Analice no País das Más Notícias-
Capítulo 6 – O Jornal das CoisasHorríveis
Analice saiu da entrevista com o Tempo sentindo que tinha tomado um banho de água fria, café requentado e filosofia barata ao mesmo tempo. Caminhava por um corredor de relógios aposentados quando topou com uma placa torta, pregada numa parede de classificados amarelados:
“REDAÇÃO CENTRAL DO PAÍS DAS MÁS NOTÍCIAS
ENTRADA SÓ PARA QUEM NÃO TEM MAIS VOLTA”
— Perfeito — murmurou. — Perfil ideal.
A porta se abriu sozinha, como se tivesse ouvido. Lá dentro, um caos organizado: pilhas de jornais até o teto, computadores gemendo, redatores com olheiras até o chão e uma máquina estranha no centro da sala, cuspindo páginas sem parar. Em letras douradas, lia-se na carcaça:
JORNALETE 3000 – TRANSFORMA QUALQUER COISA EM DESGRAÇA
Um Editor-Chefe, fumando um cigarro que era pura fumaça de clichê, levantou os olhos por cima dos óculos.
— Finalmente! — disse. — A estrela do dia. A moça que cresce, encolhe, filosofa e ainda rende meme.
— Eu não sou pauta — respondeu Analice, por reflexo.
— Todo mundo é pauta, minha filha. Alguns vivos, outros mortos, outros ainda indecisos. Sente-se.Uma cadeira surgiu atrás dela, feita de recortes de “VEJA MAIS NO NOSSO SITE”.
A reunião de pauta
Na mesa oval, uma tropa de personagens discutia aos gritos:
o Repórter de Tragédia, com cheiro de fumaça e sirene;a Colunista da Desgraça, que só escrevia opiniões em maiúsculas;
o Especialista em Nada, convidado para falar sobre tudo;o Estagiário Apocalíptico, que anotava qualquer exagero como “possível manchete”.
— Vamos à pauta! — gritou o Editor-Chefe, batendo um cinzeiro em cima da mesa.
— Que catástrofe temos para hoje?
O Repórter de Tragédia ergueu a mão.
— Temos um vulcão que talvez entre em erupção, talvez não, em algum lugar que não sabemos pronunciar.
— Excelente! — vibrou o Editor. — “MUNDO EM ALERTA: VULCÃO LETAL PODE ESTAR EM QUALQUER LUGAR (INCLUSIVE AQUI)”.
A Colunista da Desgraça interrompeu:
— E eu escrevo um texto dizendo que a culpa é da geração que come abacate e não casa.
— Maravilha. Moralismo e lava. Combinação ideal.O Especialista em Nada pigarreou:
— Posso ir ao ar para dizer que é “preocupante”, “sem precedentes” e “igualzinho ao que já aconteceu, só que pior”.
— Perfeito. E o estagiário?
O Estagiário Apocalíptico, com olhos brilhando, respondeu:
— Já fiz o título do documentário: “VULCÃO: CRÔNICA DE UMA ERUPÇÃO EMOCIONAL”.
O Editor-Chefe virou-se para Analice:— E você? Que tragédia traz?Ela abriu a boca, mas hesitou.
— Na verdade, não trago nenhuma.Um silêncio pesado caiu. Até a JORNALETE 3000 pigarreou, ofendida.
— Então por que está aqui? — perguntou a Colunista, indignada.
— Sem tragédia, você não tem relevância.— Nem engajamento — completou a Audiência, que surgira como sombra no canto da sala, com um celular em cada mão.
— Ninguém compartilha abraço. Compartilha desgraça.
A máquina da desgraça
O Editor apontou para a JORNALETE 3000.
— Isso aqui, Analice, é o coração do País das Más Notícias. Jogamos fatos aqui dentro e ela nos devolve horrores em alta definição. Observe.
Um Estafeta entrou, trazendo uma cestinha.
— Chegou matéria morna, chefe.Dentro da cesta havia bilhetes simples:“Vovó aprende a usar celular.”
“Cidade planta 100 árvores.”
“Criança devolve carteira perdida.”O Editor suspirou com desdém.— Matéria crua. Vamos cozinhar.Jogou tudo dentro da máquina. A JORNALETE 3000 tremeu, fez barulhos de indignação, cuspiu três manchetes:
“IDOSOS ABANDONAM VIDA ANALÓGICA E ENTREGAM DADOS À VIGILÂNCIA TOTAL.”
“100 ÁRVORES PLANTADAS NÃO COMPENSAM DÉCADA DE DESTRUIÇÃO.”
“CRIANÇA DEVOLVE CARTEIRA MAS SISTEMA CONTINUA ROUBANDO O FUTURO.”
— Viu? — sorriu o Editor. — A vida insiste em ser mais ou menos, mas a gente aperta até virar horrível.Analice engoliu seco.
— E se, por acaso, vocês soltassem uma notícia boa… só para testar?A redação inteira riu. O Gato do Auditório apareceu sentado em cima da JORNALETE, só sorriso.
— Minha cara, notícia boa é igual parente equilibrado: todo mundo jura que existe, mas ninguém apresenta.
— Além disso — completou a Audiência — notícia boa não segura ninguém na tela.
