Precisa Reflexões sobre identidade, ancestralidade indígena e a descolonização do olhar latino-americano a partir da obra de Joaquín Torres-García.
Recentemente, fiz um teste de DNA e descobri algo que mexeu profundamente comigo: 4,5% do meu sangue é indígena. Parte dessa herança vem do norte da América do Sul (Venezuela, Colombia e Equador), outra parte do Chile. E no meio desses percentuais, de dados frios e distantes, existe uma mulher cuja presença ainda ecoa, mesmo que o silêncio tenha tentado apagá-la: minha bisavó, Dona Maria Ursula Andrade. Uma gigante silenciada pela história da minha família. Uma mulher invisível aos olhos dos que preferiram contar outras versões da nossa origem. Pois é a ela que eu dedico este texto. Durante muito tempo, minha família insistiu em uma identidade que não nos pertencia.
Repetia-se, quase como mantra, que nossa origem era italiana, europeia, como se isso nos elevasse. Como se o sangue europeu fosse uma justificativa para o pertencimento ou para o orgulho. Essa narrativa nos tirou completamente nossa verdadeira identidade. Ainda que eu possa me parecer com um europeu, não sou um deles. De jeito nenhum. E negar essa origem latino-americana é uma forma de apagamento histórico e cultural.
Lembro-me vividamente de uma discussão com meu cunhado, quando tentava explicar a ele a origem real da nossa família. No meio da conversa, ele me interrompeu com desdém: "Cara, tu é brasileiro. Deixa dessa pataquada." Essas palavras, ditas com ironia, me feriram. Mas o tempo é mestre faixa preta em ironias maiores e sarcasmos sagazes (cruueeellll muittooo cruueel). Bem, anos mais tarde, movido por um complexo de inferioridade e em busca de pertencimento europeu, esse mesmo cunhado pleiteou a nacionalidade italiana, por ser filho bastardo de um italiano. Ironia das ironias, sarcasmos dos sarcasmos. A crueldade das crueldades (pior que as do Edmundo, o animal). Ele é o retrato típico do brasileiro alienado, do bastardo sem origens que renega sua história por vergonhar-se dela. Mas nós não devemos nos envergonhar. Devemos nos orgulhar.
O mapa que inverte o mundo
Comecemos por uma imagem que inverte muito mais do que um mapa: a obra América Invertida, de Joaquín Torres-García. Criada em 1943, ela nos mostra a América do Sul de ponta-cabeça, com o sul apontando para cima e o Uruguai no topo. Um gesto simples e radical, que propõe um novo ponto de vista sobre o mundo.
Uma imagem que recusa o olhar eurocêntrico e devolve aos latino-americanos sua dignidade, sua centralidade, sua importância. Torres-García, ao propor a inversão cartográfica, participava de um movimento intelectual e estético maior, que buscava descentralizar o saber e questionar os paradigmas impostos pela modernidade europeia.
Em seus escritos, como o manifesto Esquema de uma nova civilização americana, ele defende a construção de uma identidade cultural própria para a América Latina, que não se submeta aos padrões do Velho Mundo.
Porque a verdade é essa: o mundo sempre nos quis como pés. Como base, como serviçal. Mas nós somos a cabeça. Nós somos o coração. Somos povos de memória longa, de resistência silenciosa e ativa. Quando a Europa construía seus palácios, aqui se erguiam civilizações inteiras com saberes que ainda não cabem nos livros. A Amazônia é prova viva disso. Ela não é apenas uma floresta primitiva, como gostariam de fazer parecer. Ela é obra milenar dos povos indígenas. Um jardim construído com intenção, com sabedoria.A chamada "terra preta de índio", solo altamente fértil encontrado em várias regiões da Amazônia, é um exemplo claro de engenharia ecológica ancestral.
Estudos como os de Anna Roosevelt e William Balée demonstram que a região foi intensamente habitada, cultivada e planejada por povos originários. Cada rio desviado, cada planta cultivada, cada ecossistema moldado é um testemunho de que a floresta não é apenas natureza: é cultura.
Por tudo isso, precisamos inverter o mapa, o olhar e a história. Precisamos lembrar que não somos apenas descendentes de colônias. Somos herdeiros de gigantes. Como Dona Maria Ursula Andrade.Que a sua existência, ainda que silenciada, seja agora exaltada. Porque a América Latina não precisa da permissão da Europa para ser grande. Ela já é. Sempre foi.Compartilhe este texto se você também sente que é hora de inverter o mundo.
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