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Posts uit september, 2025 tonen

Santos 1999 (Capítulo 5 – Parte 1: Frequência e Lágrimas) - por Frederico Ileck

Capítulo 5 – parte 1: Frequência e Lágrimas As luzes se acederam e escada rolante terminou em um corredor silencioso de hospital. As luzes brancas tremeluziam, e o odor misterioso de remédio misturava-se com o eco distante de passos. Ivan estava ali para visitar sua avó, dias antes de ela falecer, mas algo inesperado chamou sua atenção. No canto do corredor, Ilda falava ao telefone. Seus cabelos negros caíam soltos sobre os ombros, o rosto de traços indígenas delicados, lábios suaves, olhos grandes que pareciam enxergar além do óbvio. Havia uma intensidade contida em cada gesto, e quando percebeu Ivan, seus olhos brilharam. Ele parou, hesitou. Algo dentro dele se amoleceu aquele coração duro, petrificado e sem compaixão.  Surgiu um lado que nunca admitiria se abriu sem aviso. — Você… — sussurrou Ilda. — Acabei de falar contigo na rádio. Como é que apareceu aqui? É você mesmo? Eu… não esperava. — Eu também não sei explicar. Nem sei o que está acontecendo — di...

Santos 1999 - Capítulo 4 – Parte 3: Os Alquimista estão chegando [por Frederico Ileck]

Capítulo 4 – Parte 3: Os Alquimistas estão chegando A boca do túnel se abriu como se cuspisse Ivan de volta para uma cidade que ele conhecia bem demais e, ao mesmo tempo, parecia outra. Não havia mais Carla no banco ao lado. O camarada Niva seguia firme, o motor vibrando sob suas mãos, mas o silêncio dentro do carro era ensurdecedor. Ele olhou para o banco do carona e viu apenas o vazio. Nenhuma manta, nenhum rastro do perfume doce que misturava sal de mar e protetor solar. Nada. Ivan olha no pulso. O relógio marcava: 00h15 . Ele reconheceu imediatamente o ponto em que estava: a saída do túnel do centro de Santos, aquele que desembocava quase em frente à rodoviária. O centro da cidade naquela hora pairava ainda numa nuvem densa de óleo diesel dos ônibus que zanzavam madrugada adentro, misturada ao cheiro de fritura dos últimos pastelzinhos em botecos sobreviventes. "As vezes eu queria saber como fazem esse ovos coloridos. Que nojo. Do jeito que tô agora, ac...

Analice no País das Más Notícias - Capítulo 3 – A Corrida da Notícia

Capítulo 3 – A Corrida da Notícia O sino de plantão soou três vezes, e imediatamente o lago de notícias começou a borbulhar como panela em fogueira. Os personagens que flutuavam — Senhora Manchete, Camundongo-Correspondente, Quadro de Audiência, Repórter Mirim — ergueram os olhos como se atendessem a uma chamada coletiva. — Estamos todos encharcados de notícias — reclamou a Senhora Manchete, espremendo títulos molhados como roupas de varal. — Precisamos secar de algum jeito! — Uma corrida, oooiooooeeee hihihaha! — anunciou o Gato do Auditório, reaparecendo apenas pela metade, já com dentes sorrindo e microfone reluzente. — Nada seca melhor do que correr atrás do que nunca será alcançado! O Camundongo bateu palmas nervosas. — Corrida da Notícia! Corrida da Notícia! Mas… como funciona? — É simples — disse o Gato. — Quem gritar “BREAKING!” primeiro pode mudar as regras. — E o prêmio? — perguntou Analice, franzindo a testa. — Ah, o prêmio é coletivo — explicou a Senhor...

Santos 1999 (Capítulo 4 – Parte 2: A Estrada Costurada) [por Frederico Ileck]

Capítulo 4 – Parte 2: Estrada Costurada O camarada Niva rasgava firme pela rodovia, triturando o asfalto com aquele ronco irregular de quem já tinha visto muita oficina e pouco amor. O sol de janeiro batia no capô branco e fazia Ivan fechar um olho, quase xingando o astro-rei como se fosse motorista de ônibus atrasado. Carla estava com os pés descalços no painel, cantarolando Tim Maia fora de tom. Queria voltar pra Chico Science, mesmo depois de já ter trocado a fita pelo rádio. — Quantas horas até Camburi? — perguntou, puxando uma mecha de cabelo colada no suor da testa. — Com o camarada? Umas duas… três. Depende da boa vontade dele e da nossa. — Você fala como se fosse um ser vivo. — Ele é. Mais confiável que muita gente. Ela riu, e o carro suspirou junto. O ponteiro do velocímetro tremia sozinho, como se quisesse dançar forró. Ivan não ligou — já tinha acostumado com as manias mecânicas. “Tanque russo”, dizia um amigo, e ele acreditava. A brisa quente entr...

Analice no País das Más Notícias- Capítulo 2 – O Mar de Notícias

Capítulo 2 – O Mar de Notícias O chão se esvaía debaixo de Analice. Nem tempo de espanto ela teve — já deslizava por um corredor úmido, escorregando em manchetes derretidas, que pingavam pelos rodapés como tinta de jornal em febre. Suas lágrimas, misturadas ao suor das noites sem pauta, engrossavam o mar de notícias que se formava. Manchetes boiavam como icebergs disformes: “CRISE NA UNO!”, “ESCÂNDALO DO MENSALÃO!”, “INÉDITO, BEBÊ SEM CÉREBRO NASCE EM CUBATÃO, OUTRA VEZ!”, “AO VIVO EM FRENTE AO WTC!” Até a última, que subia em degraus como palavrão malcriado: “VTNC SEU INGRATO DU C-A-R-A-L-H-O!” Sem drama, Analice escalou as palavras degrau por degrau, sentando-se na última sílaba, justamente onde o jornalismo brasileiro costuma repousar ao fim de um furo. Sentia-se estranha. A cabeça parecia maior que o corpo, pensamentos esticados, preocupações infladas como manchete de tablóide. Cada urgência a fazia crescer ou encolher, dependendo do burburinho editorial. Ol...

Santos 1999 (Capítulo 4 – Parte 1: O camarada e o fim de ano) [por Frederico Ileck]

Capítulo 4 – Parte 1: O camarada e o fim de ano O som do mar estava tão próximo que parecia respirar junto com eles. O ar abafado trazia um cheiro inconfundível: óleo, gasolina e suor. Só uma coisa no mundo tinha aquela mistura precisa — o camarada. O Lada Niva 4x4 branco, estacionado de frente para o mar, parecia um velho sentinela de trincheira. Ivan nunca o chamava de “carro”. Para ele, era sempre “o camarada” — parceiro de aventuras, cúmplice silencioso de fugas e encontros, com peças soviéticas e manias mecânicas que nenhum mecânico de oficina de beira de estrada queria ver de perto. Tinha cheiro, ou espírito, como Ivan dizia, de pano molhado, gasolina velha e maresia entranhada nos estofados. Para ele, era perfume. Para Carla, apenas mais um motivo para andar com o vidro aberto. Dormiam ali desde a madrugada, enrolados em mantas finas, com a brisa úmida entrando pelas frestas. O último dia de dezembro havia sido inteiro de praia, sol rachando e cerveja. Camin...