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O Dia em que Ozzy Invadiu um Reduto New Wave Caipirado [por Frederico Ileck]

Em 1992, eu não usava preto. Aliás, meu guarda-roupa era um mosaico de camisas polo e tênis estranhos da Adidas e Le coq Sportif (os únicos que tinham o meu tamanho do meu pé. Não era nenhum luxo). Estudava em uma Escola Técnica de São José do Rio Preto, acreditava no futuro da engenharia de telecomunicações e elétrica e ouvia com devoção as bandas de new wave, power pop, bandas psicodélicas e umas ou outras extravagâncias progressivas. Toda hora era atacado por uma dupla sertaneja ou modas de viola. De todos os lados possíveis e imaginários. Os ignorava e me sentia feliz - até que apareceu Leonardo Pozzio.

Leonardo era o estereótipo do metaleiro interiorano: jeans sujo, camiseta preta de bandas, mochila surradas, tênis all star falsificados e um desprezo educado por tudo que não envolvesse riffs de guitarras marcados e guitarras distorcidas. Apesar das diferenças, nos dávamos muito bem. Ele respeitava meu amor pelo The Cult, e eu fingia não ouvir quando ele dizia que o Inxs era “coisa de mauricinho” e Cream era "chato para o C e não entendia como eu conseguia ouvir aquilo". Nunca das nossas conversas chegamos a um consenso: "Stray Cats era muito F$da" e daí começamos a trocar fitas e CDs.

Um dia, em um ato de generosidade antagônico, Leonardo me entregou duas fitas cassetes. Uma com Master of Reality e a outra Live Evil. Disse algo como: “Você precisa ouvir isso. Você sabe quem é o Ozzy? E o Dio?", perguntou. "Cara, quando eu era criança colecionava um album de figurinhas chamado 'rock stamp'. O Ozzy conheço só o 'trem da crase'. Sei que é 'crazy train' só que troquei a letra da música pra lembrar a regra da crase. Tipo... 'Vou à estação no trem da crase... ai ai ai'.  O Dio eu achava que era só um preservativo feminino. Sei porque uma colega da nossa classe colocou. Nunca achei que seria um cantor. Soube agora, por sua causa". Bem, eu não sei descrever a cara do Leo, entratanto não ganhei um olho roxo por causa desses trocadilhos praça é nossa. 

Voltei pra casa e coloquei a fita no 3 em 1 do meu quarto. A primeira faixa foi “Sweet Leaf”. A tosse editada e o dito riff entrou como uma britadeira em câmera lenta, e a voz do Ozzy — que até então eu conhecia apenas como “o cara que mordia morcegos”, "trocadilhos praça é nossa não esquecer a regra da crase" ou  e que "fez um sujeito se suicidar"— soou como um profeta gripado anunciando o appocalipse com certo entusiasmo.

Rocket engines burning fuel so fast

Up into the night sky, they blast

Through the universe, the engines whine

Sim meus caros, "in to the void"! É a minha faixa favorita do disco!!! E essa música foi um soco no estômago. Tipo... um PUNCH pra valer! Tinha pegada e era magnífico. Eu não sabia o que estava ouvindo, mas sabia que gostava e muito.


Depois veio Live Evil, e junto dele, Dio — o vocalista operístico, que cantava como se estivesse sempre em uma catedral gótica. Foi um contraste brutal: Ozzy era fumaça de fábrica e espírito honesto e sujo; Dio, um ótimo vinho do porto e belissimos agudos. Dois extremos de um mesmo inferno sonoro. Era como comparar Belchior com Ney Matogrosso. Não tem como comparar, pelo fato de ser apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no banco e deixando correr qualquer rio que alegre esse sertão. Estranho, mas fascinante.

A fita mudou meu rumo. Fui atrás de Sabbath Bloody Sabbath por conta própria. Comprei o Live Evil original — uma raridade. Os LPs estava sumindo das prateleiras e paguei nos dois álbuns quase nada. "O CD é o futuro", comentou o vendedor que também era meu amigo. Marcelo era daqueles caras que se enfiavam em bancas do centro da cidade, entre VHS de filmes de ação e revistinhas do Carlos Zefiro. Por causa disso o sujeito de camisa polo e tênis estranhos estava,  do nada, eu frequentando rodas de metaleiros. Não era exatamente aceito como um dos seus, mas era tolerado como o "diferentão". "Olha o fã ELP... só solo chato sô. Cê tem que ter um disco do Voivod", comentava o Beto. O novato estava sendo convertido. Era quase em um ato religioso.

