Doorgaan naar hoofdcontent

A Fé, a Caridade, o Plágio e os Fantasmas de Chico Xavier [por Fred Ilek]


Nos longínquos anos 80, frequentava com a minha família o centro espírita "André Luiz", localizado na Avenida Afonso Pena, na cidade de Santos, São Paulo. Eu era um árduo fã de histórias em quadrinhos. Quem eram os meus personagens favoritos? Os X-Men. Um deles me intrigava: o Professor Xavier!

Dentro das aulas de "doutrinação" (essa palavra mesmo que utilizavam), comentavam sobre eventos paranormais e coisas que outro ser especial fazia: o Chico Xavier, o "Professor X" tupiniquim. Acreditava mesmo que poderia adquirir poderes como ler mentes, falar com pessoas invisíveis, ouvir conversas a quilômetros de distância e coisas do gênero que só um mutante poderia fazer. Sim, meus caros leitores, achava que o senhor Francisco Cândido Xavier era um "homem X" brasuca!

Nosso herói era inseparável de seus óculos escuros. Eram grandes, pesados, quase como uma barreira entre ele e o mundo. Oficialmente, serviam para proteger seus olhos frágeis da luz. Mas talvez escondessem algo mais profundo: o medo de ser desmascarado.

Ao longo do século XX, Francisco Cândido Xavier construiu sua reputação como o maior médium do Brasil, um operário da fé que alegava psicografar livros ditados por espíritos. No entanto, bastidores obscuros revelam que seu legado pode ter sido menos sobre milagres e mais sobre manipulação, fraudes e convenientes encenações.

A Fraude da "Materialização de Uberaba" e as Aparições na Revista O Cruzeiro

Nos anos 1960, a revista O Cruzeiro – uma das mais influentes do Brasil na época – fez uma série de reportagens investigativas sobre Chico Xavier e outros médiuns. A mais polêmica foi a matéria “A Falsa Materialização de Uberaba”, publicada em 1971, que revelou uma farsa envolvendo supostas aparições de espíritos materializados.

Na ocasião, Chico Xavier participava de sessões com o médium Otília Diogo, que alegava conseguir materializar espíritos. Fotos tiradas durante os eventos mostravam figuras supostamente ectoplasmáticas, incluindo o espírito de uma freira chamada "Irmã Josefa". No entanto, a investigação da O Cruzeiro desmontou a encenação: as "materializações" eram feitas com panos, máscaras e lençóis.

A farsa foi revelada por meio de fotografias que mostravam claramente Otília Diogo vestida com um véu e um tecido improvisado, óbvio. Chico Xavier, mesmo não sendo o responsável direto pela fraude, estava presente nas sessões e endossou a veracidade das aparições. A reportagem caiu como uma bomba no movimento espírita, mas, para seus seguidores, Chico era apenas uma vítima ingênua da situação.

Os Livros “Psicografados” e o Plágio Literário

Entre 1932 e 2002, Chico Xavier publicou mais de 400 livros, creditados a espíritos como Emmanuel e André Luiz. Críticos literários nunca pouparam suas obras, apontando semelhanças impressionantes com textos já publicados por escritores brasileiros e estrangeiros.

O caso mais notório foi o de Parnaso de Além-Túmulo, sua primeira grande obra, lançada em 1932. O livro reunia poemas supostamente ditados por figuras como Castro Alves e Olavo Bilac. No entanto, especialistas apontaram que os versos eram versões inferiores dos estilos originais dos poetas, parecendo mais uma imitação forçada do que algo realmente sobrenatural.

E não foi apenas na poesia que surgiram suspeitas. Partes de seus romances continham trechos idênticos ou muito similares a obras de autores conhecidos, incluindo Humberto de Campos. O caso se tornou tão grave que a família de Campos processou Chico por uso indevido da imagem e textos do autor falecido. O processo terminou em um impasse jurídico que, curiosamente, favoreceu o médium.

O Lado Benevolente de Chico Xavier

Sei que você chegou aqui e está me achando um baita de um ingrato, entendo! Mas nosso "herói" também fez o dito caritas, palavra muito bem conhecida pelos cristãos. Em si centros de umbanda, evangélicos e outras religiões (até mesmo ateus) tem a mesma atitude. Entretanto Chico se destacou nesse quesito, muito por causa do atrelamento ao catolicismo.

É, meu caro leitor, se por um lado Chico Xavier acumulava críticas e polêmicas, por outro, era inegável sua dedicação ao próximo, óbvio. Ele viveu de forma simples, doando todos os lucros de seus livros para instituições de caridade. Enquanto muitos pregadores religiosos enriqueciam com a fé alheia, Chico Xavier morreu sem possuir grandes bens materiais.

Seu trabalho assistencialista ajudou milhares de pessoas. Em Uberaba, onde viveu grande parte da vida, era comum vê-lo distribuindo alimentos e roupas para os necessitados. Independente da veracidade de seus dons mediúnicos, ele trouxe conforto a muitas famílias que buscavam respostas após a perda de entes queridos.

