Doorgaan naar hoofdcontent

Millôr Fernandes: O Gênio da Palavra Que Eu Nunca Vou Ser [por Fred Ilek]


No final de 2001 resolvi fazer botar o pé na estrada e tentar conhecer um herói meu: Millôr Fernandes. Sim, ele mesmo senhoras e senhores. O colunista, filósofo, cartunista, tradutor e jogador de frescobol. Eu sempre quis ser ele e nessa viagem coloquei na minha cabeça que iria conhece-lo.

Tracei pessoas e locais. Tudo para acha-lo. Conversei antes com um escritor santista que havia jantado com ele. "Ele é monosilábico. Só estava lá por causa dos textos dele pela editora L&PM", comentou. Não sei se essa história é ou não veridica, porém a minha saga começava pela redação da então recém lançada revista "Bundas", no qual sempre enviava e-mails e sugestões. Nela o chefe de redação era nada mais nada menos que Ziraldo Alves Pinto ou simplesmente Ziraldo.

Cheguei ao local. Bem, fui ao Rio de Janeiro de férias e um dos pontos turísticos foi o Ziraldo e depois seria o Millor e , talvez, o Jaguar. Lembro que era uma tarde muito ensolarada na praia do Botafogo. A praia me chamava, mas não dei atenção a ela. Queria saber era desses caras... a praia ainda esta lá. E um dia, eu juro, vou visitá-la com mais paciência. 
A entrevista começou e no meio da dela perguntei ao Ziraldo sobre o Millôr. "De todos os colaboradores do antigo Pasquim o mais fresco é o Millôr. Nem eu mesmo consigo falar com ele. Se quiser te passo o telefone dele, mas já aviso: não vai conseguir falar com ele. Tó, aqui está o telefone dele", escrevendo o número bem rápido em um pedaço de papel. Depois que saí da redação peguei meu cartão telefônico (sim, ainda existia orelhão e eu não tinha celular) e liguei para a casa do meu ídolo. 
Liguei três, quatro, cinco vezes. A semana inteira, ninguém atendia. Todas deram secretária eletrônica. Deixei várias mensagens dizendo que eu era repórter e que gostaria de falar com ele. Fiquei uma semana e meia no Rio. Encontrei com o Ziraldo (duas vezes), Zênio (irmão dele), Claudius e até o Visconde de Sabugosa, sim ele mesmo, o ator André Valli. Quase o abracei, porém meu foco era o senhor Fernandes, o intocável.

Bem, se até agora você não sabe quem é Millôr Fernandes. Mil desculpas.. sou as vezes o "senhor nariz de cera" e "mestre das barrigadas".  Vou explicar. O nome já diz tudo. Ou quase tudo. Porque Millôr não era só um nome, era um estilo, uma forma de ver o mundo, uma maneira de transformar o ordinário em extraordinário com uma canetada afiada e um humor que cortava como lâmina. Meu sonho? Ser talvez como ele. Não igual, porque igual a Millôr só ele mesmo, mas ter aquela capacidade única de enxergar o absurdo na normalidade e traduzi-lo em palavras que fazem rir, pensar e, às vezes, chorar de tanto rir. Tu tá me achando um "fanzueca" dele ou um "stalker". Acalme-se e guarde seus pré-conceitos para outra pessoa. Aqui é apenas uma administração literária. 👍 

Voltando ao assunto: ele era um simples Milton. Todavia trocou o T pelo L. Virou Millôr um gênio disfarçado de homem comum. Nascido em 1924, no Rio de Janeiro, e desde cedo mostrou que não ia seguir o "script" que a vida tentou impor a ele. Autodidata, começou a trabalhar como assistente em uma tipografia e, aos 14 anos, publicou seu primeiro desenho na revista O Jornal. Pouco depois, entrou para O Cruzeiro, onde revolucionaria o humor e a crítica no Brasil.

