o que gelava mesmo era o futebol.
Fui parar ali por acaso — ou por inquietação. Um amigo, sócio do Roda, me ofereceu ingresso. Eu, fã do Ajax, entre ultras de Kerkrade. Era como entrar numa convenção de ateus usando um escapulário. Mas fui. Queria ver Suárez. Luis Suárez. O uruguaio. O destaque. O craque. Vi — ou pelo menos vi seu nome no telão.
Enquanto isso, nas arquibancadas, a ópera paralela. “Mietje!”, gritavam os ultras do Roda. “Maricas!”. Como se estivessem em guerra. E talvez estivessem. Do outro lado, os torcedores do Ajax respondiam: “Wij zijn de joden, de super joden!” (nós somos os judeus, os super judeus) — provocação, orgulho, ferida exposta, escudo cultural. Era um jogo de palavras muito mais intenso que o de bola.
E eu ali no meio, camuflado. Torcedor do Ajax entre hooligans que beberiam meu sangue se percebessem. E o mais irônico? Eu não estava nem emocionado. O futebol em campo era pobre. Tático, sim. Organizado, talvez. Mas sem alma. Um futebol europeu desses que se diz de “alto nível técnico” — e que às vezes mais parece uma farsa bem penteada.
Aqui apresento a voces os gols da partida. O resto é descartável
Foi então que me veio à cabeça outra partida. Um jogo de verdade. Corinthians x Santos, semifinal do Paulista. Foi em em 2001. Em campo Marcelinho, Dodo, Dida, Fabio Costa, Robert entre outros. Fui com amigos. Era outra vida, outro estádio, outra temperatura emocional. Lá, sim, o futebol era víscera. Dois pênaltis perdidos. Um jogaço! Mas o um personagem inesquecível: um torcedor — anônimo, alucinado — que passou os 90 minutos gritando “Luxemburgo, mercenário!”, com a fúria de um revolucionário traído. Não ficou rouco. Não parou. Um homem tomado por uma ideia fixa e nenhuma dúvida. O jogo terminou 2x1 para a equipe da capital. E vamos venhamos, o Timão dessa época era uma seleção!
A volta para casa foi uma saga. Tínhamos que evitar a torcida do Corinthians — desviar, rodar, mudar o caminho. E foi na entrada da Imigrantes que a morte quase nos encontrou: um motoqueiro apareceu do nada. Sim uma moto cruzando a pista feito alma penada, e quase colidiu de frente com nosso carro. Em um segundo, minha vida passou inteira pela cabeça — como se um VAR sobrenatural estivesse revisando meus melhores e piores momentos.
Em Kerkrade, não. O jogo acabou, eu levantei, fui até a saída principal como quem sai de uma biblioteca. Peguei um ônibus. Voltei pra casa. Ninguém gritou. Ninguém tentou matar ninguém. Nenhum torcedor à espreita, nenhuma morte rondando em duas rodas. Um silêncio quase burocrático, como se o futebol fosse só mais um item na agenda de domingo.
No Roda, dois brasileiros tentavam animar a coreografia. Um deles se chamava Cristiano. Nunca tinha ouvido falar. Ninguém tinha. Jogava como quem foi parar ali por engano — mas dava tudo de si. Era ídolo. Em campo, tentava puxar a vida para dentro de um futebol em coma. E conseguiu, por cinco ou seis minutos.
O gol de empate do Roda, confesso, foi bonito. Um chute sincero, uma reação espontânea da partida, como um espirro no meio de um funeral. A torcida vibrou como se fosse final de Champions. Era só Eredivisie. Mas vá explicar isso para quem ainda acredita.
Saí do estádio com uma certeza incômoda: vi pouco futebol, mas vi muito teatro. Vi Suárez como um político operando no piloto automático. Vi a arquibancada tentar compensar o tédio com ódio reciclado. E vi que, às vezes, o chamado “futebol de alto nível” europeu é só um bom terno em um corpo sem alma.
Porque futebol, o verdadeiro, não acontece só com a bola. Ele acontece no grito, no susto, no risco — até quando um motoqueiro fantasma quase te leva no caminho de volta.
Esse, sim, é futebol.
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