O óbvio é, paradoxalmente, uma das coisas mais difíceis de se explicar. Ele está tão próximo de nós, tão intrínseco à nossa experiência cotidiana, que muitas vezes passa despercebido. No entanto, quando tentamos defini-lo, explicá-lo ou mesmo questioná-lo, nos deparamos com uma complexidade que desafia nossa compreensão. Filósofos ao longo da história têm se debruçado sobre essa questão, tentando desvendar o que torna o óbvio tão elusivo. Ao mesmo tempo, há uma beleza singular nas surpresas inesperadas, especialmente quando elas vêm de pessoas que pensamos conhecer bem. Esses momentos nos lembram da riqueza da experiência humana e da profundidade que reside nas interações aparentemente simples. Este artigo explora a dificuldade de explicar o óbvio, citando pensadores que refletiram sobre o tema, e discute o fascínio das surpresas inesperadas, ilustrando com uma experiência pessoal envolvendo uma colega de trabalho e uma conversa sobre música, especificamente sobre o primeiro álbum da cantora Adele, intitulado 19.
O Óbvio como um Desafio Filosófico
O óbvio é aquilo que parece não precisar de explicação. É o que está diante de nossos olhos, o que é dado como certo, o que não questionamos. No entanto, como nos lembra o filósofo Ludwig Wittgenstein, "o que é óbvio não é óbvio". Wittgenstein, em suas "Investigações Filosóficas", argumenta que o óbvio é frequentemente o que mais nos escapa, justamente porque não o questionamos. Ele sugere que a linguagem e os conceitos que usamos no dia a dia são tão familiares que não percebemos sua complexidade até que tentemos explicá-los.
Outro pensador que refletiu sobre o óbvio foi Martin Heidegger. Em *Ser e Tempo*, Heidegger fala sobre o "ser-aí" (Dasein), a nossa existência cotidiana. Para ele, o óbvio é o pano de fundo silencioso sobre o qual nossa vida se desenrola. No entanto, quando tentamos trazer esse pano de fundo para o primeiro plano, ele se torna problemático. Heidegger argumenta que o óbvio é o que está mais próximo de nós, mas também o que mais resiste à nossa compreensão.
O filósofo francês Maurice Merleau-Ponty também abordou essa questão em sua fenomenologia da percepção. Para Merleau-Ponty, o óbvio é o que percebemos sem perceber que percebemos. Ele usa o exemplo do corpo: nosso corpo é algo tão óbvio que raramente o notamos, mas é através dele que experimentamos o mundo. Quando tentamos explicar como o corpo funciona ou como ele nos permite interagir com o mundo, nos deparamos com uma complexidade que desafia nossa compreensão.
Esses pensadores nos mostram que o óbvio é uma espécie de paradoxo: é o que está mais próximo de nós, mas também o que mais resiste à nossa compreensão. Ele é o fundamento silencioso sobre o qual construímos nossa experiência, mas quando tentamos trazê-lo à luz, ele se revela como algo profundamente complexo.
A Beleza ou feiura das Surpresas Inesperadas
Se o óbvio é difícil de explicar, as surpresas inesperadas são o oposto: elas nos tiram da nossa zona de conforto e nos lembram que há sempre mais para descobrir. As surpresas têm um poder único de nos fazer ver o mundo de uma nova maneira, de nos lembrar que as pessoas e as coisas não são sempre o que parecem ser.
Um exemplo: Yayo e o Cuarteto Obrero! Um daqueles grupo que eram como aqueles tios sem filtro nas festas de família: você nunca sabia se ia dar risada ou desejar um buraco para se esconder. A especialidade deles? Músicas com letras tão obscenas que até dicionário hesitava em traduzir. Mas o verdadeiro show acontecia quando Yayo levava sua arte para a TV (https://youtu.be/HpjOml49_KU?si=79HBcNyh18o6LxRx)
Sim, isso tem no Spotify... pode procurar!
Imagine a cena: um programa vespertino, audiência familiar, moças sentadas em cadeiras, sorrindo inocentemente. A banda começa a tocar, e Yayo solta a voz: versos aparentemente inofensivos... até que, como um trem desgovernado, a letra descarrilha para territórios proibidos pelo Código Penal da Decência Pública.
O ritual era sempre o mesmo. No começo, as garotas acompanhavam, rindo, batendo palmas. Mas, no exato momento em que a poesia suja revelava sua verdadeira face, os sorrisos congelavam. Os olhos arregalavam. As bocas se abriam, mas não saía som — talvez porque até o cérebro demorava para processar.
Um clássico: Yayo cantava sobre um romance, docemente. Algo sobre um casal apaixonado. E então, sem aviso prévio, a rima entregava um detalhe anatômico que definitivamente não constava no briefing do programa. O desfecho? Uma mistura de choque, gargalhadas nervosas e uma câmera tentando disfarçar o caos.
Uma vez, uma garota, ao entender o duplo (ou quíntuplo) sentido da letra, ficou tão vermelha que poderia ser confundida com um semáforo no auge do congestionamento. Outra levantou e saiu correndo, talvez para a igreja mais próxima. Algumas apenas caíam na risada, aceitando que, no mundo de Yayo, a surpresa era a única certeza.
E assim seguia o Cuarteto Obrero, especialistas na arte de transformar um programa de auditório em um campo minado de constrangimentos. Mas, sejamos justos: era um constrangimento democrático. O público? Amava. O apresentador? Morria de rir. As garotas? Bom, elas nunca sabiam se ficavam ou fugiam. Mas sim... o inesperado!
