O QUE É UM GOLPE DE ESTADO?
Segundo o dicionário Houaiss (e qualquer professor de história que não tenha estudado pelo WhatsApp), um golpe de estado acontece quando um grupo de iluminados decide que democracia é legal… até eles perderem a eleição. Aí, ao invés de esperar quatro anos, eles resolvem tomar o poder no grito, geralmente com tanques, discursos sobre “salvar a pátria” e algum general de bigode com saudade dos tempos de chumbo.
Mas o Brasil, sempre inovador, resolveu modernizar o conceito. No dia 08 de janeiro de 2023, tivemos o primeiro golpe estilo TikTok da história: um monte de adultos fantasiados de verde e amarelo, agindo como se estivessem no Shopping Morumbi, Praiamar, Miramar ou qualquer outro num sábado à tarde, invadiu Brasília achando que quebrar vidraças ia trazer o Bolsonaro de volta no modo “Picareta Plus”. Advinha: não trouxe (aqui risos). O que conseguiram foi protagonizar um espetáculo de imbecilidade em 4K, com direito a "selfies" na cadeira do Congresso, depredação digna de torcida descontrolada, véia catarinense traficante de drogas escorregando o barro na louça suprema e até gente fazendo coleformes fecais no carpete persa do Planalto. Sim, meu caro leitor, um marco na história dos golpes fail.
No fim, o saldo foi de cadeia para centenas e vergonha alheia para milhões. Se tem uma coisa que a extrema direita provou naquele dia é que até pra ser golpista tem que ter competência – e nem isso eles souberam fazer.
O GOLPE QUE REALMENTE IMPORTA
Enquanto a caterva de lunáticos jogava Brasília no "modo trapaceiro" do GTA (atenção Rock Star), eu lembrei de um Golpe de Estado que realmente merecia destaque. Não os golpistas de smartphones em punho, mas a banda liderada por Helcio Aguirra, Catalau, Nelson Brito e Paulo Zinner que nos anos 80 já metralhava guitarras e letras afiadas enquanto essa galera hoje presa ainda brincava de playmobil.
Formado em São Paulo em 1985, o Golpe de Estado trouxe para o rock nacional um som pesadíssimo, sujo e carregado de contestação – algo que, ironicamente, os "patriotas" do dia 08 de janeiro jamais entenderiam, achariam polêmico, já que o máximo de contestação musical deles deve ser cantar hino evangélico e música sertaneja na frente do quartel. Enquanto os bolsonaristas sujavam o chão do Congresso, o Golpe (o da banda, não o dos idiotas) já denunciava, décadas antes, que o Brasil não tem jeito quando os canalhas tomam conta.
Vamos aos hinos que deveriam ter tocado naquele dia – se ao menos soubessem o que é música:
"Liberação feminina" (1985)
"Não venha você me dizer
Com as mesmas desculpas
"Meu bem, não foi minha culpa"
Que o carro morreu
Que o taxi bateu
Que o delegado falou "valeu"
Porque o gostoso agora aqui sou eu
E o meu lugar agora e todo seu."
Ironicamente, poderia tocar ao fundo enquanto os golpistas eram algemados.
"Forçando a barra" (1988)
Forçando a barra
você tem o que quiser
quem sabe ate aquele tesão de mulher
forçando a barra
você tem o que não quer também
é muita gente mas você não vê ninguem
todo pecado
é perdoado
quando ele é feito
sem ter machucado
forçando a barra
o que é bobo fica esperto
porque ele sabe que o perigo ta por perto
forçando a barra
você tem a cruz e a espada
e veste a farda do inimigo que te aguarda
(coloquei a letra toda, dane-se)
Uma ode aos generais de sofá que incentivaram os idiotas a invadir Brasília enquanto assistiam de casa, com ar-condicionado e whiskey paraguaio.
"Noite de Balada" (1988)
"Dinheiro não compra verdade
Quem sabe a felicidade
Velhice, a idade te assusta
Prefere uma vida mais curta."
Resume bem o nível de planejamento estratégico dos golpistas, que acordaram e pensaram: "E se a gente tentasse derrubar o governo hoje?"
"Nem policia nem bandido" (1989)
"Tem gente que usa na mesma blusa
Dois distintivosTem gente que abusa
Nem é policia, nem é bandido
Tem gente que usa na mesma blusa
Dois distintivos
Tem gente que ajuda
Nem é policia, e nem é bandido"
Quase um retrato falado do ex-presidente e de seus seguidores que pediam "voto impresso" mas esqueceram que democracia tem regras.
(cover de Chico Buarque 1994)
"Se vives nas sobras frequentas porões
Se tramas assaltos ou revoluções
A lei te procura amanhã de manhã
Com seu faro de dobermam"
Poderia ser a trilha sonora do momento exato em que perceberam que o golpe não ia dar certo e que o aeroporto estava fechado pra Miami, né Dudu? (Não era só não bastava um jipe, um soldado e um cabo?)
O VERDADEIRO CRIME
O maior crime do dia 08 de janeiro não foi só a tentativa fracassada de golpe, mas também o fato de que Golpe de Estado, a banda, nunca recebeu o reconhecimento que merecia. Enquanto os vândalos brincavam de revolução com altas doses de gardenal, esses caras estavam, lá nos anos 80 e 90, fazendo música de verdade – sem precisar de Telegram, Zapizapi, teorias conspiratórias lunáticas incentivadas e financiadas por empresários picaretas a la Zé Carioca.
Então, se é pra falar de Golpe de Estado, que seja o que vale a pena:
O da banda – barulhento, autêntico e com conteúdo.
O dos golpistas – patético, tosco e com direito a "véia do zap" pedindo intervenção militar no facebook.
Que fique a lição: se for pra dar um golpe, que seja no palco, com guitarra e letra inteligente, pombas. O resto é só vergonha alheia transmitida ao vivo.
Corta Jaca na cidade não é mole não
(...)
Mas se essa lua, se essa lua fosse minha
Eu não mandava, não mandava Homem pra lá, não"
(Arnaldo e Patrulha do Espaço, 1978 – sei que eu tava falando do Golpe de Estado, porém encaixei o Arnaldo pelo fato de escrever essa matéria ouvindo as duas bandas)
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