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Humor em Colapso: Da Inteligência Crítica à Tosquice Algorítmica (por Frederico Ileck)


Numa das minhas curiosidades internéticas, vi um trecho do programa The Noite no qual o "humorista" Leo Lins zombava das pessoas na rua. E ele não estava numa Lapa, Mooca ou até mesmo na Liberdade. O humorista estava no Japão, exatamente em Tóquio. Assisti o trecho do programa e perguntei pra mim mesmo: qual era a graça daquilo? 

Era o mais um puro desrespeito. Imagine você um humorista japonês vindo a avenida Paulista e fazendo e mesmo que esse cidadão fez? Os canceladores de plantão ia achar tudo do guri e ele iria virar aquela "persona non grata" do dia para noite. Iriam até tentar fazer o cara pedir desculpas em português meus amigos. É claro. Mas no caso do Lins ele voltou ao Brasil e em sua pequena bolha virou um herói (?). 

Num dos trechos do vídeo o cidadão solta aquela piadoca cheia de clichés e más intenções afirmando que "o japonês só tira 10 e a nota mais baixa que saiu no Japão foi 8.9 (do terremoto), e arrasou com o mundo". E você saca no video que a plateia fica constrangida e na sequência ele solta um "foi mal". A plateia não reage por educação, porém  isso aqui era digno de um soco na boca, sem dó. 

Um potencial terremoto na cabeça desse cidadão. Entratando, justiça se já feita, ele perdeu o visto e não pode colocar os pés no pais. E é assim que se lida com imbecis como ele. Na lei! E digo e repito... desse vídeos que eu citei aqui, a coisa só piorou mais e mais. Aí vem a pergunta de um milhão: ele quem casou isso ou foi seu público que pediu? Já vou lembrando de antemão: AMBOS SÃO CANALHAS!

Pois é meus caros leitores, preciso me acalmar e lembrar que houve um tempo em que o humor brasileiro exercia papel de resistência, crítica social e refinamento intelectual. Um tempo em que rir era também pensar. Millôr Fernandes, Luis Fernando Veríssimo, Chico Anysio, Jô Soares e os ácidos luminares do Pasquim representavam um tipo de humor que surgia da observação atenta do mundo, da ironia elegante, da habilidade rara de sintetizar contradições humanas em uma piada de três linhas — que fazia o leitor gargalhar e depois refletir, em silêncio desconcertado.

Hoje, o riso nacional — ao menos o que ecoa mais alto nos palcos e algoritmos — é outro. E outro para muito pior.

O stand-up nacional, especialmente aquele popularizado a partir dos anos 2010, parece ter se acomodado num lugar entre a grosseria gratuita e o niilismo cínico. Nomes como Leo Lins, Danilo Gentili, Rafinha Bastos e Patrick Maia encabeçam esse esvaziamento moral e intelectual. São, em sua maioria, produtos de um tempo que valoriza o choque, a viralização e o cinismo acima da sensibilidade, da criatividade e da empatia.

A provocação, que outrora era instrumento crítico, tornou-se método de autopromoção. O alvo já não é o poder ou as estruturas opressoras — é o corpo do outro, a dor do outro, o ridículo fácil. Rir, hoje, virou um ato de distanciamento. Um "não me importo", muitas vezes embalado por discursos de "liberdade de expressão" que funcionam mais como escudos do que como princípios.

Do Riso Pensado ao Meme Tosco

Millôr dizia que "humor é a crítica com ternura". Essa ternura desapareceu. O humor que sobrou não é crítica; é pancada. É a performance de um desdém que reflete perfeitamente o Brasil que aplaude o meme e descarta o livro.

Chico Anysio encarnava dezenas de personagens, cada um com um contexto social, político e linguístico próprio. Era um antropólogo do riso. Jô Soares, com sua inteligência aguda, sabia rir do poder — inclusive do seu. Esses nomes sabiam que o humor é ponte, nunca muro. O contrário da solidão e da frieza que hoje pairam nos sorrisos enlatados de aplicativos.

E é aqui que entra a questão mais dolorosa: a tecnologia, longe de democratizar o talento, fez com que a ignorância se tornasse exponencial. Em 2023, estive no Brasil por três semanas. Nada ali era espontâneo. Tudo era filtrado, roteirizado, embalado em stories. A comunicação virou funcional; o calor humano, um gesto protocolar. A empatia, se antes era matéria-prima do humor, agora parece matéria extinta.

Aplicativos substituíram a conversa, a contemplação, o erro criativo. O humorista de hoje não precisa observar a vida — ele precisa observar os trends. O algoritmo se tornou editor-chefe do espírito cômico nacional. E, como sabemos, algoritmos não têm alma.

Rodapé da História: Onde o Tosco se Esconde

Os nomes do novo "humor" brasileiro — e aqui se usa aspas com desgosto — merecem um espaço discreto na história. Não por censura, mas por insignificância.

Rodapé da história:

  • Leo Lins: especialista em transformar o sofrimento do outro em punchline.
  • Danilo Gentili: o rebelde domesticado, que fez da transgressão um produto de auditório.
  • Rafinha Bastos: o niilista que riu antes de pensar.
  • Patrick Maia: o retrato da banalidade comedida.

Esses nomes simbolizam a baixa densidade intelectual do riso contemporâneo. Um riso que não provoca, apenas anestesia.


O Futuro do Riso

É preciso resgatar o humor como arte e não como expediente. Recuperar a inteligência como matéria-prima do cômico. E, sobretudo, lembrar que humor, para ser digno, precisa tocar o humano — não o algoritmo.

Se o Brasil quiser voltar a rir com dignidade, terá de reaprender a ouvir, a olhar, a sentir. E isso começa fora das telas, longe dos likes e perto das pessoas. O bom humor é sempre um ato de empatia.

E empatia, hoje, é o recurso mais escasso da nossa comédia.



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