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O Boxe Espiritual [por Fred Ilek]

Eu era frequentador da sinagoga Beit Jacob (como já comentei nesse artigo), em Santos, há alguns meses. Comecei a falar de forma aberta sobre algumas lições que tinha às quartas-feiras com o rabino Tabacinik. As aulas dele me faziam refletir. Acalmar? De jeito nenhum! Nos sábados ia ao local e tinha "shabbat's" em que me sentia bem e outros não. Normal. Por isso tentei, na época, algo mais radical: o Muay Thai! E nele encontrei algo que não esperava.

O suor escorria pelo rosto e se misturava ao cheiro forte de lona e couro gasto. No Atlético Santista, a rotina era simples: luvas, caneleiras, saco de pancadas e um pacto silencioso entre os lutadores. Nenhum golpe era pessoal, toda violência era método. O boxe tailandês me mostrava o ritmo, precisão e resistência, mas foi entre socos e esquivas que aprendi algo ainda mais inesperado: o silêncio e a disciplina de quem reza cinco vezes ao dia.

Minha inspiração para lutar, no entanto, vinha de muito antes. Quando gurizinho (isso faz um bom tempo, acho eu), eu via na TV Record um anime protagonizado por Tadashi Sawamura, um lutador feroz e habilidoso. ELE DAVA O SALTO NO VACUO COM JOELHADA! CCAARRACCCAA!  Aquilo era demais! Só depois fui descobrir que o Sawamura existiu, na verdade, ele praticava kickboxing, uma modalidade bem diferente do Muay Thai. Mas, para mim, naquele tempo, tudo parecia a mesma coisa: um estilo de luta que exigia força, paciência e precisão. Pelo incrível pareça, os filmes do Van Damme, as competições do K1 e esse desenho animado me levara a dar os primeiros passos no tatame. Sabe, tu nunca sabe de onde vem a inspiração! Poderia escrever que vi os monges e blá-blá-blá, não! Foi pela TV! 

Vamos a história da modalidade. Gosto de fazer isso. Então, o Muay Thai nasceu nos campos de batalha do antigo Sião, onde guerreiros treinavam para enfrentar o inimigo com cotovelos e joelhos, como se seus corpos fossem lâminas afiadas. Com o tempo, a guerra se dissolveu em esporte, e os lutadores passaram a travar embates contra si mesmos, contra seus próprios medos, contra o ego que sopra no ouvido dizendo que a raiva é sempre o melhor golpe.

Foi ali, entre chutes e conversas, que conheci lutadores muçulmanos. Era um pequeno grupo! Um carregava a como se fosse um escudo invisível. As tatuagens em árabe em seu braço me intrigava, marcas silenciosas de um compromisso muito maior que o do ringue. Éramos apenas quatro lutadores. Um bom e pequeno grupo. Estávamos nos tornando, a cada treino, cada vez mais amigos. Um dia senti a liberdade de perguntar o que significavam aqueles símbolos. O lutador me explicou que eram versos do Alcorão, palavras que atravessavam séculos, ditas por nômades no deserto e agora inscritas na pele de um dos boxeadores africanos na Baixada Santista.

Um dia, com a minha impaciência típica, pedi a um colega que segurasse o saco de pancadas de maneira correta. Soltei um tremendo palavrão. Daqueles de arrepiar. Se você me conhece, já sabe o estilo da ofensa. Aquilo parou o treino, mesmo. Um tremendo silêncio. Um deles começou a me explicar o lado espiritual da modalidade.

Depois disso outros colegas acharam, principalmente um nigeriano, um absurdo desrespeito. Colocou a mão nos meus ombros, olhou nos meus olhos de forma profunda, sem elevar a voz, e me chamou de inconsequente. Disse que palavras carregam peso. Que um deslize, por menor que fosse, poderia causar estragos maiores do que eu imaginava. Aquilo poderia causar um desequilíbrio no colega e, talvez, uma desnecessária rivalidade.

