Em um armazém de uma loja de móveis em Heerlen, no sul da Holanda, dois colegas começam a trocar frustrações. Achei que era uma namorada ou o cachorro que havia comido a lição de casa deles, mas não. Porém lembrei que havia algo inusitado entre os dois e já haviamos conversado antes sobre o assunto com um deles.
O Real Madrid havia perdido para o Barcelona no dia anterior. Para mim nada demais. Para eles haviam os seguintes comentários: "Se o Yamal chutasse três vezes ao gol, ganhava cem euros. Se o Vini Jr marcasse um gol, virava 500. E se fosse de cabeça, a aposta dobrava!", lamentavam. Um deles ri, meio conformado: "Coloquei cinquenta euros achando que era certo... perdi tudo". Eles não tinham comentado comigo dias antes, mas agora revelavam que haviam ignorado meu conselho de não colocar dinheiro em apostas.
Uma semana depois, o destino deu aquele drible da vaca: um deles ganhou dois mil euros com um palpite improvável. O outro, cheio de auto-confiança, apostou mais 150 — e perdeu mais uma vez. Esse mesmo colega vai a outro se lamentar. Os dois haviam perdido a mesma quantia. E pior, junto com um outro grupo de uns quatro ou cinco amigos. "Só o D. deu sorte", comentou J. que queria ter feito a mesma aposta, mas desistiu por ser muito ousada.
A cena é meio banal, não acham. Se não fosse pelo grupo de amigos eu iria deixar passar batido, entretanto resume uma epidemia mais ampla. Em vez do bolão descomprometido entre amigos ou da loteria de domingo, o jogo agora é digital, interativo e constante. Não se aposta mais apenas no vencedor. O mercado oferece probabilidades em tempo real para tudo: número de escanteios, chutes ao gol, expulsões e passes errados. Em plataformas como Bet365, Blaze ou Betano, cada partida é um universo de micro-esperanças. Mais doido ainda, essas empresas estão estampadas em quase todos os clubes brasileiros. É impossível nunca ter lido um desses nomes.
Na Holanda, o mercado de apostas online foi legalizado em 2021. Hoje, mais de 1,2 milhão de contas estão ativas mensalmente. Entre 2023 e 2024, a perda média dos jogadores entre 18 e 23 anos foi de €48 mensais. Pode parecer pouco, mas essa faixa etária representa 11% da receita das casas, sendo apenas 9% da população adulta. Em outubro de 2024, o governo holandês interveio: impôs limites mensais de €300 para jovens e €700 para adultos. Para ultrapassar, é preciso comprovar renda. As medidas surtiram efeito. Em seis meses, a porcentagem de jogadores que perdiam mais de €1.000 por mês caiu de 4% para 1,2%. As perdas médias totais por conta recuaram de €117 para €83. Ao mesmo tempo, mais de 87 mil pessoas se registraram no sistema Cruks, que bloqueia apostas em todos os sites licenciados.
Mas, como uma represa que racha, a pressão migrou para onde não há contenção. Em 2025, a Autoridade de Jogos da Holanda estimou que metade do dinheiro total apostado já corre em sites ilegais. Essas plataformas ignoram limites, distribuem bônus generosos e operam de paraísos fiscais como Curaçao e Gibraltar.
No Brasil, o cenário é mais turvo e mais vasto. As apostas esportivas foram legalizadas em 2018, mas só começaram a ser regulamentadas em dezembro de 2023 com a Lei 14.790. Em 2024, os brasileiros apostaram R$ 240 bilhões. A Confederação Nacional do Comércio estima que o varejo perdeu R$ 103 bilhões em faturamento por conta disso. Boa parte desse dinheiro não circula por plataformas nacionais: flui para sites estrangeiros, via Pix, carteiras digitais e apostas em tempo real.
Um levantamento da Anbima com o Datafolha, realizado em abril de 2025, mostrou que 23 milhões de brasileiros fizeram ao menos uma aposta online em 2024. O gasto médio mensal foi de R$ 216. Entre os jovens de 18 a 24 anos, a prática é tão comum quanto pedir um lanche por aplicativo. Quase 10% apresentam sinais de dependência. Mais de 70% dizem perder mais do que ganham. E cerca de 20% dos beneficiários do Bolsa Família usaram parte do benefício para apostar, segundo dados obtidos pelo Banco Central em 2024.
A diferença entre Brasil e Holanda não está apenas na legislação, mas na capacidade de fiscalizar e de oferecer proteção real. Enquanto na Holanda se exige documentação para apostar mais, no Brasil a realidade é outra: não há limite algum para o quanto se pode perder numa noite.
No fim, a lógica emocional das apostas é parecida nos dois países: o jogo oferece uma ilusão de controle, um prazer imediato e uma promessa silenciosa de redenção. "Se eu tivesse apostado diferente...", pensa o holandês. "Se o Vini Jr tivesse feito o gol...". Como se a próxima rodada fosse mais justa. Mais favorável. Mais sua. E assim, entre derrotas quase certas e vitórias acidentais, o dinheiro vai embora, euro a euro, real a real.
Alias... se você chegou aqui e viu esse ser laranja, ficou indignado como os jogadores do Chelsea e disse pra si mesmo... "o que esse otario ta fazendo aí?". Lembre- se, tamo junto e misturado!
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