O estilo de Millôr era único. Ele não escrevia, ele desenhava com palavras. Era um exímio cartunista também. Cruzada e cabeceava! Incrível! Suas frases eram curtas, precisas, e cada vírgula parecia ter sido colocada com um bisturi. Ele tinha o dom de dizer muito com pouco. Um exemplo? “O mal do mundo é que Deus envelheceu e o Diabo evoluiu.” Isso é Millôr. Em uma linha, ele consegue ser filosófico, irônico e profundamente humano.

Millôr era um mestre da síntese. Ele dizia que “Escrevo porque escrevo, se me pagassem eu só falava”, e ele se mantia em silêncio. Seus textos eram limpos, sem ruídos, mas cheios de significado. Ele não precisava de dez páginas para dizer o que podia ser dito em dez palavras. E o melhor: ele fazia isso com um humor que era ao mesmo tempo inteligente e acessível. Ele não fazia piadas; ele fazia reflexões engraçadas.

Outra característica marcante de Millôr era sua capacidade de ser universal e, ao mesmo tempo, profundamente brasileiro. Ele falava de temas que todo mundo entendia — amor, morte, política, burocracia —, mas com um sotaque carioca, com aquele jeito que só quem nasceu no Rio sabe ter. Ele era o cara que conseguia fazer uma crítica ao governo militar sem dizer uma palavra diretamente contra ele. Era o mestre do “entrelinhas”.

Millôr também era um artista múltiplo. Não se limitou ao texto. Foi desenhista, dramaturgo, tradutor e até inventor de palavras. Quem nunca usou “millôr” como sinônimo de “melhor”? Ele criou uma linguagem própria, um jeito de falar que era só dele e que, de tão bom, virou parte do vocabulário brasileiro.

Minha estadia no Rio tinha acabado, entratando minha obsessão não me deixava dormir. Depois que voltei para a casa estava paranóico... Teria que falar com o autor de qualquer forma ou até mesmo com um psiquiatra. 
Senhoras e senhores. O mundo já era moderno! Apelei para a internet e não é que no ano seguinte o autor resolveu começar um "saite". Sim, saite era assim que ele escrevia. Mandava toda semana mensagens a ele e cheguei a ganhar um livro do autor por causa de uma frase. "Em terra de cego, quem tem um olho vai ao oftalmologista". Ganhei... yooooopppiieee... Havia ganhado um livro do meu autor favorito. "O livro vermelho dos pensamentos de Millor". Deve estar em algum lugar ou em alguma casa de algum sobrinho que mexeu na minha coleção. Sei lá. Quem pegou que faca bom uso, claro! 

Entretanto, voltando outra vez ao assunto, queria esse livro autografado, claro! Resposta do autor: "ganhaste o livro e ainda quer eu assine nele? De jeito nenhum", respondeu curto e grosso. Em si nem me importei. Até dei aquele dane-se rotineiro. Ele havia FINALMENTE respondido algo.
Eu, chato??? Millôr era pior. Era um bom chato e um crítico ferrenho da mediocridade, da hipocrisia e do poder. Mas fazia isso com uma leveza que só os grandes gênios têm. Ele dizia: “A vida é curta, mas as bobagens que a gente faz são longas”,  por isso compreendi sua resposta. E ele passou a vida cortando essas bobagens com seu humor afiado.

Meu sonho era ser como Millôr. Não pelo sucesso, mas pela liberdade. Millôr era livre. Livre para pensar, para criar, para rir e fazer rir. Ele não se prendia a fórmulas, não seguia modas, não se importava com o que os outros iam pensar. Ele era ele, e isso bastava.
Millôr morreu em 2012. Soube da notícia aqui na Holanda. Cara, fiquei triste pra valer. Porém seu legado continua vivo. Suas palavras ainda ecoam, suas ideias ainda provocam, seu humor ainda faz rir. Ele mostrou que é possível ser inteligente sem ser chato, engraçado sem ser vulgar, crítico sem ser amargo.