Mesmo seus críticos mais ferrenhos reconheciam seu caráter pacifista e sua mensagem de amor ao próximo. Diferente de tantos "gurus" e "iluminados", João de deus que o diga, Chico nunca incentivou fanatismo, violência ou intolerância. Seu apelo pela caridade e pelo perdão fez com que até mesmo céticos respeitassem sua figura. 

REVOLTA PESSOAL

A minha revolta, ao escrever esse artigo, foi ver o movimento espírita se desvirtuar totalmente das suas bases. Meu questionamento a religião veio anos mais tarde no mesmo centro espírita da Avenida Afonso Pena. Em um dia, de curiosidade, fui a um culto numa quarta-feira à tarde.  Haviam poucas pessoas e eu estava numa tremendo crise existencial (baita.. você não tem ideia. Fui a todas as religiões que possa imaginar. Essa é uma das bases do meu ateismo).

A cerimônia começou e logo de cara um dos participantes resolveu comentar sobre a teoria do planeta Capela. Indignado com os argumentos vazios do palestrante, pensei que aquilo era um tremenda brincadeira ou loucura. Alguma coisa saída de um filme do Kubrick, um 2001 ou Shine... e na época eu estava me aprofundando em antropologia e filosofia muito por causa dos meus estudos na Universidade de São Paulo. 

Sinceramente, nada daquilo tinha sentido, simples. Nem mesmo o local era o que eu frequentava na minha infância. De uma casa simples de madeira e alvenaria para um templo de concreto, muito similar a uma escola particular de ensino médio. Hoje ironicamente chamado de fraternidade espírita 

Ouvi tudo aquilo em silêncio. Fiquei sentado por uma hora. Aí veio do dito passe, com música clássica ao fundo, claro. Um ambiente todo criado para voce relaxar a mente. E depois resolvi conversar com dos médiuns, sobre meu suposto problema (que não era nada demais. Apenas conflito comigo e as minhas próprias crenças). Aí aconteceu o momento da ruptura. O estopim para até mesmo eu ter escrito esse artigo. O sujeito resolveu me levar a canto escondido do local e me dar um "passe especial". Nunca tinha visto aquilo dentro da instituição, porém nosso querido X-men criou uma regra, naquele exato momento. Começou a rezar de forma enrolada, de olhos fechados, invocando algo divino e tentando me tocar de alguma forma. Colocou mão nos meus ombros e tentava de alguma forma tocar fisicamente em outras partes do meu corpo. Me senti totalmente desconfortável. Parei na hora, olhei nos olhos dele e ele percebeu a minha ira, claro! Nada daquilo era divino ou iluminado. Pura farsa! 

Meses mais tarde descobrir que esse homem tinha doenças mentais e frequentava o local como tratamento para seu males. Vamos e venhamos, uma ajuda psiquiátrica seria mais bem-vinda que meia dúzia de blá-blá-blás sobre algo que não existe, concordam? Ou seja, pelo bem ou pelo mal Chico Xavier fez escola!

Harry Houdini e a Luta Contra Médiuns Fraudulentos

Harry Houdini, o famoso ilusionista e escapista, também teve seu encontro com o espiritismo. Inicialmente, Houdini tinha um interesse genuíno pelo espiritismo, especialmente após a morte de sua mãe. No entanto, ele ficou profundamente decepcionado com os médiuns que afirmavam se comunicar com os mortos, mas que, na verdade, usavam truques para enganar as pessoas.

A partir da década de 1920, Houdini dedicou uma parte significativa de sua vida a desmascarar médiuns fraudulentos e a expor suas técnicas.

Antes de morrer, ele combinou com sua esposa, Bess Houdini, que, se fosse possível se comunicar do além, ele enviaria uma mensagem codificada que só ela conheceria.


A mensagem era baseada em um código secreto que eles usavam entre si. Após sua morte em 1926, Bess tentou se comunicar com ele durante várias sessões espíritas ao longo de dez anos, mas nunca recebeu a mensagem correta. Em 1936, ela desistiu, declarando que "dez anos são tempo suficiente para qualquer homem se comunicar".

A mensagem secreta era: "Rosabelle, answer tell pray, answer look tell answer answer tell", baseada em uma cifra derivada de uma música que significava algo especial para o casal.

A Discordância o espiritismo e o catolicismo

Nosso Houdini latino americano foi Óscar González-Quevedo Bruzón, mais conhecido como Padre Quevedo. Sim, "isssooo nnnooommm eccccxxiiissstteee". Um dos poucos padres notoriamente contestador dos fenômenos espirituais e, infelizmente, figura folclórica de muitos programas de auditório (isso quebra totalmente sua credibilidade), o parapsicólogo e estudioso de fenômenos sobrenaturais era cético em relação a alegações de mediunidade.