O ser humano é um acidente de carro ambulante: anda reto, mas só olha pro lado quando dá desastre.O furo que é buracoO Editor-Chefe bateu o cigarro no cinzeiro de novo.
— Seguinte, Analice: queremos você como repórter exclusiva de metáforas do fim. Seu quadro será assim: você cai, cresce, encolhe, filosofa, e no final diz “tudo vai piorar”. É um sucesso.
— E se eu não quiser? — perguntou ela, sentindo a garganta apertar.
— Aí você some — respondeu a Audiência, mexendo no celular.
— Some do feed, some do debate, some da memória. Ninguém lembra de quem não foi trending topic nem por um dia.O Gato do Auditório riu.
— No fundo, é simples: ou você vira notícia, ou vira ninguém. Mas ninguém, note bem, às vezes dorme melhor.Analice olhou para a JORNALETE 3000. Havia uma minúscula alavanca lateral, enferrujada, quase escondida. Ao lado, uma plaquinha:
“MODO EXPERIMENTAL: MATÉRIAS QUE NÃO DÃO IBOPES, MAS TALVEZ FAÇAM SENTIDO.”
— O que acontece se eu puxar isso? — perguntou.O Editor ficou pálido.
— Não ousa. Esse modo trava a máquina. Ela começa a produzir coisas… humanas.— Humanas? — repetiu Analice.
— Sim. Histórias que não cabem em manchete, que não têm vilão claro, que não podem ser xingadas em três linhas. É o caos.
Ninguém sabe como vender anúncio do lado disso.A redação inteira a olhava agora, como se ela fosse um vírus.O pequeno motimAnalice respirou fundo.— Então vou puxar.E puxou.
A JORNALETE 3000 deu um espasmo. Em vez de faíscas de terror, começou a soltar folhas confusas: textos sem títulos, relatos incompletos, depoimentos contraditórios. Um senhor falando da saudade do cachorro. Uma mulher descrevendo o medo manso de pegar o ônibus. Um adolescente dizendo que não sabe se é corajoso ou covarde.
— Isso não é notícia! — gritou o Repórter de Tragédia.
— Isso não é opinião! — reclamou a Colunista.
— Isso é… gente — murmurou a Memória, surgindo no canto, juntando aquelas folhas com cuidado.
— E gente não cabe direito em grade de programação.O Editor-Chefe estava vermelho.
— Desliga! Bota a máquina no modo crise! No modo catástrofe! No modo “fim do mundo ao meio-dia com reprise às seis”!
A Audiência, inquieta, começou a checar outros canais. O Gato do Auditório ria sem som, o sorriso ocupando metade da sala.
— O problema, meus caros, é que quando a máquina mostra gente em vez de monstro, a distância entre vocês e a notícia diminui. E aí fica difícil dormir tranquilo culpando “o mundo”.
Analice pegou uma daquelas folhas. Não tinha título, nem foto, nem gráfico. Era só uma frase, escrita com letra torta:“Hoje não aconteceu nada demais, mas eu sobrevivi.
”Ela engoliu em seco.— Isso daria uma ótima notícia — disse.
O Editor zombou:— E o que você quer que eu faça com isso? Coloque no rodapé: “PLANTÃO: VIDA NORMAL AFETA MILHÕES”?
O Gato levantou a pata, como quem pede a palavra.— Daria um quadro maravilhoso:
“Ninguém morreu aqui”. Ia ter pouco público, mas uma saúde mental danada.
Saída pela cozinha
As luzes do teto começaram a piscar: o Prazo vinha correndo pelo corredor, arrastando um cronômetro cansado.— Chefe! Precisamos encerrar! A audiência caiu porque ela parou de prometer apocalipse! — apontou para Analice. — Essa moça está estragando o clima!O Editor respirou fundo.
— Analice, última proposta: você volta para o script, anuncia mais alguns fins de mundo, a gente te dá um quadro fixo e você não precisa pensar muito. Topa?
Ela olhou para a porta, para a JORNALETE 3000, para as sombras da Audiência.
— Não topo.E, antes que alguém reagisse, saiu pela porta dos fundos, que ninguém usava. Na placa, lia-se:
“SAÍDA TÉCNICA – APENAS PARA QUEM ACEITA FICAR SEM AUDIÊNCIA POR UM INSTANTE.
”Atrás daquela porta, não havia aplausos, nem vinheta, nem GC. Só um corredor simples, com notícias pequenas escritas nas paredes:
“Vizinho empresta açúcar.”
“Mulher aprende a dizer não.”
“Jovem decide não comentar nada hoje.”
Analice seguiu por ali, rindo baixo.
— Se é para me perder, que seja longe da máquina.O Gato do Auditório apareceu ao lado dela, caminhando no ar.
— Vai dar pouco ibope, você sabe.
— Eu sei — respondeu.
— E muita realidade.
— Eu sei também.
— E zero garantia de virar lenda.Ela pensou um pouco.
— Tudo bem. Já passei tempo demais tentando virar manchete. Agora quero ver se ainda sei ser pessoa.
O Gato sorriu de orelha inexistente a orelha inexistente.— Essa, minha cara, é a única notícia que nunca vira velha.
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