Doorgaan naar hoofdcontent

Posts

Analice no País das Más Notícias- Capítulo 6 – O Jornal das Coisas

Analice no País das Más Notícias-  Capítulo 6 – O Jornal das Coisas Horríveis Analice saiu da entrevista com o Tempo sentindo que tinha tomado um banho de água fria, café requentado e filosofia barata ao mesmo tempo. Caminhava por um corredor de relógios aposentados quando topou com uma placa torta, pregada numa parede de classificados amarelados: “REDAÇÃO CENTRAL DO PAÍS DAS MÁS NOTÍCIAS ENTRADA SÓ PARA QUEM NÃO TEM MAIS VOLTA” — Perfeito — murmurou. — Perfil ideal. A porta se abriu sozinha, como se tivesse ouvido. Lá dentro, um caos organizado: pilhas de jornais até o teto, computadores gemendo, redatores com olheiras até o chão e uma máquina estranha no centro da sala, cuspindo páginas sem parar. Em letras douradas, lia-se na carcaça: JORNALETE 3000 – TRANSFORMA QUALQUER COISA EM DESGRAÇA Um Editor-Chefe, fumando um cigarro que era pura fumaça de clichê, levantou os olhos por cima dos óculos. — Finalmente! — disse. — A estrela do dia. A moça que cresce, e...
Recente posts

Analice no País das Más Notícias - Capítulo 5 – Conselhos de um ComentARISTA

Analice caminhou pelo corredor de fios como quem atravessa as entranhas de uma redação eletrônica. Cada passo fazia os cabos vibrarem em tique-taques luminosos, e a luz piscava em sincronia com um relógio invisível que parecia comandar tudo.  A cada curva, surgia um monitor exibindo contagens regressivas: “FALTAM 30 SEGUNDOS PARA O PRÓXIMO PASSADO”, “INTERVALO ENTRE ONTEM E AMANHÃ: 15 SEGUNDOS”.No fim do corredor, uma porta giratória de vidro marcava:“SALA DE ENTREVISTA – CONVIDADO: TEMPO PARTICIPAÇÃO ESPECIAL: PRAZO, MEMÓRIA E AUDIÊNCIA”Analice engoliu seco, ajeitou um microfone imaginário na lapela e entrou.A entrevista com o Tempo A sala era um estúdio sem paredes. O chão era um calendário que mudava de data o tempo todo. Os números corriam debaixo dos pés dela como se estivessem atrasados para si mesmos. Sentado em uma poltrona giratória, o Entrevistado a aguardava. Não era velho, nem jovem. Tinha cabelos que mudavam de cor conforme o ângulo da câmera: g...

“Sou descendente do Bacharel de Cananeia (ou não). E isso explica muita coisa ou nada, se é que ele existiu” [por Frederico Ileck]

Já inventei que sou parente do filósofo Uriel da Costa — e agora o alvo da minha obsessão genealógica é ninguém menos que o primeiro colonizador marginal da história do Brasil: o famigerado Bacharel de Cananeia.  Seu nome oficial (ou pelo menos um dos possíveis) era Cosme Fernandes Pessoa . Nasceu em Portugal por volta de 1470 e, como tantos personagens fascinantes do nosso passado, foi parar nas Américas não por ambição ou aventura, mas por punição : degredado . Traduzindo para os termos de hoje, um “ cancelado ” do reino. Cheguei até ele por um site genealógico. É verdade? Não sei. Mas me recuso a deixar a dúvida atrapalhar a história. A plataforma FamilySearch traçou uma linha entre mim e ele. Pura papagaiada, mas cara... eu acho isso demais! Vamos lá: há uma linhagem que envolve nomes lusitanos, indígenas, coloniais, talvez até um pouco de ficção no meio. Mas quem disse que isso é um problema? Descobri que ele pode ter se casado com uma indígena chamad...

