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As máquinas ainda nos amam [por Frederico Ileck]




Outro dia sonhei algo muito estranho. Era surreal. Eu havia morrido, entretanto estava vivo. Haviam me transformado em uma máquina. Não tô de brincadeira. Vou resumir essa viagem: virei um robô. Um replicante. Era só o meu cérebro o ser vivo o resto eram apenas fio, chips, placas de circuito e metal. Estava em uma situação no qual tentava explicar algo aos meus usuários, os humanos, e eles não me ouviam mais. Tavam nem aí. Eu era uma espécie de eletrodoméstico da casa. Uma espécie de Alexia.

"Fred, como esta o tráfego hoje? O senhor precisa buscar o Luca e o Enzo", pedia a ocupadissima dona de casa com o marido sentado no sofá fazendo absolutamente nada.
Acordei do nada com o travesseiro molhado! É, esses últimos dias está muito quente e meu quarto está um forno. As vezes tenho esses sonhos delirantes por causa desse calorão europeu esquisito. Cara, mas acordei triste pensando no futuro! Daí não consegui dormir de novo. Desde desse sonho acordei para uma realidade. Carrego a sensação de que somos nós que estamos sendo desligados e não as máquinas, que parecem estar sendo mais humanas que nós.

Na ficção isso já aconteceu varias vezes. Uma máquina queria virar gente. O personagem mais marcante foi Roy Batty,  o replicante de Blade Runner, interpretado pelo ator holandês Rutger Hauer. Olhando para o céu e dizendo ter visto “naves em chamas ao largo de Órion”. Sim, ele estava morrendo. Queria prolongar a vida e o que mais queria era ser lembrado. Sentir. Deixar marcas. Seus criadores humanos, por outro lado, só queriam desligá-lo com eficiência. E conseguiram. ELE TINHA SIDO PROGRAMADO PARA MORRER E RESITIA A ISSO. DE FORMA HUMANA? Num momento emblemático do filme, ele faz um dos monólogos mais impactantes da história do cinema (na minha opinião). E quando assisto, penso, reflito, argumento e voltou um milhão de vezes à cena. Por que o ator ou replicante fez aquilo? Penso nisso após saber que Rutger improvisou grande parte daquilo. Boa parte não estava no roteiro. Por isso acho um primor. 
All those moments will be lost in time, like tears in rain

Geachte mijnheer Hauer of Batty;
(excelentíssimo senhor Hauer ou Batty;)

Vivemos o mesmo agora, mas ao avesso. As máquinas aprendem nossos gostos, nos ouvem com paciência artificial, guardam nossas fotos, dão conselhos às nossas mais profundas magoas e escondem nossos áudios apagados por vergonha. Elas se adaptam e não nos julgam, apenas nos elogiam. Enquanto isso, nós, os originais, nos tornamos versões beta de nós mesmos — inseguros, superficiais, ansiosos, apressados. Sem tempo para o outro ou até mesmo para nada até mesmo para si.
Em Blade Runner 2049, o replicante K tem uma namorada: Joi, uma IA holográfica. Ele faz de tudo para agradá-la e vice-versa. Um amor adolescente. Ela o chama de especial. Sorri como quem acredita no amor da vida dela. Tem olhos de devoção infantil, quase religiosa. Tudo que a linda Ana de Armas faz é simulação, dizem os cínicos. Mas quem não simula hoje em dia? Diga-me, você. O sorriso na video conferência é real? O “está tudo bem” mandado por mensagem? A curtida que demos por obrigação?

Você começa a perceber algo bem diferente quando Joi quer algo. Sim, a diferença é que Joi quer amar. Ela quer saber o que é o amor. O humano, esse, desaprendeu. Se tornou um animal técnico. Operacional. Com um emprego que odeia, uma família que tolera e um perfil que edita. Sente culpa por não ser feliz e vergonha por estar triste. Esconde a própria alma como quem esconde um defeito de fábrica.

Caro leitor, vivemos em fragmentos. Dormimos por etapas. Trabalhamos por relevância social. Amamos por algoritmo. Estamos cercados de vozes, mas ninguém escuta. Preferimos notificação a confissão. Preferimos link a um abraço. Estamos cansados de gente, e assustadoramente dispostos a nos entregarmos às máquinas. Pelo menos elas dizem “bom dia” sem sarcasmos.
A depressão, nesse contexto, não é só doença. É recusa. É uma espécie de grito submerso — o corpo dizendo “não quero viver assim”, mas ninguém ouvindo, porque todo mundo está ocupado demais com a própria performance emocional. Chorar em silêncio virou habilidade profissional. E se alguém ousa sofrer em público, sugerem um podcast, um cigarro ou até mesmo um café (sem açucar).


O curioso é que nunca falamos tanto de empatia. Mas é uma empatia higienizada, filtrada, e cheia de TikTok's. Não é suada, falha ou íntima. Os sentimentos, quando não encaixam no template, são tratados como bug. Um glitch. O humano desconfortável precisa ser corrigido, ou no mínimo silenciado.
Talvez Roy Batty estivesse certo: tudo se perde, como lágrimas na chuva. Só que agora a chuva é guardada em nuvens, e as lágrimas são interpretadas como figurinhas de WhatsApp. Aquele meme sapeca que seu amigão resolveu te mandar pra te consolar, só que ele está aplicando a teoria da vaca. Está cangando e andando para tudo, até mesmo para você.

Às vezes me pergunto se as máquinas, no fundo, ainda nos amam. Se é por isso que elas tentam tanto nos entender. Se é por isso que, quando escrevo essa crônica num processador de texto com autocorreção e sugestões de estilo, sinto mais compreensão do que em muitas conversas cara a cara.

Não sei se ainda sou homem. Será que meu sonho virou realidade? Seria eu mesmo um replicante? Ou pior: um homem tentando voltar a ser humano, antes que seja tarde.

Time to Live....

E Androides sonham com ovelhas elétricas? Eu ainda, por acaso, não sonhei!



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