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Macondo Respira: O Realismo Mágico da Tela ao Coração [por Fred Ilek]

Fui a uma livraria esse dias e de repente vi um clássico na prateleira: cem anos de solidão. O que me chamou atenção foi um selo do Netflix no livro. "Obra que inspirou a minissérie". Sabe, as vezes esqueço desse streaming. Então, mais que imediatamente comprei a obra e corri para a TV, atrasado até demais, para assistir esse clássico e depois reler a obra, no qual sempre discutia com um grande amigo nas noites de sexta-feira do bar do Toninho, o melhor bolinho de bacalhau de Santos! 

Todo que eu comentavam sobre qualquer coisa ligada a minha família, Paulo, um grande e adorável amigo, falava: "parece até os cem anos de solidão". Meses mais tarde comprei a obra e li até uma parte. Anos depois terminei. Lia quando lembrava das noites de sexta e queria relembrar aquelas conversas sempre filosóficas e literárias. Não sei o porquê eu faço isso... em si... faço isso com uma série de outros livros.

Porém, vamos ao que interessa. A Macondo, uma cidade nunca colocada em um lugar fixo no mapa. Sempre esteve suspensa entre o tempo e o vento, nas vozes que se sussurram nas esquinas da América Latina. Mas agora, com a chegada da adaptação desse clássico ao Netflix, Macondo se move, ganha novas cores, novas sombras e uma nova existência.

Sob a direção de Laura Mora e Alex García López, e com a benção dos filhos de Gabriel García Márquez, a série captura o espírito do romance que moldou a identidade literária da América Latina. Filmada em solo colombiano, entre poeira, selva e nostalgia, a produção reuniu uma legião de artistas e técnicos para reconstruir a magia da cidade, um povoado onde os vivos convivem com os fantasmas como se fossem vizinhos de longa data.

Se o livro foi um rio caudaloso de palavras que arrastou gerações, a série tenta ser o reflexo desse rio ao entardecer: tremeluzente, fiel, mas não muito idêntico. O realismo mágico, que no papel fluía naturalmente como um feitiço sussurrado, agora se traduz em imagens e sons. E é aí que o desafio começa: como dar forma à chuva de flores amarelas que anuncia a morte? Como materializar o aroma do chocolate de Remedios, a Bela? Como dar corpo ao destino circular dos Buendía sem perder a poesia?

A resposta veio no talento dos atores colombianos, escolhidos para viver os personagens com a dignidade e a carne de quem conhece a alma de Macondo. Claudio Cataño veste a melancolia de Aureliano Buendía como se fosse sua segunda pele. Marleyda Soto, como Úrsula Iguarán, é o pilar indestrutível que sustenta a família mesmo diante da loucura e da decadência. Diego Vásquez, como José Arcadio Buendía, carrega nos olhos a fúria e o assombro de quem fundou um mundo inteiro com as próprias mãos.

Gabriel García Márquez sabia que Macondo não era apenas um lugar, mas um estado de espírito. E sabia também que a América Latina pulsa entre o místico e o concreto, entre o mito e a fome. Cem Anos de Solidão foi sua oferenda ao continente, um testamento de amor e de dor, um retrato onde o absurdo e a realidade dançam juntos, abraçados em eterna vertigem.

Se a série capturou isso? Sim, mas à sua própria maneira. Como um espelho ligeiramente embaçado, ela reflete a grandeza e as cicatrizes do livro. Não substitui a obra, assim como um sonho não substitui a vigília. Mas faz algo talvez ainda mais valioso: abre as portas de Macondo para uma nova geração. E nos lembra que, enquanto houver alguém lendo, assistindo ou contando histórias, Macondo jamais desaparecerá debaixo das folhas mortas.


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