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A Ditadura na Sala de Estar [por Frederico Ileck]

Cresci em uma bolha de classe média durante a ditadura militar. Para mim, criança nos anos 70 e começo dos 80, o Brasil era um lugar estável, com café na mesa, novela das oito e domingo de frango assado e fórmula 1 com a família. Tudo parecia normal. Mas era aquele tipo de normal que só parece normal até você crescer e perceber que não era normal coisa nenhuma.
Minha avó paterna, Maria de Andrade, era fã incondicional do “Programa Silvio Santos” e, dentro dele, do quadro “A Semana do Presidente”, um verdadeiro culto televisivo ao governo, onde generais apareciam sorrindo e apertando mãos de operários enquanto uma trilha sonora épica tocava ao fundo narrado pelo épico Lombardi. Ela assistia religiosamente, sem nunca questionar por que, se o país ia tão bem, a inflação subia mais que o bolo de padaria e as eleições eram sempre indiretas.
Eu só fui perceber que minha família era reacionária na adolescência. Bem na época das diretas já. Sério. Meu pai espumava só de ver o Brizola. "Esse ai quer reforma agrária na fazenda dos outros e não nas dele!", afirmava sem nenhuma prova. Antes disso, o mundo político para mim era algo distante, uma coisa de adulto. Mas então vieram as primeiras aulas de História, os primeiros livros proibidos, as conversas sussurradas entre professores, e eu fui juntando as peças: aquela gente com quem eu almoçava todo domingo era devota de generais que torturavam, censuravam e exilavam pessoas. Gente que achava que comunista comia criancinha, mas achava normal policial sumir com estudante.
O caso mais emblemático era o do meu tio Décio. Décio era surdo e tinha uma estranha fascinação por ditadores. Não era só a ditadura brasileira que o encantava. Ele colecionava livros e documentários sobre Hitler, Mussolini, Franco. Olhava para aqueles desfiles militares alemães como quem assiste a um balé bem ensaiado. Eu não sei como alguém que não ouvia podia ser tão encantado por discursos inflamados, mas Décio via fotos de Hitler com a reverência de quem está diante de um profeta. Dava risada, como um louco. Se pudesse, teria um pôster do Médici na parede do quarto.
Lembro de uma vez em que me atrevi a perguntar por que ele gostava tanto desses caras. Ele respondeu apenas com um olhar. Depois retrucou palavras incompreensíveis a minha mãe ela me mandou me calar. Aquilo era surreal. Sim, caso você  esteja pensando que meu tio era louco, anos mais tarde foi diagnosticado com esquizofrênia. OLHA A DOIDEIRA: SURDO E ESQUIZOFRÊNICO! Mas na época, na minha infância era isso. "Normal". Deixa o Décio, ele é assim mesmo, lamentava a minha mãe... Para ele, o mundo tinha que ter hierarquia, disciplina, um líder forte. O fato de que essas figuras costumavam matar milhões de pessoas no processo era um detalhe secundário.
Com o tempo, fui percebendo que meu tio não era uma aberração isolada. Ele era só a versão amplificada de um pensamento que estava em volta de mim o tempo todo. Minha família falava dos anos 60 e 70 como um período de glória. “Naquela época, bandido não tinha vez.” Hoje em dia, ninguém respeita mais nada.” “Na ditadura, pelo menos tinha segurança.” E outras frases que hoje me dão náuseas.
E então chegava o 31 de março – ou, como deveria ser chamado, 1º de abril, mas até para comemorar golpe essa turma precisava mudar a data para não soar ridículo. A data era celebrada discretamente em casa, com aquele ar de nostalgia patriótica. Nada de grandes comemorações, mas um orgulho velado, um sorriso discreto, um olhar saudoso para um tempo em que, segundo eles, “o Brasil tinha rumo”. Um tempo em que, coincidentemente, eles estavam confortavelmente instalados na classe média, sem serem incomodados por essas chatices de direitos humanos.
Hoje, olhando para trás, sinto um misto de vergonha e revolta. Não pela criança que fui, mas pelo ambiente em que cresci sem perceber o que me cercava. Não suporto esse tipo de gente. Não importa se têm meu sobrenome, se dividimos mesa de jantar, se me pegaram no colo quando bebê. A idolatria por ditadores e torturadores, a nostalgia por tempos de chumbo, o desprezo pela liberdade – tudo isso me causa nojo.
E o mais irônico? Se eu tivesse nascido em uma família diferente, talvez tivesse demorado ainda mais para perceber. Talvez ainda estivesse assistindo “A Semana do Presidente” sem me dar conta do que estava vendo.


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