Em 1964, o psicólogo Bert Kaplan organizou uma obra que permanece singular na história da psiquiatria e da literatura: The Inner World of Mental Illness. Ao contrário das abordagens clínicas tradicionais que observam de fora o sofrimento psíquico, Kaplan fez o oposto. Deu voz direta aos pacientes, reunindo cartas, diários, confissões e memórias de pessoas que enfrentaram crises mentais profundas. A obra não é um estudo sobre a loucura, é uma imersão nela.
"I am crazy wild this minute." Com essa frase devastadora, um dos narradores resume a intensidade de um estado mental em ruptura. Não há distanciamento, apenas a urgência da existência desfeita. Outros trechos revelam paranoias, como a convicção de que está sendo julgado por tentar suicídio, ou a experiência de confusão e conflito entre o eu que reconhece a doença e o que a nega. A dualidade interna torna-se um campo de batalha psíquico.
Essa proposta narrativa — escutar e sentir com o outro — é radical até hoje. Kaplan entendia que a compreensão da mente adoecida exigia mais do que diagnósticos: era preciso empatia, escuta, linguagem.
Mas como atualizar essa abordagem para o nosso tempo?
Na era dos diagnósticos acelerados, dos rótulos psiquiátricos via redes sociais e do culto à performatividade emocional, o sofrimento mental ainda é amplamente silenciado. Paradoxalmente, fala-se mais sobre saúde mental, mas escuta-se menos. As redes fornecem espaço para o desabafo, mas frequentemente transformam a dor em produto ou meme.
Um exemplo contemporâneo vem da Holanda. Em 2023, mais de 300 mil pessoas receberam medicação para TDAH, com cerca de 250 mil delas fazendo uso de metilfenidato, princípio ativo da Ritalina. Embora o aumento seja gradual ao longo das décadas, nos últimos anos houve um salto notável: entre 2021 e 2022, o número de usuários subiu 8%, e os gastos com esses medicamentos cresceram quase 15%. A busca por diagnósticos cresceu entre mulheres, jovens adultos e estudantes universitários, em parte influenciada pelas redes sociais.
Esse fenômeno revela uma tensão entre escuta e excesso de prescrição. Há quem de fato se beneficie das medicações, mas também quem se veja reduzido a um rótulo e a um comprimido, sem que sua história subjetiva seja considerada. Atualizar The Inner World of Mental Illness significaria resgatar a escuta ativa e o testemunho sem julgamento. Significaria acolher, nos consultórios e fora deles, a narrativa de quem sofre, sem a pressa de consertar ou corrigir. O sofrimento mental não é um erro de sistema, mas uma linguagem de algo que precisa ser escutado.
Hoje, terapeutas, escritores, artistas e plataformas digitais podem aprender com Kaplan. Não se trata apenas de dar voz ao sofrimento, mas de criar espaços onde ele possa ser expresso em sua forma própria — fragmentada, contraditória, viva.
The Inner World of Mental Illness segue sendo um manifesto silencioso por mais escuta e menos julgamento. Seu gesto radical — dar a palavra a quem foi calado — ainda é urgente, especialmente num mundo que ouve muito pouco.
Texto intenso e tenso colocando aquilo que a sociedade quer esconder e varre por baixo do tapete. Ninguém quer mais ouvir. Só falar!
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