"Caso você dê um golpe nele, proposital e com raiva, pode quebrar um osso da costela dele. Toda vez que ele respirar fundo, vai sentir dor. Vai lembrar de você. Olha só, você o xingou e ainda o machuca fisicamente. Esse cara nunca vai esquecer mesmo de você. Vai querer vingança! E há uma grande chance de você receber dele ou de outro oponente, sem propósito nenhum, um golpe dez vezes mais forte. Por isso, cuidado. Respeite as regras do Muay Thai dentro e fora do tatame. Para nós isso aqui é sagrado. Por favor, respeite isso." Senti o golpe sem que ele precisasse levantar a mão.

Aquela conversa me levou sem querer, num dia qualquer, à mesquita da Avenida Afonso Pena (descrito no texto anterior). Em frente ao local estava o imame, líder espiritual muçulmano, olhava as pessoas que passavam na rua. Tomei a liberdade e resolvi conversar com ele. Me apresentei como jornalista e disse que queria fotografar uma cerimônia qualquer, de curiosidade. Ele me convidou para ir na sexta-feira acompanhar as atividades do local.

No dia, entrei com minha câmera e fui engolido de cara pelo silêncio. Nada de música, cadeiras ou decorações de ouro. Nada de imagens. Era só um salão todo forrado de carpetes onde os fiéis ficavam ajoelhados no chão. No final, um altar onde o imame fazia seus discursos.

Era uma cultura totalmente diferente do que já tinha visto. O fato é que o Islã nasceu num mundo onde o deserto ditava as regras, onde a paciência e a fé eram tão essenciais quanto a água. Ali, naquele espaço sagrado, o culto acontecia como uma coreografia precisa. O imame falava, e em determinado momento, sua voz se tornou mais forte. O árabe soava como uma lâmina afiada, cortando o silêncio com precisão. Não precisei entender as palavras para sentir seu peso. Assim como no boxe, onde a força vem tanto da mente quanto dos músculos, ali, a fé era medida não pelo barulho, mas pelo controle.

Na saída, conversei mais com o nigeriano e seu grupo. Sim, ele estava lá.. se fosse combinado nao daria certo. Aqueles acasos da vida que a gente esquece que acontece. Estava sentado no chão em frente ao local. Ele achava que eu queria me converter e expliquei que estava lá muito por causa da cena do tatame. Eu, um dos poucos brancos ali, imerso em um universo que nunca imaginei explorar. Ele era muçulmano, lutador e disciplinado. Estava treinando para entrar no circuito nacional da modalidade. Cara, ele tinha uma serenidade que fazia com que meus palavrões impensados parecessem ridículos. No boxe tailandês, aprendi muito pouco a bater. Fazia "sparring" com ele. "Guarda tá aberta, vou bater. Presta atenção!", nunca largava a mão.  Até poderia, porem sabia o estrago que iria fazer em mim. E outra, nunca usei isso para nada. Entretanto, com ele, aprendi a tentar segurar a língua. Ainda estou aprendendo, juro! Sim, algumas lutas são travadas no silêncio, segundo esse amigo.

E foi ali, cercado por aqueles caras cheios de fé, que percebi o que realmente me incomodava. Por ser branco, me senti literalmente como o europeu invasor, agressivo e inculto. Minha atitude naquele treino me pareceu vergonhosa e, por um instante, desejei que todos pudessem sentir isso também, para que enxergassem a barbaridade que os europeus impuseram a tantas culturas ao longo da história. O Islã e o Muay Thai, tão diferentes à primeira vista, me ensinaram a mesma lição: a força verdadeira não está nos punhos cerrados, mas naquilo que se escolhe não dizer, não fazer, não ferir.

Apenas uma conclusão final. Até hoje, não entendo a violência relacionada aos muçulmanos. Grande parte dessas pessoas sabem que violência não gera nada! Atualmente trabalho com cinco pessoas dessa religião. Tudo é baseado na palavra e nas suas ações. Os que usam a força não entenderam a mensagem dita pelo seu profeta. Na minha lembrar o silêncio do local era diferente de tudo que ja tinha visto. Nunca tinha sentido nada tão silencioso na minha vida e, até hoje, ainda travo diálogos interessantíssimos com pessoas dessa religião.

Aliás..  se você achou estranho só ter fotos do Tadashi Sawamura... bem, resolvi também homenagea-lo! 


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