Santos 1999 (Capítulo 6 – Parte 2 (Primeiro programa, primeiro fiasco)

Capítulo 6 – Parte 2 (Primeiro programa, primeiro fiasco) A luz vermelha acendeu. Ivan respirou fundo, sentiu o microfone vibrar na palma da mão. O script estava ali, rascunhado num caderno amassado. As agulhas do toca-discos repousavam sobre a primeira faixa: um samba jazz elegante, daqueles que misturam sopro e suingue com ares de Copacabana. Ele falou. A voz saiu trêmula, grave demais: — Boa noite, São Paulo. Aqui é Ivan… é. . bem ... e hoje a gente estreia um espaço novo. Samba jazz! Eehhhh... isso mesmo... todas as noites na radio Gazeta FM. Bora toca essa bosta, pediu pra samba, sambô. Pediu pra parar, parô. Um silêncio elétrico. O operador se espanta fez um sinal de “que foi isso?”. A música entrou. Ivan de um sorriso amarelado. "Ya está... se era pra dar merda, já de. E de novo... queuspariu", pensou. Mas, conforme as faixas passavam, as palavras não vinham. Engasgava. Gaguejava. Ele não conseguia concluir uma frase sem um palavrão. Seu vocabul...

Santos 1999 - Capítulo 6 – Parte 1 -(Discos, Masp-Trianon, Rádio Gazeta. Sucesso?)

Capítulo 6 – Parte 1 (Discos, Masp-Trianon, Rádio Gazeta. Sucesso?) O metrô abriu as portas na estação Masp–Trianon. A escada rolante engolia a massa de passageiros, cuspindo-os para o coração da Paulista. Ivan subiu rápido, dois degraus por vez, com os discos embrulhados em papel pardo debaixo do braço. Na outra mão, um caderno amassado: setlists, slogans, rabiscos nervosos. O ar úmido da tarde se misturava ao barulho das buzinas, ao cheiro de escapamento e às flores da banca da esquina. Ivan respirou fundo. Sentiu-se vivo, elétrico, como se a própria cidade pulsasse dentro dele. — Caralho… — murmurou, esfregando o braço. Uma picada fina, aguda. — Até mosquito da Paulista parece agulha. Parou na banca. O jornal trazia a data estampada em letras grandes: São Paulo, 25 de maio de 1991. Ivan sorriu. O número parecia conspirar a seu favor. — Hoje é o dia. Minha segunda chance. Atravessou a rua. O prédio da TV Gazeta se erguia diante dele, imenso, concre...

Santos 1999 - Capítulo 5 – Parte 4 (Nonnino) por Frederico Ileck

Capítulo 5 – Parte 4 (Nonnino) O container parecia um palco vazio: uma poltrona de couro marrom, uma luminária de haste fina lançando luz morna, uma mesinha de madeira com um cinzeiro de cristal; ao fundo, um toca-discos deixava um jazz girar com elegância discreta. O ar tinha traços de tabaco caro e conhaque. Sentado na poltrona, impecável num terno preto, Sasha Horovitz lia o jornal do dia: “ Santos, 25 de janeiro de 1959 .” Ivan parou, em choque. Era como ver uma fotografia respirar. O avô, nos cinquenta e poucos, igual às molduras que restaram: presença firme, queixo decidido, olhos de quem pesa navios e destinos. — ¿Quién sos vos? — perguntou Sasha sem baixar o jornal. — Te parecés al tonto de mi asistente. Sólo que él se peina y se afeita. Vos, no. A voz de Ivan saiu raspando: — Nonnino… soy tu nieto. Iván… hijo de Esther. O jornal desceu. Os olhos de Sasha estreitaram, frios de negociante, quentes de quem reconhece um nome sagrado. — ¿De Esther? Mi Es...

Santos 1999 - (Capítulo 5 – Parte 3: ivancito) - por Frederico Ileck

Capítulo 5 – Parte 3 (Ivancito!) A chave rodou, pesada, mas o que se abriu não foi o apartamento sufocado de Ivan, e sim a sala da Nonna Amabile . A luz amarelada pendia do teto, refletindo na cristaleira cheia de copos. O ar tinha cheiro de café passado e lavanda. No tapete gasto, a Nonna estava sentada, arrumada como se fosse sair para um concerto. —  O quê? Eu estava no corredor do meu apartamento... e apareço na casa da minha avó? Ela morreu há semanas! Do fundo da sala, a voz firme soou: — Ivancito… en español, siempre. Nada de portugués aquí. Fuera de casa todo bien, aquí no. Aquí es mi pedacito de Montevideo. Ivan suspirou. Como aquilo era possível? “O negócio é me render”, pensou. “Não há saída. Onde vou parar? E o Raul? Se ele tá morto tem que aparecer também, porra.” Mudou de idioma com esforço. Quando falava espanhol, não era o Ivan terrível. Era apenas Ivancito . — Está bien, Nonna… pero no empieces con tus cosas. — ¿Mis cosas? ¿Mis cosa...