Analice caminhou pelo corredor de fios como quem atravessa as entranhas de uma redação eletrônica. Cada passo fazia os cabos vibrarem em tique-taques luminosos, e a luz piscava em sincronia com um relógio invisível que parecia comandar tudo.
A cada curva, surgia um monitor exibindo contagens regressivas: “FALTAM 30 SEGUNDOS PARA O PRÓXIMO PASSADO”, “INTERVALO ENTRE ONTEM E AMANHÃ: 15 SEGUNDOS”.No fim do corredor, uma porta giratória de vidro marcava:“SALA DE ENTREVISTA – CONVIDADO: TEMPO
PARTICIPAÇÃO ESPECIAL: PRAZO, MEMÓRIA E AUDIÊNCIA”Analice engoliu seco, ajeitou um microfone imaginário na lapela e entrou.A entrevista com o Tempo
A sala era um estúdio sem paredes. O chão era um calendário que mudava de data o tempo todo. Os números corriam debaixo dos pés dela como se estivessem atrasados para si mesmos. Sentado em uma poltrona giratória, o Entrevistado a aguardava. Não era velho, nem jovem. Tinha cabelos que mudavam de cor conforme o ângulo da câmera: grisalhos sob luz fria, infantis sob holofote amarelo, totalmente ausentes quando o plano ficava escuro. Usava um terno amarrotado, cheio de relógios quebrados nos bolsos, e segurava uma caneca com os dizeres:
“EU JÁ PASSO”.
— Boa noite — disse Analice, por reflexo profissional.
— Boa, má, morna, repetida… Depende do fuso horário de quem assiste - respondeu o Tempo, sem olhar diretamente para ela. — Sente-se. Mas não se acostume. Nada dura muito por aqui.
Uma cadeira apareceu atrás de Analice. Ela se sentou, e imediatamente o assento começou a escorregar para trás, como se quisesse lembrá-la de que toda entrevista é um pouco retrocesso.
— Estamos ao vivo? — perguntou ela.— Comigo, sempre. Gravar é ilusão. Você chama de “arquivo” o que, para mim, ainda está acontecendo em algum lugar — respondeu o Tempo.
— Vamos às perguntas ou prefere que eu responda o que você ainda não formulou?Ela respirou, recuperando o automatismo de jornalista.
— Muitos dizem que o jornalismo é o primeiro rascunho da história. O que o senhor tem a dizer sobre isso?
O Tempo sorriu de lado, como quem já ouviu aquele clichê mil vezes.
— Rascunhos são vocês. Eu sou só o papel que amarrota. Vocês escrevem correndo, mudam versões, corrigem edições, mas, no fim, tudo envelhece com a mesma pressa. A diferença é que algumas matérias ganham pó, outras ganham monumento.
— E o “ao vivo”? — insistiu Analice. — É mesmo instantâneo ou uma ilusão de atraso disfarçado?
— “Ao vivo” é só um jeito educado de dizer “chegamos tarde, mas com cara de cedo” — respondeu o Tempo.
— Quando vocês anunciam algo, ele já aconteceu, ou vai acontecer de outro jeito. Vocês correm atrás de mim com microfone, mas quem toma o depoimento final sou eu.
No teto, letreiros giravam: “EXCLUSIVO”, “ÚLTIMA HORA”, “REVELAÇÕES HISTÓRICAS”. Nenhum se fixava tempo suficiente para que ela pudesse ler inteiro.
— E as más notícias? — perguntou.
— Por que parecem durar mais?
O Tempo cruzou as pernas, e os relógios de seus bolsos tilintaram como sino de igreja.
— Porque vocês as rebobinam o dia inteiro. Reprise é o segredo. Tristeza tem horário fixo, alegria entra sem aviso, sem GC, sem vinheta. O sofrimento ganha maratona, o alívio mal consegue um plantãozinho.
Analice sentiu um peso familiar na nuca, o mesmo que sentia ao apresentar tragédia atrás de tragédia, enquanto o TP corria sem piedade.
— Então não há nada que eu possa fazer? — perguntou, quase em sussurro.
— Há — respondeu o Tempo.
— Vocês escolheram trabalhar comigo. Podem contar o que passa ou podem apenas repetir o que pesa. É uma questão de edição.
No chão-calendário, alguns dias apagaram-se sob seus pés, como se tivessem sido cortados na ilha de edição cósmica.
O prazo entra em cena
Um alarme soou. Da lateral do estúdio saiu correndo uma criatura magricela, com olhos esbugalhados e um cronômetro pendurado no pescoço. Tinha cheiro de café requentado e de pizza fria.
— Perdão, perdão! — disse o recém-chegado.
— Sou o Prazo. Estamos quase estourando o tempo do bloco!
