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O Significado de "Goy" e Minha Pouquíssima Conexão com a Cultura Judaica [por Fred Ilek]


Essa é uma sequência de artigos, que iniciou com uma dura crítica ao espiritismo, e vai explicar com detalhes o meu ateismo, ponto!

Lá para os anos de 2002 ate 2006, tive uma tremenda crise existencial. Fui a vários locais procurar repostas e um deles a sinagoga "Beit Jacob" em Santos. Logo nas primeiras semanas ouvia sempre um termo sempre era dito pelos seus frequentadores: esse é "GOY" ou aqueles são "GOYIM". Para mim era uma espécie de Cicrano, Beltrano ou Fulano. Porém essa palavra era dita diariamente em qualquer ocasião ou oportunidade.

Eu, para alguns frequentadores do local, era facilmente rotulado com essa palavra. Educadamente o rabino ortodoxo Michel Tabacinik dizia que eu era um bom amigo deles e sempre era bem-vindo ao local. Depois de um tempo essa palavra não era mais dirigida a mim e, por muitas vezes, era até confundido com antigos frequentadores do local. "Israel, você voltou. Há quanto tempo!", afirmou uma senhora de forma muito amigável. "Por onde anda o seu pai?", perguntou outro senhor de maneira sincera. Bem, meu pai nunca tinha colocado os pés na sinagoga. Não os questinava e deixava eles falarem o que bem entendessem a mim. Entretanto as duas palavras comentadas eram constantemente repetidas e eu, do nada, não era mais um "goy". Depois de quase meio ano era um deles. Sim, fui "aceito" pelo poucos frequentadores sem ao menos perguntarem as minhas origens. O rótulo havia sido retirado, entretanto a palavra era quase um mantra. Pensava até a possibilidade de usarem ela como.uma defesa. Simplesmente tudo não relacionado a comunidade, era encaixado nesse grupo com extrema facilidade. Mas o que significa essa palavra? 

A palavra "goyim" (גּוֹיִם) é o plural de "goy" (גּוֹי), termo hebraico que significa "nação" e, historicamente, refere-se a qualquer povo que não seja judeu. No contexto judaico, "goy" foi usado para descrever todas as outras nações do mundo, mas ao longo do tempo adquiriu conotações diferentes, dependendo do uso e da intenção por trás da palavra.

Sempre me interessei muito pelas cultura judaica. E como! A paixão por essa cultura vem de uma série de pequenas conexões que sempre existiram na minha vida. Desde criança, minha aparência física e meu sobrenome – Ileck, muitas vezes confundido com sobrenome Fleck – me fizeram sentir, de alguma forma, próximo dessa cultura, mesmo nem se quer sendo judeu. Essas ligações me despertaram um interesse genuíno em aprender sobre a história, as tradições e os desafios enfrentados por povo. Frequentei a sinagoga Beit Jacob por quase dois anos. Muitas pessoas me confundiam com antigos frequentadores como já expliquei no início. Muitos deles me passaram livros, historias e relatataram muitas tradições seguidas a ferro e fogo por eles. Via tudo de forma imparcial e isso me desenvolveu até mesmo uma certa frieza ao falar do estado de Israel. Caros leitores, política e religião não podem ser misturados (fato!). Essa foi uma milhões de gotas d'água que transbordou meu ateismo. Em si, tentei ser justo, mas muitos me vem como ingrato.

A Atual Situação de Israel e o Sionismo

Hoje, Israel e o mundo vivem uma das fases mais tensas e polarizadas de sua história. O conflito israelense-palestino se intensificou de maneira brutal, levando a uma escalada de violência que impacta diretamente civis inocentes de ambos os lados. A política do governo israelense, marcada pelo sionismo expansionista, tem gerado controvérsias não apenas entre os palestinos, mas também dentro da própria comunidade judaica, onde muitos se opõem às práticas de colonização e ocupação.