Ser como Millôr? Talvez seja um sonho grande demais. Mas sonhar nunca fez mal a ninguém. E, como ele mesmo diria: “É melhor ser pessimista do que otimista. O pessimista fica feliz quando acerta e quando erra.” Então, sigo errando. E, quem sabe, um dia, consigo escrever uma linha bem torta que faça jus a ele.
Por enquanto, fico com uma das suas frases mais famosas, que define bem o que ele era e o que eu gostaria de ser: “Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem.” Graças a deus eu não o conheci. Ficou na minha cabeça o mito, só isso. É para mim até foi muito melhor. Imaginem eu com a minha falta de paciência conhecê-lo! Seria um desastre!!! 
Por isso, Millôr foi o cara que aconteceu. E que, por sorte, aconteceu no Brasil e para a nossa linda e inculta língua portuguesa.







Reacties

Populaire posts van deze blog

O abismo sorri de volta! Gabriel, Juliana e a trágica ilusão da jornada interior (por Frederico Ileck)

Gabriel Buchmann morreu em 2009, aos 28 anos, nos arredores do Monte Mulanje, no Maláui. Doutorando da Sorbonne, economista idealista, atravessava a África a pé, de van, em caronas, em busca de algo entre tese e transcendência. Seu corpo foi encontrado dias depois de uma escalada solitária, desidratado, sem botas, encolhido. Virou personagem de um filme — Gabriel e a Montanha — onde é retratado como figura complexa: entre o voluntarioso e o vaidoso, entre o sonhador e o cego. Alguém que, como tantos viajantes contemporâneos, talvez tenha confundido humildade com imunidade. Em 2017, fui convidado pelo Dutch Mountains Film Festival, na Holanda, para fazer uma pequena apresentação sobre o filme Gabriel e a Montanha. Aceitei animado, mas acabei ficando doente e não pude comparecer. O filme, porém, ficou na minha cabeça, especialmente por causa de uma conversa com um amigo — organizador do festival e alpinista amador — que fez um comentário ácido sobre a inocência d...

A Idolatria e o Desvio de Caráter (por Fred Ilek)

Há algo de profundamente inquietante na forma como certas figuras públicas conseguem catalisar a devoção cega de milhões. Não se trata apenas de apoio político ou identificação ideológica, mas de uma verdadeira idolatria, um fenômeno que parece corroer o caráter de seus seguidores, transformando a razão em fanatismo e a crítica em heresia. Jair Bolsonaro, Donald Trump e outros líderes de perfil autoritário não são meros políticos para seus adoradores; são ícones quase religiosos, figuras que transcendem a esfera do humano para ocupar um lugar divino no imaginário coletivo.   O que explica essa devoção? Por que tantas pessoas parecem dispostas a abandonar a própria capacidade crítica para seguir homens cujas ações e discursos frequentemente contradizem os valores que alegam defender? A resposta, talvez, esteja na natureza do conservadorismo moderno, um movimento que, longe de ser uma simples defesa de tradições, parece nutrir uma alma podre, alimentada pelo medo, pe...

Dezesseis Anos na Caverna Neerlandesa [por Frederico Ileck]

Hoje faz exatamente dezesseis anos que desembarquei na Holanda. Fiz essa aventura de navio. Sim, ha 16 anos saia do porto de Santos e descia em Kiel, na Alemanha, para nunca mais voltar a minha terra natal.  Caros leitores, dezesseis voltas completas ao redor do sol numa terra que insiste em girar em outro eixo — o da frieza, da formalidade e de uma estranha gentileza que nunca chega a ser afeto. Aqui, no sul do país, onde os dias nublados parecem mais longos e as pessoas, mais curtas, fui moldado a golpes de silêncio e resistência.   Entre os anos de 2010 ate 2014 trabalhei como fotojornalista para o IBA de Heerlen — um projeto importado da Alemanha, cujo nome completo, Internationale Bauausstellung , remete a uma exposição internacional de construção e urbanismo. A ideia era nobre: revitalizar áreas esquecidas, dar nova vida a cidades com passados industriais e futuros incertos. Mas, na prática, o IBA aqui nunca saiu do papel com a força que prometia. Falta...