Ele puxava o Tempo pelo braço.
— Você prometeu uma fala forte antes do comercial! Algo que gere manchete! — implorou o Prazo.
— Uma frase de efeito, uma frase de impacto, uma coisa bem recortável!
O Tempo bocejou.
— Frases de efeito tendem a envelhecer mal — disse.
— Mas se precisa tanto assim…Virou-se para Analice.
— Anote aí: “Nada passa tão rápido quanto o fato que vocês demoraram a entender.”
No instante em que ele terminou a frase, holofotes se acenderam, uma trilha sonora dramática tocou e um GC imaginário surgiu na mente de Analice:
“EXCLUSIVO: TEMPO ADMITE QUE JORNALISMO ENTENDE TUDO TARDE DEMAIS”.
O Prazo sorriu, aliviado.— Perfeito! Dá para usar no teaser, no encerramento e na retrospectiva!
A memória e a audiência
De um canto mais escuro, aproximou-se outra figura: a Memória. Tinha um vestido feito de capas de jornais antigos e carregava uma bolsa de retalhos de manchetes. À medida que andava, algumas letras iam caindo pelo chão.
— Você me chamou? — perguntou a Memória ao Tempo.
— Ela chamou — respondeu ele, indicando Analice com o olhar.
— Essa moça anda preocupada em ser notícia ou em ser esquecida.
A Memória olhou para Analice com certa ternura.
— Esquecida você será, mais cedo ou mais tarde. Isso é o básico. A questão é: quer ser lembrada como quem repetiu o caos ou como quem tentou organizá-lo?Analice ficou em silêncio. Pensou nas escaladas longas, nos “boa noite” pesados, nas lágrimas que segurou ao vivo porque o espelho da câmera não é lugar de desabar.
— E a audiência? — ela arriscou.
— No fim, é ela quem manda?
Um murmurinho começou ao redor. Fileiras de poltronas surgiram, ocupadas por silhuetas sem rosto. A Audiência era um auditório de sombras. Tossiam, mudavam de canal, bocejavam em uníssono, aplaudiam quando algo brilhava mais do que o costume.
Uma das sombras falou, com voz múltipla:
— Mandar, não mandamos. Mas se não olhamos, vocês somem. Se olhamos demais, vocês perdem a noção de quem são.
O Gato do Auditório reapareceu, sorriso pendurado no proscênio.
— A audiência é um espelho torto, minha cara. Quem se olha demais nele esquece o próprio rosto. Quem não olha nunca, não sabe nem se ainda existe.
Decisão de Analice
O Prazo começou a correr em círculos.
— Estamos sem tempo! Acabou o bloco! Precisamos encerrar com algo forte! Uma promessa! Uma previsão! Uma catástrofe simpática!
O Tempo levantou-se.
— Previsão? Não dou. No máximo, aviso: tudo continua. Com ou sem vocês.Virou-se para Analice.
— E você, vai continuar correndo atrás de mim com microfone ou vai aceitar que nem todo segundo precisa virar manchete?
Ela permaneceu parada. Pela primeira vez, não sentiu urgência em encher o vazio com palavras. Havia uma pausa boa ali, um intervalo sem comercial.
— Talvez eu precise aprender a noticiar o que não grita — disse.
— O que não rende gráfico, mas rende vida.O Gato sorriu mais largo.
— Isso dá pouca repercussão, mas muita implicação. Cuidado: é aí que começa o jornalismo e termina o espetáculo.
O chão-calendário começou a girar mais rápido; datas passavam sob seus pés como letreiros de rodapé. O Prazo berrava “VAMOS, VAMOS, VAMOS!”, a Audiência zapeava nervosa, a Memória recolhia as letras caídas.
— A entrevista acabou — anunciou o Tempo.
— Mas você ainda não.
Apontou para uma saída discreta, sem neon, sem vinheta:
“SAÍDA DE EMERGÊNCIA: VOLTE QUANDO TIVER OUTRAS PERGUNTAS.”
Analice respirou fundo. Não havia aplausos, nem trilha épica. Só o tique-taque discreto de um relógio que não se deixava enquadrar.
Ela caminhou em direção à porta, sentindo-se nem grande demais, nem pequena demais. Apenas em movimento.
Ao atravessá-la, o cenário se dissolveu em pixels, como fim de transmissão. No lugar da sala de entrevista, surgia um novo cenário, ainda desfocado — um país onde talvez as notícias pequenas tentassem, pela primeira vez, disputar espaço com as grandes catástrofes.
E Analice, exausta mas mais lúcida, percebeu que a maior exclusividade que tinha conseguido aquela noite não era com o Tempo, mas consigo mesma: entender que nem tudo que passa precisa ser tratado como se fosse o fim do mundo.
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