Quevedo argumentava que Chico Xavier utilizava sua própria mente, inconscientemente, para produzir as psicografias, sem intervenção espiritual. Para ele, isso poderia ser explicado por processos como a criptomnésia (lembranças inconscientes de informações já conhecidas) e habilidades cognitivas extraordinárias. Uma de suas afirmações mais curiosas foi a de que gostaria de conversar com o espírito Emmanuel, senador romano nos temposnde Cristo. Quando Chico entrou em transe, Quevedo começou a falar em latim – e Chico não respondeu uma palavra sequer.


O Pós-Morte: Santo ou Mito?

Chico Xavier morreu em 30 de junho de 2002, exatamente no dia em que o Brasil conquistou sua quinta Copa do Mundo. Para os seguidores, foi um sinal divino: ele teria pedido a Deus para partir em um momento de alegria nacional. Para os mais céticos, foi apenas coincidência. Esse trecho até fez eu lembrar do filme "life of Brian", que tudo ele fazia, para seus seguidores, era divino! 

Desde então, sua imagem se consolidou como a de um homem puro e abnegado. Movimentos surgiram para tentar sua canonização, mesmo com a Igreja Católica não canonizando espíritas. Seu nome foi até sugerido para o Prêmio Nobel da Paz.

Afinal, o que resta de Chico Xavier? Um santo? Um farsante? Um gênio da autopromoção? Um ingênuo? A resposta depende de quem você perguntar. O que é inegável é que sua vida foi um espetáculo de fé, marketing e mistério – e que sua história, escrita em tantos livros, pode ter sido menos um ditado dos espíritos e mais um roteiro bem planejado. Mas, entre as possíveis farsas e fraudes, um fato permanece: ele fez o bem a muita gente. E, no fim das contas, talvez seja isso o que realmente importe para quem encontrou nele um raio de esperança.


Reacties

Populaire posts van deze blog

O abismo sorri de volta! Gabriel, Juliana e a trágica ilusão da jornada interior (por Frederico Ileck)

Gabriel Buchmann morreu em 2009, aos 28 anos, nos arredores do Monte Mulanje, no Maláui. Doutorando da Sorbonne, economista idealista, atravessava a África a pé, de van, em caronas, em busca de algo entre tese e transcendência. Seu corpo foi encontrado dias depois de uma escalada solitária, desidratado, sem botas, encolhido. Virou personagem de um filme — Gabriel e a Montanha — onde é retratado como figura complexa: entre o voluntarioso e o vaidoso, entre o sonhador e o cego. Alguém que, como tantos viajantes contemporâneos, talvez tenha confundido humildade com imunidade. Em 2017, fui convidado pelo Dutch Mountains Film Festival, na Holanda, para fazer uma pequena apresentação sobre o filme Gabriel e a Montanha. Aceitei animado, mas acabei ficando doente e não pude comparecer. O filme, porém, ficou na minha cabeça, especialmente por causa de uma conversa com um amigo — organizador do festival e alpinista amador — que fez um comentário ácido sobre a inocência d...

A Idolatria e o Desvio de Caráter (por Fred Ilek)

Há algo de profundamente inquietante na forma como certas figuras públicas conseguem catalisar a devoção cega de milhões. Não se trata apenas de apoio político ou identificação ideológica, mas de uma verdadeira idolatria, um fenômeno que parece corroer o caráter de seus seguidores, transformando a razão em fanatismo e a crítica em heresia. Jair Bolsonaro, Donald Trump e outros líderes de perfil autoritário não são meros políticos para seus adoradores; são ícones quase religiosos, figuras que transcendem a esfera do humano para ocupar um lugar divino no imaginário coletivo.   O que explica essa devoção? Por que tantas pessoas parecem dispostas a abandonar a própria capacidade crítica para seguir homens cujas ações e discursos frequentemente contradizem os valores que alegam defender? A resposta, talvez, esteja na natureza do conservadorismo moderno, um movimento que, longe de ser uma simples defesa de tradições, parece nutrir uma alma podre, alimentada pelo medo, pe...

Dezesseis Anos na Caverna Neerlandesa [por Frederico Ileck]

Hoje faz exatamente dezesseis anos que desembarquei na Holanda. Fiz essa aventura de navio. Sim, ha 16 anos saia do porto de Santos e descia em Kiel, na Alemanha, para nunca mais voltar a minha terra natal.  Caros leitores, dezesseis voltas completas ao redor do sol numa terra que insiste em girar em outro eixo — o da frieza, da formalidade e de uma estranha gentileza que nunca chega a ser afeto. Aqui, no sul do país, onde os dias nublados parecem mais longos e as pessoas, mais curtas, fui moldado a golpes de silêncio e resistência.   Entre os anos de 2010 ate 2014 trabalhei como fotojornalista para o IBA de Heerlen — um projeto importado da Alemanha, cujo nome completo, Internationale Bauausstellung , remete a uma exposição internacional de construção e urbanismo. A ideia era nobre: revitalizar áreas esquecidas, dar nova vida a cidades com passados industriais e futuros incertos. Mas, na prática, o IBA aqui nunca saiu do papel com a força que prometia. Falta...