O ser humano! Eita nóis, essa criatura que, desde os primórdios, se olha no espelho e se pergunta: “Quem sou eu?”. E, ao invés de encontrar uma resposta simples, como “sou um ser pensante” ou “sou um amontoado de um monte de coisa junto e misturada”, prefere mergulhar em labirintos psicológicos, onde o ego se infla e desinfla como um balão em dia de ventania. Freud, o pai da psicanálise (e, por tabela, de muitas crises existenciais), já nos alertava: o narcisismo e a depressão são dois lados da mesma moeda, uma moeda que, aliás, ninguém quer carregar no bolso.
Vamos começar pelo narcisismo, essa arte de se amar até que doa. Freud, em sua genialidade, nos apresentou o conceito de “narcisismo primário”, aquele momento em que o bebê, recém-chegado ao mundo, acredita que tudo gira em torno de seu umbigo. É a fase do “eu sou o centro do universo”, que, se não for bem resolvida, pode se transformar em um “eu sou o centro do universo, mas ninguém parece notar”. E é aí que a coisa complica. O narcisista, ao se deparar com um mundo que não lhe dá a atenção que ele acha merecer, começa a se sentir como um ator em um palco vazio. E, convenhamos, não há nada mais deprimente do que aplausos que nunca vêm.
Mas Freud não estava sozinho nessa análise. Outros psicanalistas, como Melanie Klein e Heinz Kohut, também se debruçaram sobre essa relação entre narcisismo e depressão. Klein, com sua teoria das posições esquizo-paranóide e depressiva, nos mostrou como o indivíduo oscila entre a idealização de si mesmo e a sensação de que é um nada. Já Kohut, com sua teoria do self, nos falou da importância dos “outros significativos” na construção de uma autoestima saudável. Sem esses outros, o self fica como um castelo de areia na maré alta: bonito, mas condenado a desmoronar.
E a depressão? Ah, a depressão! Essa velha conhecida de quem já se olhou no espelho e não gostou do que viu. Freud a via como uma espécie de luto pelo ego idealizado, aquele que nunca conseguimos ser. É como se, ao nos compararmos com a imagem perfeita que criamos de nós mesmos, caíssemos em um abismo de inadequação. E, nesse abismo, a única companhia é a culpa. Culpa por não sermos bons o suficiente, culpa por não sermos amados o suficiente, culpa por simplesmente existirmos.
Outros psicanalistas, como Winnicott, nos lembraram que a depressão também pode ser um sinal de que algo no ambiente não está certo. Para Winnicott, o “verdadeiro self” só pode florescer em um ambiente suficientemente bom, onde o indivíduo se sinta seguro para ser quem é. Quando esse ambiente falha, o “falso self” toma conta, e a depressão surge como um grito de socorro do verdadeiro self, que está lá, escondido, esperando para ser resgatado.
E então, o que fazer com tudo isso? Como lidar com o narcisismo que nos infla e a depressão que nos esvazia? A resposta, caro leitor, talvez esteja em aceitar que somos, sim, imperfeitos. Que o espelho pode refletir nossas falhas, mas também nossa humanidade. E que, no final das contas, não precisamos ser o centro do universo para sermos amados. Basta sermos nós mesmos, com todas as nossas contradições e complexidades.
E, se tudo mais falhar, sempre podemos quebrar o espelho. Afinal, a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida, certo? E se não encontrar-la, onde éo setor de achados e perdidos? Porém, nesse encontro e desencontro, talvez encontremos a nós mesmos, não como heróis ou vilões, mas como seres humanos, frágeis e belos em sua imperfeição.
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