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Santos 1999 (Capítulo 4 – Parte 2: A Estrada Costurada) [por Frederico Ileck]


Capítulo 4 – Parte 2: Estrada Costurada

O camarada Niva rasgava firme pela rodovia, triturando o asfalto com aquele ronco irregular de quem já tinha visto muita oficina e pouco amor. O sol de janeiro batia no capô branco e fazia Ivan fechar um olho, quase xingando o astro-rei como se fosse motorista de ônibus atrasado.

Carla estava com os pés descalços no painel, cantarolando Tim Maia fora de tom. Queria voltar pra Chico Science, mesmo depois de já ter trocado a fita pelo rádio.

— Quantas horas até Camburi? — perguntou, puxando uma mecha de cabelo colada no suor da testa.
— Com o camarada? Umas duas… três. Depende da boa vontade dele e da nossa.
— Você fala como se fosse um ser vivo.
— Ele é. Mais confiável que muita gente.

Ela riu, e o carro suspirou junto.

O ponteiro do velocímetro tremia sozinho, como se quisesse dançar forró. Ivan não ligou — já tinha acostumado com as manias mecânicas. “Tanque russo”, dizia um amigo, e ele acreditava.

A brisa quente entrou pela janela, mas junto dela veio um cheiro estranho. Não era gasolina, não era eucalipto. Parecia… álcool hospitalar. Ivan ajeitou o retrovisor. Só estrada. Piscou. De novo aquele gosto metálico na boca. Engoliu seco.

No acostamento, duas crianças chutavam uma bola. Minutos depois, as mesmas crianças chutavam a mesma bola, só que lá na frente. Como replay de TV.
— Déjà vu, puta merda — murmurou.
— Tu nunca dirige quieto. Qual é a reclamação agora? — Carla cutucou. — Tá pensando no quê?
— Em nada. Absolutamente nada.
— Ninguém pensa em nada.
— Eu penso numa cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar pensando melhor.
— Ah, tá gostando so disco.

O rádio chiou. Uma voz grave entrou sem pedir licença:
— “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante…”

Ivan resmungou:
— De novo o Rauzito? Isso aqui tá mais pra velório do que pra viagem.

O chiado engoliu a voz, e uma ladainha entrou:
"Ói, ói o mal… Vem de braços e abraços com o bem ... Num romance astral... AAAAAAAMMMMMEEEENN"

— Caraca. Se abrir uma porta agora, é do céu ou do inferno. — Ele riu nervoso.
— Tu tá delirando, guri. Nem parece o mesmo cara que me xinga porque eu atraso cinco minutos.

O K7 estalou e, como se fosse zombaria, Taiguara surgiu:
— “Vai! E abandona a morte em vida que hoje estás…”

— Essa música tá me perseguindo — Ivan esfregou a cara. — Se é sinal, tô ferrado.

Carla mexeu no dial. Ele percebeu rápido demais: não lembrava de ter sintonizado nada. O toque dos dedos dela, por um instante, parecia transparente. Ele piscou forte. Estava normal.

Mais adiante, o andarilho da placa levantava o polegar de novo. O mesmo sorriso, só que agora do outro lado da pista.

— Não é possível… — resmungou.
— O quê?
— Nada. Estrada é cheia de gente idêntica.

As montanhas cresceram no horizonte. O ar parecia mais pesado, como se respirar exigisse esforço. Ivan pigarreou, mas o nó na garganta não cedeu.

— Acho que preciso de café. Não dormi nada.
— Tu precisa é parar de tentar controlar tudo.

Ele quis responder, mas não saiu nada. A garganta travou como se estivesse intubada. Tossiu, engoliu seco, voltou a bater no volante. “Deve ser o ar seco.”

O túnel apareceu como boca de lobo.
— Que túnel é esse? — Carla se ajeitou no banco.
— Nem lembrava que existia.

Ivan acelerou. Entraram. A escuridão engoliu tudo. O carro começou  a fazer barulhos estranhos. Ouviu seu coração  Bip. Bip. Bip. "que raio de barulhoné esse? Esse carro numca deu dessas???

Na saída, o banco do carona estava vazio. Carla sumira como quem nunca esteve ali.

O camarada deslizava sozinho pelas ruas molhadas de Santos. O relógio digital piscava: 0h15. Em frente à antiga Rádio, Ivan encostou, esgotado.

— Ou eu tô ficando maluco, ou o Alquimista andou botando coisa errada naquelas misturas.

Encostou a testa no volante. Por um instante, jurou ter ouvido passos no corredor de um hospital. Mas quando ergueu os olhos, só havia silêncio e neon queimado.



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