Em tempos de colapso das utopias e pragmatismo de planilha, parece quase subversivo lembrar que, por oito anos, um ex-sindicalista comandou uma das economias mais eficientes da Europa. Wim Kok, primeiro-ministro dos Países Baixos entre 1994 e 2002, era um homem de voz calma, rosto retangular e ideias que, embora forjadas no chão de fábrica e nos corredores dos sindicatos, não causavam arrepios em banqueiros, CEOs ou tecnocratas de Bruxelas.
No Brasil, onde a palavra “sindicalista” costuma disparar alertas no mercado financeiro, a ascensão de alguém como Kok pareceria um roteiro de sátira política. Mas na Holanda dos anos 90, isso foi apenas... sensato.
Filho de um carteiro e educado na prestigiosa Nyenrode Business Universiteit — uma escola privada voltada à elite empresarial — Kok liderou, nos anos 80, a poderosa Federação dos Sindicatos Holandeses (FNV). Foi peça-chave no Acordo de Wassenaar, em 1982, que selou uma aliança entre sindicatos e empregadores para conter a inflação e o desemprego. Negociador nato, foi alçado à política institucional como ministro das Finanças em 1989, antes de se tornar primeiro-ministro em 1994.
Sua ascensão marcou a famosa coalizão "roxa", unindo trabalhistas (PvdA), liberais (VVD) e centristas (D66) — um pacto inusitado entre vermelho e azul. Como líder do país, Kok implementou reformas profundas: redução do déficit público, flexibilização do mercado de trabalho e privatizações estratégicas. O chamado “modelo holandês” de conciliação — o polder model — foi celebrado como exemplo de equilíbrio entre competitividade econômica e coesão social.
No entanto, a face menos gloriosa de seu legado começou a emergir já durante seu governo. As reformas reduziram direitos trabalhistas em nome da “modernização” e algumas privatizações foram vistas como favorecimento a setores corporativos. Após deixar o cargo, Kok assumiu cargos de liderança em conselhos de gigantes como Shell, ING, TNT e KLM — justamente empresas beneficiadas por sua política econômica. Isso rendeu críticas de que teria abandonado os trabalhadores para se aliar aos oligarcas.
Além disso, sua gestão foi marcada por um dos episódios mais traumáticos da política externa holandesa: o massacre de Srebrenica, em 1995, quando tropas holandesas da ONU falharam em proteger mais de 8.000 muçulmanos bósnios. O relatório do Instituto Holandês para Documentação de Guerra (NIOD), publicado em 2002, atribuiu responsabilidade indireta ao governo. Em um gesto raro de responsabilidade política, Kok e todo o gabinete renunciaram coletivamente — um ato louvado por uns, considerado tardio por outros.
Depois de deixar a política, Kok seguiu atuando como conselheiro empresarial e como mediador em questões europeias, promovendo integração e reformas administrativas até sua morte em 20 de outubro de 2018, aos 80 anos.
A trajetória de Kok expõe um dilema contemporâneo: é possível governar com eficiência sem trair princípios? Seu sucesso foi medido em números — crescimento, desemprego, superávit — mas seu legado simbólico permanece ambíguo. Para muitos, ele simboliza a transformação da social-democracia europeia em uma gestora de consensos técnicos, e não mais em força de contestação social.
No fim das contas, Wim Kok talvez não tenha sido um traidor da causa trabalhista, mas sim o prenúncio de sua metamorfose. Em tempos em que a esquerda busca se reencontrar com sua base, olhar para sua figura — admirada e criticada com igual intensidade — é olhar para o espelho do que a política se tornou: uma arte de equilíbrio entre eficiência e coerência. Nem sempre bem-sucedida.
Referências:
Biografia oficial
– Wiardi Beckman Stichting: https://wbs.nl/personen/wim-kok/“Wim Kok: vakbondsman werd premier” – NOS.nl (2018):
https://nos.nl/artikel/2254605"Wim Kok weg als commissaris bij Shell" – de Volkskrant (2009)
“Srebrenica massacre: Dutch government resigns” – The Guardian (2002)Gielens, R. (2007).
Dutch Consensus Politics in Transition. Amsterdam University Press.OECD Economic Surveys: Nederlands (2000)
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