Dentro daquele grupo, Ozzy era rei absoluto. Só dois sujeitos o desprezavam: Fernando e Fábio. Gêmeos. Como voce diferenciava eles? Um era feio e o outro mais feio ainda. Fácil! Sua beleza estava na parte musical deles, e olhe lá. Ambos tocavam instrumentos e falavam em compassos ímpares como quem discute filosofia alemã. Alegavam que Ozzy era “limitado”, “tonto”, “um sortudo cantor de karaokê”. Mas ninguém conseguia ignorar o carisma daquele homem de voz trêmula e olhar perdido. Ele podia errar todas as notas — e geralmente fazia de propósito —, mas acertava uma paulada de gente. Pra mim o êxtase de Ozzy era o "Never Say Die Tour" de 1978. Ele está totalmente drogado (voz da Fernada Torres) e endemoniado nesse concerto! Assisto toda vez que dá e sempre tenho as mesmas reações. "Esse cara é muito bacana".

E foi esse carisma que levou Ozzy até o sofá da minha mãe. Digo, até a sala da da casa dos meus pais. Quando The Osbournes estreou na MTV, ele virou o avô globalizado do metal. Minha esposa, irmãs, professores da faculdade e até meus pais começaram a falar do “Ozzy”, como se comentassem sobre o Silvio Santos, Sonia Abraão ou Jô Suares. Aquele que antes era o monstro que comia morcegos virou o tiozinho engraçado que gritava “Sharooon!” cheio de cachorros a sua volta e a calça caindo.

Ozzy havia deixado de ser o Príncipe das Trevas. Agora era o Rei das Gafes. O príncipe bufão. E talvez esse tenha sido seu maior feito: escapar da caricatura e virar gente como a gente. Ozzy era pra lá de normal, do jeito dele!

Mas nem sempre foi assim. Em casa, por exemplo, o heavy metal demorou a ser aceito. Uma vez, eu estava ouvindo a faixa “How are you” — do álbum Sabbath Bloody Sabbath, se não me falha a memória — no quarto, deitado na cama, contemplando o teto quase tirando um cochilo. Era tarde, hora do almoço e achava que não tinha ninguém em casa. O som reverberava pela casa inteira e eu achava isso demais. Alias, ainda acho!

Meu pai, um homem prático, religioso, supersticioso e desconfiado de tudo que soasse como em línguas estranhas, entrou do nada no quarto, com os olhos arregalados. “Abaixa essa merda AGORA! Acabei de ter um pesadelo por causa dessa bosta que você esta ouvindo”, disse o senhor que jurava nunca falar palavrões em casa. Sim, ele estava totalmente abalado. Mesmo. Como se estivesse vendo um monstro. Teria Ozzy castigado o inconsciente do velho sem eu pedir? Sério ele tinha tido um pesadelo horrível, daqueles com vultos, gritos, bonecos assassinos, homens deformados com uma luva cheia de facas e outras coisas mais ou um almoço ou janta que ele tinha deixado de comer na infância, sei lá.

Tinha certeza de que a trilha sonora era a voz de Ozzy:

"Yes, I know the secret
That’s within your mind
You think all the people
Who worship you are blind
You’re just like Big Brother
Giving us your trust
And when you have played enough
You’ll just cast our souls (...)

(...) "HOW ARE YOU?"

Rick Wakeman's Solo... absolutamente lindo!

 Jurava que aquilo era coisa do diabo. "Cara, isso é apenas uma música. Essas maluquices tá na sua cabeça“, comentei de imediato. "O que tem nisso aí não é coisa desse planeta", disse, com um medo sincero, quase infantil. E ele estava certo, Black Sabbath não é desse mundo, mesmo! Até no ódio e amor à banda as pessoas se entendem (olha a crase aí... ai ai ai ai).


Naquele dia, fui dormir com o rádio desligado e uma dúvida filosófica: de um lado, a questão plantada por um pai supersticioso; do outro, a certeza de que só algo realmente poderoso poderia causar tanto alvoroço. Foi ali que entendi: Ozzy não era apenas um cantor. Era um fenômeno sensorial. Para o bem ou para o mal, ele te atingia. Sem perdão! 

Agora, com a notícia da sua morte, não penso em capas de disco, nem em manchetes escandalosas. Penso em mim, naquela época, vendo na TV "no more tears" e “Miracle man” como quem contempla o universo com fitas de VHS gravadas por alguem que tinha MTV em casa. Penso também no Leonardo Pozzio, na fita cassete, nas bancas da cidade, na pequena loja de discos e no susto do meu pai.

Ozzy se foi. No show de despedida dele havia um sopro de vida. O último. Uma semana atrás, só isso. Um vendaval, pra ter falar a verdade, quase um ciclone. Arrebatou pessoas no mundo inteiro. Juntou gente de diferentes religiões, culturas e filosofias. Deixou uma trilha de fogo, de som e de memórias. E é por isso que, para mim, ele nunca foi o diabo. Nem a pau Juvenal! Era só um cara muito bacana que gritou mais alto que todos — e teve a sorte de ter ótimos músicos à sua volta, um carisma magnético e seguir seu sonho como uma criança. Sim, mister Osbourne queria ser um Beatle e para a sorte de muitos, sem crase, não foi. E foi simplesmente ele mesmo. Ele foi o Ozzy!

 

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