Theodor Herzl, um jornalista e escritor austro-húngaro, foi o fundador do sionismo político no final do século XIX. Diante do crescente antissemitismo na Europa, especialmente evidenciado pelo caso Dreyfus na França, Herzl concluiu que a assimilação dos judeus não os protegeria da perseguição. Em sua obra O Estado Judeu (1896), ele propôs a criação de um lar nacional para o seu povo, onde poderiam viver em segurança e autonomia

No entanto, o sionismo, originalmente um movimento para garantir um lar seguro para os judeus após séculos de perseguição, transformou-se em algo que, na prática, oprime outros povos. Minha crítica ao sionismo não é uma negação do direito dos judeus à autodeterminação, mas sim uma oposição ao uso dessa ideia para justificar a opressão, o apartheid e a violência contra os palestinos. O nacionalismo exacerbado, seja em qualquer país ou contexto, pode levar a injustiças, e no caso de Israel, o preço dessa política expansionista tem sido pago com milhares de vidas.

Reflexão Final

Já estava há quase dois anos junto a comunidade santista e um dos frequentadores convidou para uma festa. Michael, uma amigo próximo, resolveu que era hora de introduzir a minha esposa e filha aos outras pessoas do grupo. Eles haviam adquirido uma nova Torah, livro sagrado judeu, e isso sempre gerava em uma grande festa de boas-vindas.

Quando cheguei no local junto com a minha esposa e filha, os ares foram mudando. Sim, estranhamente da água para o vinho. Primeiro separaram minha esposa a deixando isolada com a minha filha. Literalmente em um canto. Minha filha começou a dançar as músicas espontaneamente. De imediato uma senhora pegou mão dela e a levou até nós. Não nos falou absolutamente uma palavra. Nos deu a entender de que éramos meros expectadores. 

Um dos meus colegas me reconheceu e apontou para uma cadeira. "Ali ficam as pessoas que NÃO PERTECEM A COMUNIDADE. Esse é o seu lugar", disse de maneira passivo agressiva. Não me levantei e fiquei com a minha esposa. Logo Michael veio me oferecer um pão com salmão defumado. Não olhava nos meus olhos. Tudo aquilo era muito estranho.

Me levantei e me dirige ao rabino. Eles haviam chamado uma pessoa de São Paulo de origem libanesa. Não era o rabino que sempre tinha ótimas conversas, sobretudo sobre filosofia e teologia. Achei isso estranho, porém no momento que eu dirigi a palavra a ele, esse senhor só me olhou dos pés a cabeça e não comentou uma palavra. Total silêncio. Descobri depois que ele era sionista e o outro ortodoxo. Quase água e óleo na mesma religião.

Nesse exato momento surgiu a verdadeira face da comunidade. Já que eles estavam em maioria e entre conhecidos, eu era um mero "goy". Voltei ao patamar inicial em segundos, só por causa de UM OLHAR!

Me levantei, falei o que estava acontecendo a minha esposa e ela concordou em ir embora. Na saída a recepcionistas da festa (que estava na mesma faculdade que eu) questionou porque estava saindo daquela forma. "Minha filha está muito cansada e ela precisa dormir", comentei. "Não parece que está cansada... há outra razão?", questionou. "Você tem filhos?", respondi. "Ainda não", retrucou de forma arrogante. "O dia que tiver um vai entender o porquê estou indo embora", passei pela porta e nem olhei para trás.

Uma semana depois Michael começou a me pressionar para conversar com o rabino libanês, e não o ortodoxo, local e me converter de uma vez. Por causa do episódio da festa neguei, porém não falei para o meu amigo. Quis permanecer com o rótulo de "GOY", sem nenhum tipo de vergonha.

Ser um "goy" que respeita e se interessa pela cultura judaica me faz ver as complexidades dessa questão com um olhar humanista. Meu desgosto pelo sionismo vem justamente do desejo de justiça para todos os povos, sem distinção. Acredito que é possível admirar a riqueza cultural judaica sem endossar políticas que perpetuam sofrimento. A luta por paz e igualdade deveria ser o verdadeiro legado de qualquer nação. O que o sionismo faz hoje é literalmente o mesmo que os antissemitas fizeram com eles durante séculos de perseguição. Em um mundo onde o pluralismo deve ser regra, esse pensamento extremista ou qualquer tipo de nacionalismo vão na contramão de tudo! 




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