Surpresa ruim? Talvez. Mas surpresa, sem dúvida.
Entretanto em "A República", Platão fala sobre a importância da surpresa no processo de aprendizado. Ele usa a alegoria da caverna para ilustrar como as pessoas podem estar presas em uma visão limitada da realidade. Quando alguém é libertado da caverna e vê o mundo real pela primeira vez, a experiência é de surpresa e deslumbramento. Para Platão, a surpresa é um momento de revelação, um momento em que o óbvio é questionado e novas possibilidades se abrem.
O filósofo Søren Kierkegaard também valorizava a surpresa como um elemento essencial da experiência humana. Para ele, a surpresa é o que nos tira da rotina e nos coloca diante do desconhecido. Em *O Conceito de Angústia*, Kierkegaard argumenta que a surpresa é uma forma de confronto com o infinito, com aquilo que está além da nossa compreensão imediata. É através da surpresa que podemos experimentar o verdadeiro significado da existência.
As surpresas inesperadas também têm um papel importante nas relações humanas. Quando alguém nos surpreende, especialmente alguém que pensamos conhecer bem, isso pode nos lembrar da complexidade e da profundidade da experiência humana. Esses momentos nos mostram que as pessoas são sempre mais do que aparentam, e que há sempre mais para descobrir sobre elas.
Uma Conversa sobre Música e a Surpresa de Descobrir uma Paixão por Adele
Recentemente, tive uma experiência que ilustra bem a beleza das surpresas inesperadas. No trabalho, tenho uma colega com quem converso regularmente sobre assuntos cotidianos, mas nunca tínhamos discutido música em profundidade. Um dia, durante o trabalho, em poucos minutos após uma brincadeira minha, ela mencionou casualmente que era uma grande fã da cantora Adele. Muito por causa da pergunta que fiz. Meio repentina: qual músico ou musica que havia marcado a vida dela? A resposta me surpreendeu, pois nunca havia associado ela a esse tipo de música. Intrigado, perguntei o que a atraía tanto na música de Adele.
Ela começou a falar com uma paixão que eu nunca havia visto antes. Ela explicou que o primeiro álbum de Adele, 19, tinha um significado especial para ela. Lançado em 2008, o álbum foi um marco na carreira da cantora, marcando o início de sua ascensão ao estrelato. Minha colega descreveu como as músicas do álbum, como "Chasing Pavements" e "Hometown Glory", ressoavam profundamente com suas próprias experiências de vida. Ela possuia ate um autografo da cantora e chegou a ir a muitos concertos dela. Chegou até a citar sobre como as letras de Adele capturavam sentimentos de amor, perda e autodescoberta de uma maneira que parecia quase universal. Eu nunca havia pensado nisso, pelo fato detestar o estilo de.musica da cantora. Porém deixei ela falar e fiquei atento de como ela expressava a sua paixão. Detalhe: fato raro no sul da Holanda (são terrivelmente fechados).
O que mais me impressionou foi a maneira como ela descreveu a voz de Adele. Ela falou sobre a capacidade da cantora de transmitir emoções cruas e autênticas, como se cada nota fosse carregada de significado. Para essa colega, ouvir Adele era uma experiência quase espiritual, uma forma de se conectar com algo maior que si mesma.
Essa conversa foi uma surpresa para mim, não apenas porque revelou um lado da minha colega que eu não conhecia, mas também porque me fez ver a música de Adele de uma nova maneira. Entretanto a detesto menos é por curiosidade resolvi ouvir com mais atenção o álbum 19.
Já havia ouvido algumas de suas músicas, mas nunca havia prestado atenção. Depois daquela conversa, Ddecidi ouvir com muito mais atenção. Fiquei impressionado com a maturidade das letras e a profundidade emocional da voz de Adele, especialmente considerando que ela tinha apenas 19 anos quando gravou o álbum. Dezenove anos, aliás, a idade da minha filha mais velha.
Meus caros amigos o óbvio é, de fato, uma das coisas mais difíceis de se explicar. Ele está tão próximo de nós que muitas vezes passa despercebido, mas quando tentamos defini-lo ou questioná-lo, ele se revela como algo profundamente complexo. Filósofos como Wittgenstein, Heidegger e Merleau-Ponty nos lembram que o óbvio é o fundamento silencioso sobre o qual construímos nossa experiência, mas que ele resiste à nossa compreensão quando tentamos trazê-lo à luz.
Por outro lado, as surpresas inesperadas têm o poder de nos tirar da nossa zona de conforto e nos lembrar que há sempre mais para descobrir. Elas nos mostram que as pessoas e as coisas não são sempre o que parecem ser, e que há uma riqueza de experiências e emoções que podem ser reveladas quando menos esperamos. A conversa com minha colega sobre Adele e seu primeiro álbum, 19, foi um exemplo disso. Ela me mostrou que há sempre mais para descobrir sobre as pessoas que pensamos conhecer, e que a música pode ser uma ponte poderosa para conectar experiências e emoções.
No final, o óbvio e as surpresas inesperadas são dois lados da mesma moeda. Ambos nos desafiam a ver o mundo de uma nova maneira, a questionar nossas suposições e a abrir nossas mentes para novas possibilidades. E é nesse espaço entre o óbvio e o inesperado que encontramos a verdadeira riqueza da experiência humana.
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