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Posts uit augustus, 2025 tonen

Meu Amargo Diário (12.09.2010) - por Frederico Ileck

Você sabe o que é a cerveja Duvel? Não tô aqui pra fazer propaganda dela, mas é uma das coisas mais deliciosamente amargas que existem nesses Países Baixos de meu Deus. Ela tem estilo, classe, é robusta… tudo de bom. Somos apenas semelhantes na amargura, e só. Um copo tem 8% de álcool. Que cacetada bem dada! Faz até você pensar melhor, claro. “Uma cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar pensando melhor”, diria nosso querido Chico Science. E ela realmente te faz pensar melhor — e além. Há algo entre essa cerveja e eu. Quando bebo na Bélgica, parece que fica ainda melhor. Não quero me esnobar (já me esnobando, como aqueles que vão aos bares da Vila Madalena), mas a minha volta — o Vlaams (flamenco), os pralines, a franqueza dos belgas — faz com que essa cerveja fique bem mais gostosa! Isso é psicológico? Claro... Na Holanda, por exemplo, bebo Grolsch, que também é estilosa. Me despeço aqui afirmando que sou um péssimo cervejeiro e que...

Santos 1999 (Capítulo 3 – Maré de Datas) [por Frederico Ileck]

Capítulo 3 – Maré de Datas  O perfume de Carla ainda pairava no túnel — doce e salgado ao mesmo tempo — como se tivesse grudado nas paredes para não ser esquecido. Ivan enfiou as mãos nos bolsos. Não para se aquecer, mas para esconder o tremor dos dedos. Que raios era aquilo? O arrepio que subia pela espinha não vinha do frio, mas de uma sensação física: algo o chamava pelo nome, embora ninguém tivesse dito nada. As lâmpadas, penduradas como frutos amarelos, pulsavam devagar, imitando a respiração de um corpo adormecido. As placas metálicas brilhavam de suor. O som da gota d’água não chegava a ecoar. Foi então que, ao fundo, ouviu uma voz fragmentada cantando: “Eu sou ego… eu sou… ista. Eu sou egoísta…” Ivan riu sozinho — um riso curto, sem graça. — Sim, Raulzito… muito, mas muito egoísta. — pensou, como quem veste um casaco velho que conhece cada costura. Não sabia se isso o salvava ou o condenava, só sabia que não tinha energia para mudar. Deu u...

Meu Diário Nada Querido, quarta 24.08.2025 às 3h47 da madrugada [por Frederico Ileck]

Meu Nada Querido Diário, Era um fim de tarde qualquer de 2011 quando, após um dia duro de trabalho, resolvi fotografar o Koningsdag . Nos meus primeiros dois anos na Holanda, eu achava esse dia o máximo. Depois comecei a chamá-lo de “dia da tralha” ou simplesmente “garbage day”. Na essência, é o aniversário do rei — cada um comemora do seu jeito. A maioria resolve fazer um saldão das coisas que tem em casa. Muitas delas são tralhas... isso mesmo: lixo! Só que lixo holandês: um luxo. É o filé mignon do consumismo fútil! Brinquedos, livros, furadeiras, artesanatos amadores, artistas frustrados, performances cringe ... enfim. Uma mistura cinematográfica de Federico Fellini com Paul Verhoeven. Pra ser sincero, até o dia desta foto eu ainda adorava essa tosqueira, mesmo com um guri cruzando a todo valor em frente da câmera. Que lindinho! Mas nesse ano em específico, as ruas estavam abarrotadas de produtos “made in...” algum canto do Or...

Analice no País das Más Noticias (prólogo - no buraco da urgência)

Prólogo – No Buraco da Urgência Era madrugada em São Paulo. Quer dizer: era sempre madrugada em São Paulo. A cidade, insone, respirava como máquina desregulada. Um carro acelerava lá longe, um alarme soluçava sozinho, uma ambulância rasgava a escuridão, e no ar pairava aquele motor anônimo — motor eterno — que ninguém nunca desligou, mas que gira sem parar, lembrando a todos que o mundo, ao contrário do corpo humano, nunca tem hora para dormir. No estúdio, Analice ajeitava seus papéis com uma calma ensaiada, quase ritualística. Mas algo não estava normal: as folhas não ficavam quietas. Estalavam, viravam por conta própria, disputavam espaço, como se cada uma quisesse furar a fila e ser a primeira manchete daquele jornal. O letreiro AO VIVO piscava em vermelho furioso, como coração em taquicardia. Foi então que a porta se abriu com um estrondo: — URGENTE! URGENTE! URGENTE! Um homem atravessou correndo o cenário. Vestia terno amarrotado, gravata frouxa...

A Inteligência Artificial é Previsível? Eu não! [por Frederico Ileck]

Dizem que a inteligência artificial é previsível. E, no fundo, não deixa de ser verdade. São treinadas em padrões, estatísticas, correlações — um grande eco do que já foi dito, pensado, escrito. Sua "criatividade" é uma soma de possibilidades calculadas. É um improviso que não improvisa, uma jam session sem jazz. Tudo junto e misturado, só que ordenado com metas, cálculos e ambições, claro. Como é que seus criadores vão ganhar o pão nosso de cada dia?  Byung-Chul Han, sempre ele, diria que aqui se revela o cansaço da transparência : tudo já foi previsto, tudo se torna dado, informação digerível. A imprevisibilidade do gênio — o drible de Pelé que nunca ninguém ousou imaginar, o arremesso impossível de Jordan no último segundo — não cabe nela. Ela gera o "provável", mas não o "impossível". Falando em Pelé, uma IA conseguiria copiar ou prever o quarto gol do Brasil contra a Itália na final da copa de 70? Aquilo foi uma obra de arte e...

Santos 1999 (Capítulo 2 – Linha Cruzada) [por Frederico Ileck]

Capítulo 2 – Linha Cruzada O cheiro veio primeiro: café fresco com um fundo de maresia — mas não aquela azeda do emissário. Era um cheiro limpo, com um toque doce de Chanel n° 5, tão espesso que parecia atravessar paredes como quem atravessa água. Depois vieram os sons: o tilintar de um garfo contra o prato, o ventilador rangendo preguiçoso no quarto ao lado, e, por trás de tudo, um zumbido leve, como se o próprio ar respirasse. Ivan abriu os olhos. O teto era o mesmo que lembrava, mas o quarto… não. Lençóis azuis ondulavam sozinhos, como se guardassem um vento preso. Sobre a mesa, uma pilha de revistas — Carta Capital , Isto É , Veja — exalava um cheiro de recém-lançadas, embora todas pra lá de folheadas. No cabide atrás da porta, o casaco de Carla parecia observá-lo. Levantou-se devagar, como se um gesto brusco pudesse espantar aquela realidade para sempre. Na cozinha, Carla estava de pijama cinza, cabelo preso, rindo sozinha para algo que lera no jornal. Ela era free-l...